U m dia desses, fui visitar a Livraria do Luiz, hoje ampliada e com cara de primeiro mundo, e passei pelo nosso tradicional Ponto de Cem Réi...

Nossa sala de visitas


U
m dia desses, fui visitar a Livraria do Luiz, hoje ampliada e com cara de primeiro mundo, e passei pelo nosso tradicional Ponto de Cem Réis, que valorizou-se muito com a reforma que o nosso governador de ouro, Ricardo Coutinho, fez naquele recanto que é o coração da cidade. Mas, o tempo e a falta de cuidado já estão deteriorando-o novamente.

O Ponto de Cem Réis tem que voltar a ser nossa sala de visitas. Uma praça para o povo conversar e descansar. Já deixou de ser parada de bonde, praça de automóveis de aluguel, local de encontro de amigos e gente da alta sociedade.

Sim, por falar nisso, cadê o advogado Mario Gama, vestido de linho branco e que dava expediente, ali, como advogado e vereador? Cadê aquele príncipe da cortesia, advogado Severino Ayres, rodeado de amigos, na esquina do prédio Guilherme da Silveira. Cadê o advogado Renato Bastos, cadê?... Ah, como o nosso antigo Ponto de Cem Réis reunia gente ilustre: advogados, juízes, desembargadores, jornalistas, escritores, homens de negócios.

Aquele logradouro era, como já disse, a nossa sala de visitas. Dali chegavam grandes notícias e grandes boatos. E eu estou me lembrando, agora, da Livraria Acadêmica, do advogado Geraldo Freire, ponto de encontro de estudantes e professores de Direito.

A verdade é que a cidade esteve muito contente com a restauração do seu Ponto de Cem Réis. Mas, agora é hora de tratar de recuperá-lo mais uma vez e de mandar pintar os prédios ao seu redor, a exemplo do prédio da antiga "Nações Unidas", do Paraíba Palace, e o que fica defronte dele, não é, meu amigo Petrônio Souto?…

Veio agora à memória uma frase de Ascendino Leite no livro em que ele estreou na literatura - “Minha Cidade”: “O Ponto de Cem Réis é o espelho da vida da cidade”. Será que o prefeito Luciano Cartaxo, que vem fazendo um belo trabalho na Av. Beira-Rio, tem andado por nossa sala de visitas?...

A h, essa última viagem para a Islândia!... Foi uma viagem terapêutica, pois só em contemplar a paisagem, o campo, as ovelhas pastando, a ge...

Prosaísmo no campo

Ah, essa última viagem para a Islândia!... Foi uma viagem terapêutica, pois só em contemplar a paisagem, o campo, as ovelhas pastando, a gente sentia uma profunda paz interior. E sabe quem era o motorista que estava me levando para conhecer essas paisagens? Meu filho Germano. Ainda bem que lá a mão é pela direita, pois lembro que ri muito ao vê-lo dirigindo o veículo pela “contra-mão” na Austrália, Inglaterra, Escócia, Nova Zelândia, ah galego danado.

Mas vale a pena ficar vendo os campos correndo para trás. Vale a pena olhar as ovelhas sempre de cabeça baixa, comendo o seu capim, numa tranquilidade que pede um concerto de Mozart ou um adágio de Bruckner.

E por falar em música, não é que o rádio do carro estava transmitindo um concerto de Rachmaninoff? Como o europeu valoriza a chamada música clássica! Tudo questão de educação. É preciso, desde menino, ir-se acostumando com as grandes partituras. O meu outro filho, Carlos, há muito tempo que vem estimulando os filhos para os concertos e sinfonias. O neto primogênito, desde garotinho, já sabia distinguir o estilo mozartiano do barroco. Que beleza!

Contemplando as ovelhas branquinhas, lá longe à beira-mar, pois na Islândia há praias e mais praias cheias de ovelhas pastando, vem-me esta indagação: por que elas nunca erguem a cabeça? Passam o tempo todo com o rosto no chão, indiferentes à paisagem ao derredor, alheias à beleza do céu azul, preocupadas e ocupadas apenas em comer? E isto me lembra certas pessoas que passam a vida toda sem olhar para as belezas da vida. Não sabem contemplar os lírios do campo, um jardim, um pôr de sol, um mar, um vôo de pássaros. Passam a vida mergulhadas num prosaísmo de dar pena.

