Muito provavelmente, você está na fila dos incautos que serão vítimas do golpe do pagamento dos precatórios.
A EXPLICAÇÃO
Precatório é a maneira infame e perversa usada pelos governos (municipais, estaduais e federal) para pagarem o que devem a você, que não pode atrasar o recolhimento dos impostos devidos a eles, sob pena de multas pesadíssimas. Já os governos podem e usam os precatórios para pagar, mais de dez anos depois, um prejuízo que causaram a você, quase sempre conscientemente.
31.7.26
Até 1993, eu me julgava ateu. Como documentarista, trabalhando para o Centro Peixe-Boi, do Ibama, durante uma gravação na Reserva Bi...
Até 1993, eu me julgava ateu. Como documentarista, trabalhando para o Centro Peixe-Boi, do Ibama, durante uma gravação na Reserva Biológica dos Lagos Piratuba, no Amapá, tive uma epifania, ao amanhecer.
31.7.26
Eu sempre achei que os primeiros a bater palmas quando conseguíssemos algo seriam justamente aqueles que dividem a mesa, o teto, a no...
Eu sempre achei que os primeiros a bater palmas quando conseguíssemos algo seriam justamente aqueles que dividem a mesa, o teto, a nossa história. Demorou um tempo para entender que não é bem assim. Muitas vezes, quem mais conhece os nossos medos acaba usando eles para nos parar. Dizem que é cuidado, na verdade, acaba apagando o brilho dos nossos sonhos.
31.7.26
Apenas quatro cadeiras rodeavam o tampo de fórmica reluzente mesmo sem a limpeza com flanelas. Era o móvel mais importante da pequena ...
Apenas quatro cadeiras rodeavam o tampo de fórmica reluzente mesmo sem a limpeza com flanelas. Era o móvel mais importante da pequena sala ainda sem os sofás para os amigos e os parentes. Os que nos chegassem, se passassem de quatro, serviam-se de vários almofadões dispostos em ambiente único a serviço das refeições e das visitas.
30.7.26
Em Apareci quando te vi , Fernanda D’Angelo constrói uma narrativa que se move entre a delicadeza da memória e a brutalidade silenciosa ...
Em Apareci quando te vi, Fernanda D’Angelo constrói uma narrativa que se move entre a delicadeza da memória e a brutalidade silenciosa do tempo. A obra se apresenta como uma autoficção profundamente íntima, mas é justamente na coragem de expor as próprias fragilidades que encontra sua dimensão universal. Não se trata apenas de um livro sobre mãe e filha, sobre doença ou ausência; trata-se, sobretudo, da tentativa humana de reorganizar afetos enquanto tudo parece escapar pelas mãos.
30.7.26
"... se hoje me puderes ouvir recomeça, medita numa viagem longa ou num amor talvez o mais belo." (José Tolentino ⏤ Se m...
"... se hoje me puderes ouvir
recomeça, medita numa viagem longa
ou num amor
talvez o mais belo."
(José Tolentino ⏤ Se me puderes ouvir)
Não fui à Festa Literária Internacional de Paraty (Flip 2026), mas tive o prazer de assistir a algumas palestras pelo YouTube e pelo canal de TV Arte 1. Cito as palestras da ministra Cármen Lúcia e do cardeal poeta José Tolentino. Cármen Lúcia deu uma verdadeira aula de democracia, valorizou as bibliotecas, as alfabetizadoras e deu destaque ao papel das mulheres na sociedade atual. José Tolentino, o cardeal, poeta e teólogo português, superou as minhas expectativas.
30.7.26
Exílio de mim Contemplo o extremo de mim. Infinitos mundos mudos, Tudo arrefecido, Repentino pretexto, Mãos estendidas, Que o cor...
Exílio de mim
Contemplo o extremo de mim.
Infinitos mundos mudos,
Tudo arrefecido,
Repentino pretexto,
Mãos estendidas,
Que o coração expia,
Gestos passados,
Uma espécie de véu de seda,
Que nunca se desdobra,
Cósmicas formas humanas,
No estardalhaço dos pardais,
Que desafiavam minha imaginação.
Sublevação,
30.7.26
A relação entre o escritor e o leitor é um elo fundamental na construção do conhecimento e da cultura. Neste contexto, é essencial r...
