A falta de um espelho no banheiro social da casa alugada pelo meu filho mais velho, professor de biologia no Campus que a Universidad...

O espelhinho

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A falta de um espelho no banheiro social da casa alugada pelo meu filho mais velho, professor de biologia no Campus que a Universidade Federal de Campina Grande mantém em Cuité, zona do Curimataú paraibano, fez-me sentir saudade dos costumes e modos vigentes no início de 1960, quando “adolesci”, com o perdão do termo tomado do neto de 12 anos.

Naquela época, macho nenhum que se prezasse andava sem espelhinhos de bolso. A Internet traz-me o aviso de que eles ainda existem no Mercado Livre, a maior plataforma de comércio eletrônico da América Latina, e na Casa do Velho (êpa!), “loja brasileira de colecionismo”, assim descrita.

Redondo, com aro de latão e fundo de flandres, um espelhinho daqueles, em sua versão mais simples, cabia na algibeira, detalhe frontal popularizado por marcas de jeans como a Levi & Strauss. Antes disso, esse quinto bolso das calças acomodava, presos a correntes, os relógios dos nossos avós.

Meus espelhinhos sempre tiveram no verso o escudo do Fluminense, time do qual aprendi a gostar assim que o locutor Pedro Luiz me apresentou, pelas ondas da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, o talento de Castilho, Altair, Pinheiro, Telê Santana e Escurinho. Às vezes, dava um trabalho danado descobrir, nas bancas das feiras livres, entre os mais desejados, o emblema do meu clube misturado aos dos cariocas Vasco, Flamengo, Botafogo e América, ou aos dos paulistas Santos, São Paulo, Palmeiras e Corinthians. Eu mexia e remexia aquelas pilhas até encontrar o símbolo e as cores do meu agrado.

Naquele banheiro, a bem da verdade, também senti falta do pentezinho inquebrável do qual, aos 15 ou 16 anos, nem eu nem meus contemporâneos nos separávamos. Para meu azar, o que então de melhor modo se acomodava em bolsos e mãos juvenis trazia o rótulo “Flamengo”. Era produzido pela Companhia Carioca de Indústrias Plásticas e, por razões óbvias, tinha o meu desprezo. Eu então optava pela marca “Bandeirante”, ou “Galo”. É preciso dizer que todos tinham como apelo publicitário a garantia de que não quebravam. E, apesar de guardados nos bolsos traseiros, não quebravam mesmo. Aguentavam qualquer marmanjo, pesasse o quanto pesasse. Os modelos mais buscados eram feitos de borracha vulcanizada. De baquelite, caso assim prefiram.

Os pentes e espelhos de bolso foram com maior frequência empunhados por machos orgulhosos de suas cabeleiras, mundo a fora, na década de 1950 até meados dos anos 60. Quem, naqueles idos, não queria as trunfas de James Dean, de Elvis Presley, de Sal Mineo? Este último, com suas aparições no cinema, também muito fez para imortalizar o visual “rebelde” da época. Isso, ao custo de muitos pentes e muitas brilhantinas.

Lembro das mais populares: Palmolive e Glostora, ambas perfumadíssimas. Eram diferentes do gel que, utilizado hoje em dia, logo resseca ao vento a fim de deixar todo e qualquer cabelo masculino duro como pedra. Perdão pelo desvio da conversa, mas sou levado, atualmente, a crer em que o gel na cabeça de certas e sabidas expressões da política nacional e internacional serve, sobretudo, para suster seus juízos. Sem gel aqueles cérebros desmoronariam, acredito eu.

Quando da minha juventude, brilhantina, qualquer que fosse, estava mais para pomada. Emplastrava tudo, mas deixava os cabelos sedosos e um tanto soltos. Daí, a necessidade frequente do pente e do espelhinho após algumas lufadas mais fortes de vento. Refeito o penteado, o feliz proprietário de uma bela cabeleira tratava de desarrumar um pouco o topete a fim de dar-lhe um ar mais natural. “Pega-moça”, dizia-se.

Se, entre Glostora e Palmolive, me perguntassem da preferência pessoal, eu indicaria essa última. Isso porque, além do conteúdo perfumado, as tampas dos potinhos serviam de zagueiros no futebol de botão. Já vinham quase prontos. Para entrar em campo apenas requeriam pingos de vela no interior com os quais adquiriam o peso necessário às trombadas e bolas divididas.

Eis outra coisa da qual me lembrei naquele banheiro não totalmente arrumado. No Pilar da minha infância e início da adolescência, o barbeiro Parcela esconjurava os Beatles. Aqueles quatro rapazes quase o levaram à falência quando fizeram dos cabelos compridos um estilo universal. De Liverpool a Coxixola, os jovens abandonavam, gradativamente, a cada sucesso de rocks e baladas, a barbearia, a brilhantina, o pente e o espelhinho comprado em pequenas lojas, ou na rua.

Não sei dizer se os fabricantes lastimaram, em algum momento, a existência de John Lennon, Ringo Starr, Paul McCartney e George Harrison nem se agudizaram a raiva em razão do evento seguinte: o surgimento dos hippies com seus mantos, seus cabelos ainda mais compridos, suas barbas fechadas e suas caras de Cristo.

A mim, não. Em nada me incomodou aquela mudança do mundo. A Jovem Guarda me apanharia, portanto, com a turma cabeluda de Roberto Carlos. O topete de Elvis foi-se com minha primeira namorada sem que isso eu lastimasse. Assim, também, o pote, o cheiro e a tampa da Palmolive. Permito-me, hoje em dia, um tiquinho de gel, de vez em quando, se a visita ao barbeiro, de tão adiada, me puser uns restos de franja nos olhos. No transcurso da Semana Santa, eu me permiti umas tantas saudades, ao catar nas calças, sem explicação, aquilo que há muito tempo não tenho nem transporto.

A próxima visita a Cuité, garanto, não me pegará desprevenido, seja por já me haver decidido pela doação de um espelho de parede ao primogênito, seja por me socorrer daquela com quem casei, ou das nossas duas noras. As mulheres, felizmente, nunca largam seus pentes e espelhos, não de bolsos, mas de bolsas. Munidas de pós e cremes faciais, elas aprenderam a suavizar as marcas do tempo e, assim, ao que parece, já não o temem tanto. Belíssima lição para este e outros parvos que, em idade avançada, contam velhas histórias enquanto buscam reflexos da mocidade em espelhos pequenos.

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