Deixemos, porém, as ovelhas, que nos alimentam de leite e queijo, e continuemos a crônica. A verdade é que o homem precisa, vez por outra, transcender. Não apenas olhar para baixo ou para trás. Há necessidade de olhar de lado ou para cima.

Voltemos àquela deliciosa viagem. A temperatura estava amena, a estrada é um prato, o trânsito flui sereno e silencioso, com muito poucos carros, Afinal, esse país só tem 300 mil habitantes, imagine só...

Cada vez mais estou convencido que precisamos da Natureza em nossa vida. Precisamos de mares limpos, de avenidas arborizadas, de canteiros e jardins, inclusive os botânicos, de praças floridas, de parques, de florestas, onde possamos esquecer o prosaísmo do cotidiano.

E eis que a próxima cidadezinha islamdesa já está dando sinal de sua presença e esqueçamos as ovelhas. Confesso que eu gostaria que esta viagem se prolongasse. Nada como uma boa estrada para a gente esquecer o tempo e sonhar. Aliás, o sono é uma excelente viagem que fazemos todos os dias, desde que não haja pesadelo.

Nossos companheiros de viagem, a Alaurinda e Davi, já sabem tudo sobre a Islândia com sua bucólica arquitetura, seus campos de musgos, suas cachoeiras, não esquecendo o frio, que agora aumentou. E viva a vida! Viva a Islândia e suas ovelhas, que só olham pra baixo, feito muita gente...

N inguém amou mais esta nossa capital, a antiga Felipéia, também chamada Frederika, do que o escritor e poeta Ascendino Leite, que chegou a ...

Paraibanidades...

Ninguém amou mais esta nossa capital, a antiga Felipéia, também chamada Frederika, do que o escritor e poeta Ascendino Leite, que chegou a escrever um belo e livro intitulado “Minha Cidade”, uma espécie de declaração de amor à terra que nasceu à beira de um rio e foi parar no mar de Tambaú, onde ainda se vê o belo e imponente Cabo Branco, que, como se informou, está sendo corroído pela erosão.

Outro grande apaixonado por João Pessoa foi o genial lírico, poeta Perillo D´Oliveira, autor de “Caminhos Cheios de Sol”. Perillo amava tanto esta nossa capital que chegou a compor uma oração, que começa assim: ”Ave Cidade, cheia de graça! O meu espírito é contigo”.

Merecem ser citados também o nosso Petrônio Souto que, segundo me contam, está enchendo a Internet com lindas fotos da cidade antiga, contagiando todos com o saudosismo fotográfico. Sem esquecer o poeta José Nunes, colunista deste jornal, que, há poucos dias presenteou os leitores com suas reflexões acerca de uma pau d'arco de seus caminhos.

Eu nasci em Alagoa Nova, um verdadeiro sítio de mangueiras, segundo o poeta e historiador Eudes Barros. Mas dela saí com a idade de quatro anos. Deixei a mãe-terra orando para mim.

Mas nossa capital das acácias cresceu, sofisticou-se. Aí apareceram os grandes edifícios, sedentos de espaço e altura, e com nomes estrangeiros. Ora vejam estas denominações: “Maison de France”, “Mediterranée”, “Palazzo Milleluci”, “Milanesi”.

E não houve antes uma lei limitando a expansão e o adensamento dos espigões, a exemplo da lei que limitou a altura dos edifícios à beira-mar, através da brilhante iniciativa do governador João Agripino. Em Tambaú e Manaíra, parece que todos aqueles prédios caíram de paraquedas, aos montes, matando as árvores, sufocando o ar, impedindo o vento...

E o paraibanismo, o amor à terra, foi desaparecendo. Cadê denominação como edifício Manaíra, Sanhauá, Acácia, Ipês, Flamboaiã, Tambaú?... Só quem está dando uma lição de paraibanismo, que merece palmas de todos nós, são as nossas emissoras de TV. Incrível como isso aconteceu. Ei-las: TV Cabo Branco, TV Sanhauá, TV Tambaú, TV Correio da Paraíba, TV Miramar, TV Manaíra.