A relação entre o escritor e o leitor é um elo fundamental na construção do conhecimento e da cultura. Neste contexto, é essencial refletir sobre a importância do respeito mútuo e da ética que permeiam essa interação.
29.7.26
Reflexões à Luz do Evangelho, da Psicologia Profunda e da Arte Nas engrenagens aceleradas da vida contemporânea, o ser humano vê-s...
Reflexões à Luz do Evangelho, da Psicologia Profunda e da Arte
Nas engrenagens aceleradas da vida contemporânea, o ser humano vê-se frequentemente enredado em uma teia invisível de urgências, sobressaltos e cobranças desmedidas. Vivemos em uma época em que o corpo transita em velocidade vertiginosa, enquanto a alma, sobrecarregada, clama por um instante de pausa e ar puro. É na encruzilhada dessa rotina ansiogênica que desponta uma verdade ancestral e urgente:
29.7.26
Aconteceu comigo. Novembro de 1977. Havíamos terminado uma manhã de aulas em Presidente Prudente, interior de São Paulo. Eu e Claudemi...
Aconteceu comigo. Novembro de 1977. Havíamos terminado uma manhã de aulas em Presidente Prudente, interior de São Paulo. Eu e Claudemir. Ele na Física e eu na Matemática. Aulas de cursinho para o primeiro vestibular sob a égide da FUVEST.
29.7.26
Prolegômenos (Da Série: Deixemos Homero falar ) A Ilíada e a Odisseia são poemas milenares, produzidos numa época distante (sécul...
A Ilíada e a Odisseia são poemas milenares, produzidos numa época distante (século VIII a. C.), enfocando uma época bem anterior à sua criação. Estima-se que o assunto desses épicos recue para um mundo pré-helênico do século XII a. C., quando existiam, no Mediterrâneo oriental, duas civilizações pujantes: a micênica, no Peloponeso, e a cretense, no meio do mar Egeu.
29.7.26
Dominar o uso da crase pode parecer um desafio, mas, na verdade, é um processo lógico e tranquilo quando entendemos que ela nada mais ...
Dominar o uso da crase pode parecer um desafio, mas, na verdade, é um processo lógico e tranquilo quando entendemos que ela nada mais é do que uma fusão. Imagine o encontro de dois elementos: a preposição "a" (exigida por uma palavra anterior) e o artigo "a" (que acompanha uma palavra feminina seguinte). Quando esses dois se juntam, usamos o acento grave (`) para marcar essa união.
29.7.26
Lendo a crônica da jornalista Rosa Aguiar, “O Grande Portinari”, em A União de 18 de julho, eis que comecei a passear pelos assuntos ...
Lendo a crônica da jornalista Rosa Aguiar, “O Grande Portinari”, em A União de 18 de julho, eis que comecei a passear pelos assuntos de Rosa. Qual o seu pintor favorito? Rosa inicia o seu passeio. E fala de Renoir, de Archidy Picado e de Portinari e do seu lugar de nascimento, Brodowski (SP). Pronto, foi o meu ponto de partida! E lá vou eu para 1972, para uma viagem de carro até Ribeirão Preto, onde moravam os meus cunhados, Lela Melquíades e Zezinho Tavares (Dr. José Arnaldo Tavares de Melo, in memoriam). Viajamos eu, o namorado Flávio Tavares, meu cunhado Sérgio Tavares (*in memoriam) e a minha sogra, D. Otaviana.
28.7.26
Na crônica desta semana , no *Ambiente de Leitura*, para lembrar o sanfoneiro Sivuca, Gonzaga Rodrigues recordou os encontros dos sá...
Na crônica desta semana, no *Ambiente de Leitura*, para lembrar o sanfoneiro Sivuca, Gonzaga Rodrigues recordou os encontros dos sábados à noite no terraço da casa de Nathanael Alves, em Tambauzinho, entre amigos revelados e alimentados pela arte da leitura e pelo gosto de escrever.
28.7.26
Li há algum tempo, num dos números de “Veja”, que os bons alunos brasileiros não querem seguir o magistério. Quem deseja abraçar essa ...
Li há algum tempo, num dos números de “Veja”, que os bons alunos brasileiros não querem seguir o magistério. Quem deseja abraçar essa carreira são os estudantes medíocres. Segundo pesquisa apresentada na reportagem, ser professor é o horizonte do “grupo dos 30% com as piores notas no boletim”. Parece que a sala de aula não atrai os que se acham preparados para conquistar coisa melhor.
