Eram catorze itens, dos quais eu já estava atrasado em três deles na minha lista, mesmo antes de escovar os dentes. Foi então que me lembrei de Sêneca, o velho romano que, há dois mil anos, já sabia que nossa maior ilusão é achar que vamos viver para sempre. Sêneca não tinha WhatsApp, não precisava acumular pontos em programa de milhagem, não sofria de ansiedade para escolher um filme no streaming. Mas, curiosamente, sabia tudo sobre a agitação inútil que nos consome. E deixou algumas regras básicas que o fizeram sobreviver com excelência aos dias que Deus lhe prometeu.
Em primeiro lugar, nos disse que o tempo não é dinheiro, porque este se recupera, mas o tempo não. Sêneca ria com aquela tristeza de quem via senadores correndo atrás de status, dos que chamavam a si mesmos de “ocupados”. “Nada é tão pobre quanto uma vida repleta de afazeres”, escreveu. Pobre não é adjetivo financeiro, é existencial.
Em segundo lugar, escreveu que você deseje o que você já tem. Parece coach de Instagram, mas é mais radical. Sêneca sugeria fazer um inventário diário das coisas que vão bem. Não para celebrar com champanhe, mas para perceber que a maioria das nossas angústias vem de querer o que o vizinho tem. O vizinho romano queria uma vila em Nápoles. O vizinho de hoje quer um carro elétrico. O mecanismo é o mesmo.
Em terceiro lugar, ensaie a pobreza. De vez em quando, vista a roupa mais simples, coma o prato mais básico, durma no chão. Não por masoquismo, mas por liberdade. Quem sobreviveu a uma noite no chão não entra em pânico se perder a bagagem no aeroporto. Sêneca, que foi imensamente rico, sabia que o problema da riqueza é nos convencer de que precisamos dela, mas não precisamos.
Em quarto lugar, adie a raiva. O estoico recomendava um truque ridiculamente eficaz: antes de responder a uma ofensa, espere um pouco. Quinze segundos, um minuto. A raiva é como vinho barato: no primeiro gole parece terrível, mas, se você espera, passa. Se não passar, pelo menos você responde com mais criatividade.
Quinto, lembre-se da morte todos os dias. “Não é que tenhamos pouco tempo”, diz ele, “é que perdemos muito.” Pensar na morte não é morbidez. É o único antídoto contra a vida protelada, contra o “um dia eu faço”, contra o “quando eu me aposentar”. Sêneca escreveu isso enquanto era tutor de Nero, sabendo que poderia ser executado a qualquer momento. Escreveu na corda bamba. E foi executado.
Viver é como atuar, construir uma escultura, ou, em outras palavras, é o que você remove de si para revelar. A verdade do que está fazendo é sua performance em exposição. E nada mais do que fazemos é sermos atores de nossas vidas, que nos custam nosso mais precioso valor: o tempo. Um bom desempenho, quando merece ser considerado grande ou importante, é sempre inteiramente composto pelo próprio ator.
Sigo olhando minha lista de catorze itens. Ainda estou atrasado em três. Mas talvez, como dizia o velho romano, o que realmente importa não está na lista. Está neste instante entre uma tarefa e outra. Na pausa. Na respiração. Na desistência tranquila de fazer tudo.