A verdade é que João Pessoa depois que nasceu, lá na cidade baixa, não satisfeita com a chegada na praia de Tambaú, onde há o mar e a praia mais bonitos do mundo, achou de subir o Planalto do Cabo Branco, onde a cultura está encontrando espaço, com a Estação Ciência, Estação das Artes. E as festas de Natal e Ano Novo acendem, cada vez mais, a curiosidade dos turistas. Ainda bem que o final da nossa mais bonita avenida, a Epitácio Pessoa, deixou de ser estacionamento de carro e barracas para comilança e bebedeira...

Vou passeando de carro pela praia e, olhando o mar, me lembro que o Dia de Iemanjá é nesta terça-feira. O mar me lembra a santa dos umbandi...

Trump e Iemanjá

ambiente de leitura carlos romero cronica conto poesia narrativa pauta cultural literatura paraibana carlos romero trump iemanja umbanda rainha do mar
Vou passeando de carro pela praia e, olhando o mar, me lembro que o Dia de Iemanjá é nesta terça-feira. O mar me lembra a santa dos umbandistas, pois é nele que são jogadas flores e outras oferendas simbólicas. Eis aí um poético e religioso espetáculo, quando o mar se transforma num imenso e perfumado jardim aquático. Esta noite, logo mais, virão de vários lugares ônibus cheios de umbandistas para o Culto, na praia de Tambaú. Em sua maioria, mulheres vestidas de branco, conduzindo nas mãos buquês de flores.

Flores, flores, flores, e jamais bombas que destroem e matam. Gostaria que o presidente Trump viesse aqui e visse homens e mulheres cantando e jogando flores nas águas do mar. Os umbandistas apenas cantam. Nada de sermões, nada de discursos, nada de ataques a outras religiões, nada de ameaças de um inferno eterno. Nada de castigos, nada de satanás na boca. Os umbandistas apenas dançam e cantam. Transformam a praia num imenso templo, cuja abóbada é um manto salpicado de estrelas silenciosas.

Culto à Iemanjá! Gosto desse nome. Nome indígena. Ainda não vi uma avenida com tal denominação. Mas, bem que merecia.

Continuo meu passeio com os olhos se alimentando de paisagens e o coração cheio de muito amor e boas reflexões: Bem-aventurada a religião que pacifica em vez de agredir, que soma em vez de dividir, que compreende em vez de condenar, que não mata os que discordam dela, que prega o amor e não o ódio. Disse Jesus uma frase que deveria estar pregada em todos os templos cristãos. "Os meus discípulos se conhecerão por muito se amarem".

Ouçamos o canto daquelas mulheres vestidas de branco, dançando e recebendo espíritos sob um céu cheio de estrelas. Respeitemos o culto dos nossos irmãos umbandistas. Que eles cantem, dancem, elevem os braços para o céu, que as estrelas, lá no alto, estarão sorrindo para eles o seu sorriso de luz!


Carlos Romero é cronista e patrono do ALCR

D omingo último foi a vez de minha neta, Raíssa, fazer vestibular, que agora chamam de Enem. E você, Raíssa, já vai completar 18 anos de cam...

A riqueza da sabedoria

Domingo último foi a vez de minha neta, Raíssa, fazer vestibular, que agora chamam de Enem. E você, Raíssa, já vai completar 18 anos de caminhada existencial. Dezoito anos que saiu do ventre materno, um tiquinho de gente que, com o tempo, foi crescendo ao lado de seu irmão Tuquinha, três anos mais velho do que você. E hoje é com quem você brinca, viaja, passeia e se diverte...

Com apenas 18 anos, dir-se-ia que você está ainda ao pé da montanha. Esta montanha que simboliza a vida, enquanto eu desfruto o clima lá do alto. E você talvez nem chegue lá. Ah, Raíssa, como é bom estar aqui no alto, olhando, com pena, os que ainda estão caminhando para cima. Vale a pena viver, minha querida. Vale a pena acumular experiências. As experiências que nos dão sabedoria. A sabedoria que nos enriquece de paz. Não tenho inveja de você, minha querida neta. Se me dissessem que eu iria voltar à sua idade, confesso que não queria. Não invejo os que ainda estão subindo a montanha da vida. O que devo e posso fazer é ajudá-los a subir com a escada da minha experiência.