27.7.26
Existe uma estranha ironia na condição humana, que nos exige aprender desde cedo a habitar o mundo, mas quase nunca aprendemos a h...
Existe uma estranha ironia na condição humana, que nos exige aprender desde cedo a habitar o mundo, mas quase nunca aprendemos a habitar a nós mesmos. Aprendemos a ler mapas, a construir carreiras, a adquirir bens, a interpretar o comportamento dos outros e até a esconder aquilo que sentimos. Tornamo-nos especialistas em ocupar espaços externos,
27.7.26
Tristeza não é sobre o fim das coisas, mas sobre a beleza de elas terem existido. Existe um tipo muito específico de silêncio...
Dançar entre as folhas que caem: A arte de aceitar o fim para abraçar o agora
Tristeza não é sobre o fim das coisas, mas sobre a beleza de elas terem existido.
Existe um tipo muito específico de silêncio que só a perda consegue instaurar. É um silêncio denso, quase palpável, que não preenche apenas a sala ou o quarto de hospital, mas reverbera nas dobras mais escondidas de quem fica. Nesses momentos, quando o mundo ao redor parece perder temporariamente a gravidade e o chão sob nossos pés vacila, a reação quase instintiva do ser humano moderno é o espanto, o protesto, a recusa. Fomos educados para conquistar, acumular, estender e vencer e, por isso, encaramos a morte como uma derrota pessoal, uma falha na engrenagem, um ladrão que surge sem avisar.
27.7.26
O jurista, professor e escritor Joaquim Falcão, carioca de fundas raízes pernambucanas, acaba de publicar o mais lúcido, cristali...
O jurista, professor e escritor Joaquim Falcão, carioca de fundas raízes pernambucanas, acaba de publicar o mais lúcido, cristalino e corajoso diagnóstico do Brasil de nossos dias. Trata-se de A Oligarquia dos Poderes e a Crise da Democracia, Editora História Real, Rio de Janeiro. É um livro precioso e indispensável para quem deseje ver em letra de forma aquilo que se percebe no ar, como um odor infecto, ou seja: o sentimento de que o país mergulha cada vez mais no poço fundo da corrupção e de que não há reais perspectivas de salvação à vista.
Mas não pense o precavido leitor que é uma leitura difícil e exigente. Ao contrário. Temos aqui mais um legítimo produto Joaquim Falcão, no seu estilo inconfundível, objetivo, até mesmo didático, em que a seriedade do assunto perde seu peso intrínseco para tornar-se acessível ao leitor leigo qual uma crônica. Entre outros, é este um mérito da obra e do autor que merece ser exaltado.
26.7.26
“A Somália é um paradoxo político: é um país unido à superfície e mortalmente dividido em profundidade. Trata-se do Estado-Nação mai...
“A Somália é um paradoxo político: é um país unido à superfície e mortalmente dividido em profundidade. Trata-se do Estado-Nação mais homogéneo do planeta. Tem nove a dez milhões de habitantes, que falam quase todos a mesma língua e têm a mesma origem étnica. Mas tudo está dividido em clãs.”
Jeffrey Gettlemanin “O País mais perigoso do Mundo”; Courrier Internacional, edição Nº 160 de Junho de 2009
26.7.26
Há rios que jamais se encontram na geografia, mas que se reconhecem na eternidade de um povo.
Vim ver quem era Sivuca na casa de Nathanael Alves. Ele voltara dos Estados Unidos, onde havia experimentado a fama internacional, e viera matar a saudade de sua Itabaiana na casa de Félix Galdino, vizinhos de sítio. Félix era vizinho de Nathanael, aqui em Tambauzinho, e, como era lá que nos reuníamos
Sivuca ▪️ Fonte: Sounds of David
todos os sábados à noite, arrastamos Sivuca para o nosso papo. Um papo que não se repetirá mais neste mundo. Como se vê, éramos Nathanael, Ednaldo do Egito, José Souto, Solha, às vezes Durval Leal, e o Félix já citado.
25.7.26
Dia desses , comentei com uma amiga que gosto do número 7. E de 8, 6 e 3. Ela gosta do número 4, por exemplo. Ou seja: gostamos de num...
