"... se hoje me puderes ouvir
recomeça, medita numa viagem longa
ou num amor
talvez o mais belo."
(José Tolentino ⏤ Se me puderes ouvir)
Não fui à Festa Literária Internacional de Paraty (Flip 2026), mas tive o prazer de assistir a algumas palestras pelo YouTube e pelo canal de TV Arte 1. Cito as palestras da ministra Cármen Lúcia e do cardeal poeta José Tolentino. Cármen Lúcia deu uma verdadeira aula de democracia, valorizou as bibliotecas, as alfabetizadoras e deu destaque ao papel das mulheres na sociedade atual. José Tolentino, o cardeal, poeta e teólogo português, superou as minhas expectativas.
Ministra Carmen Lúcia (Flip 2026, Paraty) ▪️ Fonte: STF
Na sua explanação, contou que teve uma avó analfabeta que lhe transmitiu o gosto pelas histórias do romanceiro português. Na infância, portanto, conheceu a primeira biblioteca de sua vida, uma biblioteca oral. Esse relato me levou a Chicuta, uma contadora de histórias nascida no Engenho Baixa Verde (PB), que me contou
Algumas coisas me causaram admiração no cardeal poeta: o falar próximo do português brasileiro e o grande conhecimento que demonstrou ter da literatura brasileira. Citou versos de Manoel de Barros, Cecília Meireles, Carlos Drummond de Andrade, Jorge de Lima, além de frases antológicas de Guimarães Rosa e Clarice Lispector.
Outra faceta admirável de José Tolentino é o modo simples de expor suas ideias: nada de exibicionismo ou demonstração de erudição; tudo natural, como a água que corre dos rios. Gravei estes versos que repetiu do poeta Manoel de Barros: "Difícil fotografar o silêncio. Entretanto tentei".
Passou um período no Japão e tentou escrever haicais. Teve certa dificuldade, pois entende que é difícil escrever essa modalidade poética. Parece que foi moldada para os japoneses; só quem conhece a cultura e a literatura japonesas é capaz de escrever bons haicais. Mesmo assim, escreveu um livro com esse tipo de poesia. Deve ter se lembrado dos versos de Manoel de Barros que citou na palestra.
Além de poeta e cardeal, José Tolentino é professor universitário, doutor em Teologia, tem uma vasta obra poética, livros teóricos ligados à religião e ensaios espirituais e de reflexão filosófica. Os Dias Contados (1990) foi seu livro de estreia. Nenhum Caminho Será Longo (2013), de reflexão espiritual e existencial, foi publicado no Brasil pela Editora Paulinas. Ressalto, ainda, Os Enigmas Singulares (2026), uma antologia poética para o público brasileiro, lançada pelo Círculo de Poemas e autografada durante a realização da Flip.
Dom José Tolentino na Feira Literária Internacional de Paraty ▪️ YouTube: @flipfestaliteraria
No aconchego do lar, longe do estéril turbilhão da rua, parafraseando o poeta Olavo Bilac, não escrevi poemas, mas ouvi vozes de mestres que muito me ensinaram. Todos os dias aprendemos algo de novo; a vida é um eterno aprendizado.
Poetas de uma mesma geração, donos de obra vasta e ambos detentores de grande erudição, o português José Tolentino Mendonça e o brasileiro Edimilson de Almeida Pereira conversam sobre linguagem poética, enigma e identidade.