Você está fazendo o vestibular, embora ainda não escolheu exatamente a profissão. Mas tenho certeza de que saberá escolher. Você adora ler, escrever, poetizar. Mais ainda: passa horas e horas no computador, viajando pela Internet, e é com muito apetite que vai para a escola. Aprender é com você. Daí as boas notas que sempre tirou.

Não nego a curiosidade. Afinal, qual a carreira que você vai escolher? Está aí uma coisa que eu gostaria de saber. Médica, engenheira, bacharela em Direito, arquiteta, enfermeira, odontóloga, antropóloga, professora? São tantas as interrogações que me chegam à imaginação...

Mas, tenha certeza de que é bom viver muito, minha neta. É bom envelhecer com sabedoria. Termino desejando-lhe muita paz, saúde e sabedoria. Esta, a maior riqueza da vida.

E ste cronista que aqui escreve anda meio esquecido. Dizem que é normal depois dos setenta. E haja vitamina B. Mas, esquecer é bom ou é ruim...

Esquecer também é bom

Este cronista que aqui escreve anda meio esquecido. Dizem que é normal depois dos setenta. E haja vitamina B. Mas, esquecer é bom ou é ruim? Depende, dirá você. E eu digo o mesmo. Nem sempre esquecer é bom.

Afinal, o que devemos ou não esquecer? Comecemos pela gratidão. Jamais esquecer um gesto de bondade ou um ato de amor, de gentileza. Portanto, sejamos gratos. A começar pela vida que nos foi dada. Haverá maior dádiva? Por acaso, somos joguetes do acaso? Será que o homem, como sentenciou o materialista Sartre, é uma “paixão inútil”? Afinal, a quem agradecer a vida que temos? Se tudo surgiu por acaso, então o acaso é inteligente?...

Voltando ao esquecimento, quando é que ele é uma terapia? Ora, ora, quando nos faz bem. Esquecer o mal que alguém nos fez, esquecer o passado pelo que ele conte de negativo, esquecer uma dívida. Sócrates, já perto de ser envenenado pela cicuta, pediu que não deixassem de pagar uma dívida que ele havia contraído. Por que o filósofo não esqueceu aquele compromisso? Para ficar em paz com a sua consciência. A única coisa que levamos desse mundo.

Não devemos esquecer os deveres para com a vida. Do contrário seremos irresponsáveis. E a pior coisa do mundo é a irresponsabilidade. Quando você cumpre com os seus deveres, fica aliviado, satisfeito, alegre, de bom humor. Alegre consigo mesmo. Esquecer, lembrar, eis o que está ocorrendo, constantemente, em nossa existência.

Esquecer as amizades não é correto. Os amigos devem estar sempre no nosso pensamento, na nossa gratidão. Esquecer os desafetos, sim. Para que está lembrando o mal que nos fizeram? Lembrar é dar vida a uma coisa. Portanto, lembrar os males que nos fizeram é vivificá-los. Daí a estupidez da vingança, da mágoa. Não esquecer o inimigo é estar sintonizado com ele. A vingança não resolve nada.

Esquecer as coisas negativas e lembrar as positivas, eis a fórmula do bem-viver. Por que é que as crianças estão sempre alegres, sempre descobrindo as coisas boas da vida? Porque não guardam mágoas. Mágoa é uma desgraça. Mágoa é ressentimento, e ressentimento é uma espécie de azia psíquica. Criança triste é criança doente.

A má lembrança é um fardo. Livre-se dela. É belo colocar retratos na parede das pessoas que se foram desta vida. Eis aí uma lembrança que faz bem ao que se lembra e ao que é lembrado, caso você acredite na imortalidade do espírito. Caso contrário, pouco valerá a sua lembrança...

Lembrar, esquecer, eis aí dois verbos constantes em nossa vida. Mas Deus é tão grande, justo e bom que nos deu esse esquecimentozinho tardio. També, nos deu o sono, uma boa pausa em que nos tornamos inconscientes. Haverá melhor terapia do que esta? Pena que muitos tenham insônia ou pesadelos. Que, muitas vezes, também depende da vida que se levou durante o dia...