Dia desses, comentei com uma amiga que gosto do número 7. E de 8, 6 e 3. Ela gosta do número 4, por exemplo. Ou seja: gostamos de numerologia. Há quem diga que é crendice. Mas, afinal, como não ter um pouco disso no Brasil? O sincretismo, aqui, é cultural.
25.7.26
O romance Sertão com nome de mulher, de Andrea Mariano, nasce de uma intenção legítima: revisitar o sertão nordestino pela ótica fem...
O romance Sertão com nome de mulher, de Andrea Mariano, nasce de uma intenção legítima: revisitar o sertão nordestino pela ótica feminina, deslocando o eixo tradicionalmente masculino das narrativas agrestes. Há, no projeto do livro, um desejo evidente de discutir pertencimento, violência simbólica, memória afetiva e resistência das mulheres em um espaço historicamente marcado pelo patriarcado. Contudo, entre a intenção estética e a realização literária, abre-se um deserto de fragilidades narrativas que impede a obra de alcançar maior densidade artística.
25.7.26
Em conversa com meu neto Arthur, ele, falando de animais, a sua mais recente paixão, referiu-se à jaguatirica como “o jaguatirico”. Pa...
Em conversa com meu neto Arthur, ele, falando de animais, a sua mais recente paixão, referiu-se à jaguatirica como “o jaguatirico”. Para que ele pudesse, futuramente, fazer uso do normativo, disse-lhe que ele deveria dizer “a jaguatirica macho”, pois não existe o par opositor jaguatirico/jaguatirica. É importante frisar que não mencionei se era certo ou errado, mas o que era mais adequado, de acordo com a norma vigente.
24.7.26
O presidente mundial da Pepsi-Cola foi recebido pelo Papa em uma audiência especial, porque o assunto a ser tratado era a doação de um...
O presidente mundial da Pepsi-Cola foi recebido pelo Papa em uma audiência especial, porque o assunto a ser tratado era a doação de uma altíssima quantia aos cofres do Vaticano. Ele explicou a Sua Santidade a preocupação com o mercado, que preferia a Coca-Cola. Pretendia fazer uma doação de 1 bilhão de dólares aos combalidos cofres da Santa Sé se a Igreja ajudasse a Pepsi-Cola a superar a rival. O bondoso Pontífice quis saber como seria essa ajuda, e ele respondeu:
24.7.26
O diabo é o diabo não porque é velho, mas porque é sábio e ainda enxerga o que precisa ser visto.
Dona Camila e Seu Durvalino estavam ali muito perto das bodas de ouro. Criaram dois rapazes e uma moça que já estavam pelo mundo, como se diz, ganhando a vida com suas próprias famílias.
23.7.26
Perdão Bilac, mas não resisti. É que as câmeras do mundo inteiro não pegaram Ancelotti sem goma de mascar, uma vez sequer, à beira dos...
Perdão Bilac, mas não resisti. É que as câmeras do mundo inteiro não pegaram Ancelotti sem goma de mascar, uma vez sequer, à beira dos campos da Copa de 2026, competição ao fim da qual nossa Seleção amargou a décima-primeira colocação geral. Contratado pela CBF, em maio de 2025, para assumir
23.7.26
A poética etnomusicológica é uma metodologia epistemológica e pedagógica que integra a percepção artística à etnografia para reorganiza...
A poética etnomusicológica é uma metodologia epistemológica e pedagógica que integra a percepção artística à etnografia para reorganizar a produção musical, a pesquisa e o ensino. Ao fazê-lo, constitui um processo de descolonização da educação acadêmica no século XXI, desafiando o predomínio histórico de modelos de ensino baseados em paradigmas europeus e oferecendo uma base para o desenvolvimento dos saberes tradicionais e populares no contexto educacional.
23.7.26
No ano de 1961, o presidente dos Estados Unidos da América, John Kennedy, criou o Peace Corps . Esta entidade recebeu, no Brasil, o no...
No ano de 1961, o presidente dos Estados Unidos da América, John Kennedy, criou o Peace Corps. Esta entidade recebeu, no Brasil, o nome de Voluntários da Paz. Previa a integração dos EUA com países americanos. Originalmente, esses convênios previam, entre outras coisas, reformas de base, inclusive a reforma agrária.
23.7.26
A convivência entre amigos e a dinâmica das discussões nos revelam muito sobre a natureza humana. É intrigante observar como desavenç...