Acontece que está me chegando a fome. Eis aí uma coisa de que a gente não consegue esquecer. Esquecer de comer. Nem depois dos setenta...

N a próxima quinta, teremos o impropriamente chamado Dia dos Mortos, ou de “Finados”. Aqui para nós, muita gente ainda acredita que a pessoa...

Dia de Finados

Na próxima quinta, teremos o impropriamente chamado Dia dos Mortos, ou de “Finados”. Aqui para nós, muita gente ainda acredita que a pessoa que não respira mais vai encerrar sua vida num bonito caixão, debaixo da terra. Embora a Ciência prove que o corpo físico se decompõe, restando apenas os ossos, muitos acham que o que se decompõe se recomporá no dia em que uma trombeta tocará chamando os mortos. Para o Juízo Final.

Dependendo do julgamento, há os que vão curtir as delícias do Paraíso, outros irão para o Purgatório e, finalmente, os que serão condenados ao Inferno eterno, onde há muito fogo, e Deus fica de braços cruzados, indiferente a essas torturas. Aqui para nós, há muita gente que ainda acredita nessas alegorias.

Há os materialistas que pensam que tudo se acaba, que tudo vira cinzas... E os espiritualistas? Esses sabem que o que fica sepultado na terra é a carcaça carnal, e que o espírito sobrevive à matéria.

Dia dos Mortos. Não vou ao cemitério há muitos anos, mas lembro dos entes queridos que já se foram. Que tal pegar os seus retratos e orar? Que tal mentalizar uma prece em seu nome, enviar-lhes boas vibrações?

E os caixões mortuários, como são bonitos! Mas, seus comerciantes não têm o direito fazer propaganda de suas mercadorias... Nem no rádio, nem no jornal, nem no outdoor, nem nos supermercados anunciam os bonitos caixões. Ninguém dizendo: "Compre o seu caixão agora e pague em dez vezes.

Certa vez, vi uma coisa que muito estranhei, numa pequena cidade alemã, chamada Wiesbaden: uma requintada vitrine de caixões mortuários. Talvez destinados aos mais ricos. Tive pena que caixões tão bem confeccionados fossem lançados à terra.

No Dia de Finados, sempre me lembro da inscrição no túmulo de Allan Kardec, no cemitério Père Lachaise, em Paris: "Nascer, morrer, renascer ainda, progredir sempre, tal é a lei"…

J á se começou a falar nas eleições do próximo ano e eu fico pensando na campanha eleitoral que se faz nas ruas. Haja carros de som arrebent...

Cadê o Ministério Público?

Já se começou a falar nas eleições do próximo ano e eu fico pensando na campanha eleitoral que se faz nas ruas. Haja carros de som arrebentando nossos ouvidos, comprometendo, estupidamente, o conceito de gente civilizada.

Já imaginaram se um carro de som entendesse de sair às ruas de Paris fazendo propaganda de candidatos? Imediatamente seria apreendido e multado. O fato seria levado para jornais e TV. Tratar-se-ia de um escândalo, um atentado grosseiro à saúde, à paz, ao silêncio!

Ah, o silêncio!... como ele é desrespeitado! E quem mais o destrói? Quais os animais mais barulhentos do mundo? Ora, é o homem, o chamado "racional". Mas ele somente? Não, o cachorro também é, vez por outra, inimigo do silêncio. Talvez seja por isso que ambos são tão amigos.

Os outros animais, em geral, são silenciosos: os pássaros que cantam e encantam, os peixes, sejam num aquário, sejam no mar, os pombos, as vacas, as ovelhas nos campos. E a Natureza? Porventura as árvores fazem barulho? É verdade que as flores explodem beleza, mas em silêncio. Até a bomba atômica explodiu sem barulho. As estrelas, as nuvens, os planetas, as montanhas, o mar, os rios, os lagos, o nosso Sol... Quanto silêncio os envolvem! E o nosso corpo, essa silenciosa usina? O coração bate em silêncio, o sangue corre sem zoada, os pulmões respiram calados, a digestão se processa em completa mudez. Deus sabe o que faz. Já imaginaram se esses órgãos fizessem barulho?