A convivência entre amigos e a dinâmica das discussões nos revelam muito sobre a natureza humana. É intrigante observar como desavenças, muitas vezes por motivos triviais, podem levar à ruptura de laços que, em essência, deveriam ser fortalecidos pelo respeito e pela compreensão.
22.7.26
Dia de estreia! Chegou o dia pelo qual esperava já havia algum tempo. Dia normal, quinta-feira, primeiro horário, chovendo muito; qual...
Dia de estreia! Chegou o dia pelo qual esperava já havia algum tempo. Dia normal, quinta-feira, primeiro horário, chovendo muito; qual não foi a minha surpresa ao encontrar a sala de cinema completamente ocupada.
22.7.26
Acordo mas não inteiramente Há ainda um resto de mim que insiste em dormir dentro do que sou Abro os olhos como quem abre uma fre...
Acordo mas não inteiramente
Há ainda um resto de mim que insiste em dormir dentro do que sou
Abro os olhos como quem abre uma fresta
e por ela escapa uma poeira de pensamentos,
plumas que não sei se são minhas
ou se me vestem
Dentro da cabeça
uma sala fechada
As frases andam devagar
22.7.26
Em criança, só tive a alegria de chamar de pai, na Terra, uma pessoa muito especial, até os cinco anos de idade. Tive um padrasto. Mas...
Em criança, só tive a alegria de chamar de pai, na Terra, uma pessoa muito especial, até os cinco anos de idade. Tive um padrasto. Mas a doença o modificou.
22.7.26
Há um mundo que dorme no sótão. Tão só. Ele anseia por uma resposta, mas só ouve seus ecos que o ensurdecem e o retira a visão. Com pa...
Há um mundo que dorme no sótão. Tão só. Ele anseia por uma resposta, mas só ouve seus ecos que o ensurdecem e o retira a visão. Com passos trôpegos insiste em caminhar. Para onde? Está escuro. De onde virá a luz? Mundo arregimentado por burburinhos, pela indiferença.
21.7.26
Estamos vendo desmoronar o mundo onde nasceu Augusto dos Anjos, assim como desmoronaram os engenhos da família com o fim da mão de obra...
Todas as famílias infelizes se parecem; cada família infeliz, é infeliz a sua maneira.
Liev Tolstói
A família se revela menos como espaço de encontro ou pertencimento e mais como uma arquitetura da ausência, sustentada por existências mínimas, silêncios e tudo aquilo que nunca conseguimos dizer.
Eduardo Reis, Prof UFBA
21.7.26
Ainda com a barra da calça cheia de pega-pinto, gostaria de esclarecer alguns fatos a respeito desta árvore tricentenária, o famoso Ta...
Ainda com a barra da calça cheia de pega-pinto, gostaria de esclarecer alguns fatos a respeito desta árvore tricentenária, o famoso Tamarindo de Augusto dos Anjos, sob cuja fronde o poeta teria chorado, “com a canseira / De
inexorabilíssimos trabalhos!” (todas as referências são da *Obra completa*, preparada por Alexei Bueno, Rio de Janeiro, Nova Aguilar, 1994. “Debaixo do Tamarindo”, p. 210).
21.7.26
A opinião é um ganho civilizatório. É uma forma educada de contestar os outros. Quem opina discorda (afasta-se pelo coração), mas a ...
A opinião é um ganho civilizatório. É uma forma educada de contestar os outros. Quem opina discorda (afasta-se pelo coração), mas a vida é assim mesmo. Nem compre a concórdia é possível num universo em que são tão diversos os fatos e as pessoas. Ao afirmar que toda unanimidade é burra, Nelson Rodrigues traduziu o essencial: uma verdade se afirma, sobretudo, pelo que ela contesta. Como o outro lado, por sua vez, também não abdica de contestar, espera-se chegar a uma provisória pacificação pelo equilíbrio das diferenças.
Assim como para escapar de um vício é preciso “evitar a primeira vez” (no dizer de Rousseau), para adquirir um bom hábito é preciso começar a praticá-lo. No começo está sempre uma promessa de continuidade. É mais fácil deixar de fazer o que não se começou.
Hoje as pessoas aceitam que o que compram pode fazê-las felizes. Nossa sensibilidade de
consumidores é moldada pelo que gratifica, sobretudo, em termos materiais. Isso explica por que o dinheiro é o deus supremo. Sem ele nada se tem e, por extensão, nada se é. Atualmente tudo se mercadeja, inclusive a religião. É verdade que “a Graça” nunca veio de graça, mas antes tinha pela menos um aspecto desprendido e piedoso, que disfarçava suas motivações venais.