Mas o animal-homem é barulhento por natureza, menos nos países civilizados, onde a lei contra a poluição sonora é respeitada. Ah, se você visse o que eu vi na capital da Nova Zelândia... Íamos passeando, numa tarde domingueira, por um de seus elegantes e tranqüilos bairros, sem muros nem portões, quando, de uma casa surgiu um cachorro latindo, ao nos ver. Imediatamente, o seu dono veio ralhar com o animal, e nos pediu mil desculpas pelo barulho. Não obstante sermos nós os intrusos. E o animal, obediente, saiu mansinho que fazia gosto. O silêncio era absolutamente respeitado naquele sossegado bairro...

Povos bárbaros são os que fazem barulho. Tive oportunidade de assistir a uma campanha eleitoral em Berlim. Nenhum carro de som. Propaganda só se fazia através de fotos em cavaletes padronizados, muito bem confeccionados e disciplinados. Tudo na mais perfeita paz. Nada do infernal abuso que ocorre durante esta maldita e abusiva campanha eleitoral, com candidatos desrespeitando as próprias leis ambientais e de contravenção penal. Cadê o Ministério Público?...

D iz o ditado popular que a pressa é inimiga da perfeição. Eis aí uma verdade. Nada feito correndo pode prestar. E está aí a Natureza com a ...

Pressa é doença

Diz o ditado popular que a pressa é inimiga da perfeição. Eis aí uma verdade. Nada feito correndo pode prestar. E está aí a Natureza com a sua silenciosa didática, ensinando-nos que tudo tem de ser feito devagar, com disciplina, paciência e muito amor. Veja o silencioso e vagaroso trabalho da gestação.

Ainda não vi um quadro mostrando a figura de um homem apressado. Apressado e estressado, conclua-se. Sim, porque quem está fazendo as coisas depressa é porque está estressado. Será que algum artista pintou um homem com pressa? Confesso minha ignorância.

“O Pensador”, de Rodin - ah, como adoro esta escultura, que já vi de perto, mais de uma vez, em Paris – é uma obra que deveria estar em toda parte para despertar nas pessoas o hábito de pensar, de meditar, de refletir. Estamos nos tornando muito máquinas. Sem tempo para uma conversa consigo mesmo e com os outros. E tudo isso devido à pressa, que vai se tornando uma patologia. Assim dizem os psicoterapeutas. Pressa no andar, pressa no cumprimentar, pressa em se alimentar, pressa em dirigir o veículo (Quanta gente buzinando a todo instante!...) Pressa em telefonar, pressa em quase tudo, menos no ato sexual e na bebida alcoólica. Já reparou que o alcoólatra toma a sua cerveja ou o seu uísque, bem devagarinho, por mais apressado que esteja?...

Como disse o grande missionário holandês, Henri Nouwen, no mundo de hoje estar apressado é ter "status". Vez por outra estamos ouvindo uma pessoa dizer: "Não tenho tempo mais para nada" ou, senão, "Diga logo porque estou muito apressado". Não há tempo nem para o almoço. Tudo tem de ser correndo. Tudo correndo, menos quando chegam a doença ou a morte. Aí tudo é devagar. Vá a um hospital e constate esta verdade. Ninguém, ali, está sem tempo. Aliás, nunca vi um carro funerário em disparada a caminho do cemitério...

N unca tive medo de avião. Nem no meu “debut” aéreo. Para ser franco, sinto uma grande euforia quando subo aquela escadinha da aeronave. Nun...

Pelos ares

Nunca tive medo de avião. Nem no meu “debut” aéreo. Para ser franco, sinto uma grande euforia quando subo aquela escadinha da aeronave. Nunca pensei na possibilidade de um acidente aéreo. Digo sempre com os meus botões: é tão raro um avião cair...

E fazendo uma reflexão filosófica, será que este nosso corpo de carne e osso, que nos transporta da infância à velhice, é seguro? Lembrar que ao sairmos de casa, pela manhã, muita coisa pode acontecer, desde um acidente de automóvel a uma súbita parada cardíaca. E aqui para nós, parada cardíaca é parada... E pensando bem, é melhor do que ficar numa UTI, cercado de aparelhos por todos os lados. Com a parada cardíaca, você se livra de muita coisa chata, inclusive de hospital, balão de oxigênio, injeções e outras coisas...