O mercado sempre pega uma carona mesmo que o veículo esteja na contramão dos seus propósitos. Por exemplo: no filme “Barbie”, o cor-de-rosa remete à falência das ilusões associadas à imagem da boneca. É estranho que na vida real se reproduza, por adereços e vestimentas, um cenário que a película procura ironizar. Ou o pessoal não entendeu nada, ou entendeu e (mesmo sem querer) tomou o partido da ironia e da carnavalização.
A Inteligência Artificial promete facilitar a vida de engenheiros, administradores, profissionais de saúde, enfim, dos que podem
contar com a sua amplidão de processamento informacional para fazer cálculos e manipular instrumentos. Nessas áreas, é praticamente certo o seu nível de acerto. Em outras, ela pode se tornar um perigo. Isso porque, quando erra, a IA tem a inflexibilidade de um burro teimoso. Como foi moldada para apresentar determinadas respostas, e só elas, não pode se corrigir. Ou seja, não tem consciência, que é justamente a capacidade de se reconhecer em erro, “voltar atrás” e criar novos padrões de comportamento.
O esporte, que é por definição uma alternativa à guerra, acaba espelhando com ânimo bélico as contradições da vida. A recente Copa do Mundo mostrou isso com a sua profusão de agressões e ardis promovidos por quem deveria, em princípio, respeitar as regras.
Espera-se que, se na guerra vale tudo, no esporte se demonstre respeito pelos oponentes e o reconhecimento dos melhores sem ressentimentos nem deslealdade. Infelizmente, muitos trabalharam para que não fosse assim. E não deixou de ser irônico, num evento em que os embates visam sublimar nossos impulsos homicidas, que a premiação aos vencedores tenha saído feita por um presidente que no momento patrocina uma guerra real.
20.7.26
Há homens que aprenderam a esconder a dor, não porque fossem naturalmente fortes, mas porque lhes ensinaram que sentir era uma forma d...
Há homens que aprenderam a esconder a dor, não porque fossem naturalmente fortes, mas porque lhes ensinaram que sentir era uma forma de fracasso. Cresceram ouvindo que lágrimas enferrujam a coragem, que a fragilidade corrói o respeito e que a delicadeza enfraquece o caráter. Assim, fecharam as janelas da alma e ergueram muralhas onde antes havia espaço para a luz. Antes de qualquer definição sobre o que é ser homem, existe uma pergunta mais antiga.
20.7.26
Há livros que nos atravessam como um vento leve, e há aqueles que nos ficam, como uma chuva fina que insiste em cair dentro da gente....
Há livros que nos atravessam como um vento leve, e há aqueles que nos ficam, como uma chuva fina que insiste em cair dentro da gente. No horizonte tem chuva fiando, de Bia Crispim de Almeida, pertence a esse segundo tipo raro: não apenas se lê, mas se sente, se respira, se carrega.
20.7.26
Tal como Machado de Assis , Carlos Drummond de Andrade era – é – considerado um burocrata perfeito. Sério, responsável, metódico e or...
Tal como Machado de Assis, Carlos Drummond de Andrade era – é – considerado um burocrata perfeito. Sério, responsável, metódico e organizado, foi tudo isso, enquanto funcionário público, sem forçar a natureza, pois até na vida privada era assim, com a vida pessoal e também a do seu tempo devidamente fichada, catalogada e arquivada; de tal modo que seus estudiosos pouca dificuldade têm para acessar informações e outros registros importantes sobre suas biografia e obra. Nesse perfeccionismo, creio até que ultrapassou Machado como ícone da burocracia brasileira.
19.7.26
Consta-me que, ao dirigir-me ao nosso ilustre monarca, o "Vossa Majestade" exigiria tratamento na terceira pessoa do singular...
Consta-me que, ao dirigir-me ao nosso ilustre monarca, o "Vossa Majestade" exigiria tratamento na terceira pessoa do singular; no entanto, em se tratando dessa figura de tão nobres predicados, fá-lo-ei nesta missiva usando a segunda pessoa do plural, por ser, a meu ver, mais elegante e respeitosa. Então, à carta.