Por que, então, esse medo de avião, que em relação aos outros transportes, é muito mais seguro? De viagem aérea, só não gosto da estreiteza de espaço entre as poltronas, do apertadíssimo sanitário, das comidinhas sem graça trazidas pelos comissários de bordo, e só. Todavia, adoro aquele silêncio, quebrado, vez por outra, pelo choro espremido de uma criança. E o doce zunzum do ar condicionado?

Depois, que gostosura ler num avião... Como é bom saber que estamos acima das nuvens!... O chato é não poder ficar sempre caminhando entre as poltronas, como recomendam os médicos, para evitar trombose nas pernas. Daí, termos que usar aquelas meias chatas.

Mas, a verdade é que ninguém está seguro, nesta vida. Desde o momento em que deixamos a casa, manhã cedo, até à noite, quantas turbulências, quantos desastres podem acontecer... É claro qua as máquinas inventadas pelo homem, a exemplo dos aviões, estão sujeitas a quedas. E quem riem disso são os pássaros, as borboletas e os urubus, criados por Deus. Quanta segurança nos seus vôos... Nunca ninguém viu um urubu cair morto...

N a última viagem que fiz a Berlim, há poucos meses, vi os alemães tentarem transformar o rio num mar. Botaram até areia branca. Não sei se...

Sem barracas e sem barulho

Na última viagem que fiz a Berlim, há poucos meses, vi os alemães tentarem transformar o rio num mar. Botaram até areia branca. Não sei se jogaram sal no rio. Só sei que muito me comoveu o espetáculo. Todos deitados na areia, tomando banho de sol, mas sem ouvir o rumor das ondas se desmanchando na areia. Aí é que eu vejo a riqueza que temos e pouco valorizamos: um mar de verdade, sem pedras, mas com muita areia macia.

Pena que essa riqueza dada pela Natureza, seja tão mal cuidada. Mar poluído, praias cheias de barracas. Duvido que os nossos irmãos estrangeiros fizessem isso... Colocassem barracas, sujassem a praia.

Mas, nem tudo está perdido. Soubemos que a nova prefeita do município do Conde, que tem as mais belas praias do Nordeste, mandou fazer, lá, uma verdadeira limpeza. Quase não quis acreditar. Tudo indica que o Conde será outro com a nova administração que já mostrou a que veio.

É preciso nos conscientizarmos que temos o que a maioria dos mares estrangeiros não têm: praias limpas, com coqueiros, areia macia, de águas mornas. E pensar que a nossa Jacumã, antes dessas barracas, possuía um vasto coqueiral. Quem sabe, a prefeita Márcia Lucena, não se sensibilize com a ideia de replantá-los?… E que dizer da praia de Coqueirinho, de Tabatinga e a Praia do Amor com suas silenciosas e misteriosas falésias? Que maravilha!

Outra coisa que a prefeita precisa fazer é acabar com aquela barulheira nas praias, que, nos feriadões, estão se transformando num verdadeiro inferno sonoro. Só os surdos suportam tanta barulheira. Carros passam nas ruas fazendo um barulho de abalar as paredes. Lembrar que turismo não combina com barulho. Turista de bom nível, educado, quer sossego.

Ora, ora, mas cadê os órgãos competentes para impedir a transgressão às normas vigentes, contra a perturbação do sossego?

O diabo é que os próprios políticos são os primeiros a transgredirem a lei, mormente durante as campanhas eleitorais. E eu fico pensando naquela campanha eleitoral na cidade de Frankfurt, onde não se ouvia o mínimo ruído. Nada de carros de propaganda, abalando os alicerces das casas e os ouvidos. Tudo na mais civilizada ordem. Disciplina até nas fotos dos candidatos, todas padronizadas.

Mas, estamos cada vez mais convencidos de que todo esse desprezo à lei é resultante da ausência de educação, pois tivemos o exemplo dos efeitos da campanha de respeito ao pedestre empreendida pela prefeitura da capital. Infelizmente nas escolas e nos lares, não se procura conscientizar os garotos da necessidade de respeitar o silêncio.

As praias do Conde estão livres da poluição das barracas. Agora precisam se livrar do barulho.

Q uando eu ouvi, pela primeira vez, a Nona Sinfonia de Beethoven, disse para mim mesmo: isto é Deus falando… E fiquei a imaginar como o admi...

O adágio da Nona

Quando eu ouvi, pela primeira vez, a Nona Sinfonia de Beethoven, disse para mim mesmo: isto é Deus falando… E fiquei a imaginar como o admirável gênio de Bonn, que não tinha mestrado, doutorado, nem pós-doutorado em Música, sofrendo com sua surdez e suas frustrações amorosas, foi capaz de criar uma obra tão divina.

Mas, o que seria de Beethoven sem a música? Esta foi o que o fez se livrar das misérias do mundo. Graças à música, ele pôde transcender, sublimar-se, atingir o êxtase, a comunhão com o divino. Beethoven bem que poderia dizer como Paulo em relação ao Cristo: “Não sou eu quem vivo, é a Música que vive em mim".

Feliz daquele que se eleva e se enleva com a mensagem da boa música. Fico triste em saber que há muita gente que nunca ouviu essa sinfonia sublime, sobretudo o seu magnífico adágio, que faz a gente esquecer as trevas do mundo e se iluminar.

Eu ainda não conheço melhor terapia do que ouvir o adágio da Nona. Difícil, senão impossível, sair dele com os mesmos olhos, com a mesma visão das coisas, com os mesmos sentimentos de ódio, de inveja, de vaidade, de orgulho, de rancor. É difícil ouvi-lo e não sentir uma forte catarse. É impossível não sentir aquele amor que não vê inimigos, aquele amor que faz esquecer as mesquinhezas da vida, aquele amor que não conhece limitações.

Eu nem consigo imaginar que possam existir músicos que, numa orquestra, toquem os seus instrumentos sem se envolver com a música, completamente alheios à sua sublime mensagem, agindo mecanicamente. Não, diante da Nona.

Mas, eu estava assistindo, há pouco, à Nona Sinfonia, quando passou um carro de propaganda com o som naquelas alturas... Era o inferno querendo atrapalhar o céu, as trevas atropelando a luz, a estupidez humana se fazendo presente.

Adágio da Nona! É aconselhável ouvi-lo, mas, quando todos os fazedores de barulho estejam dormindo...

À s vezes, eu penso que as cidades sentem saudade da gente. Elas falam como a dizerem: “venham me ver novamente, temos tanta coisa nova para...

Paris está com saudades

Às vezes, eu penso que as cidades sentem saudade da gente. Elas falam como a dizerem: “venham me ver novamente, temos tanta coisa nova para lhes mostrar!”... Agora mesmo, tenho certeza – e me desculpem a pretensão – Paris está me dizendo: “Vem, cronista. Deixa a tua Tambaú e vem ver o nosso Sena, que está uma beleza. Ele não tem ondas, nem espumas, mas como corre! Vale a pena revê-lo serpenteando por entre velhos monumentos. Vale a pena revê-lo fazendo o sinal da cruz, ao passar pela velha Notre Dame, rodeada de turistas com suas máquinas fotográficas e suas curiosidades. Vale a pena contemplar de novo a esguia Torre Eiffel lembrando um enorme sinal de admiração. Vale a pena visitar novamente minhas numerosas livrarias. Em nenhuma cidade do mundo, você vai encontrar tantos livros pelas calçadas. E que tal ver mais uma vez o famoso Louvre, onde a Mona Lisa, com seu sorriso indefinido, adora quando o museu se fecha. Só assim ela pode ficar séria...

Ah, já ia me esquecendo, que tal se sentar naquele banco, ali na pracinha da Sorbonne, onde está o busto de Augusto Comte, e ficar olhando as pessoas, os jovens conversando, os velhos sonhando o seu passado? E quantas livrarias sofisticadas, de Filosofia, de Direito... Não se esqueça desta vez, que não estaremos no inverno, mas pertinho do outono, que tem as suas belezas. E não se esqueça que já disseram que eu, Paris, sou uma festa. Não foi isso que disse aquele romancista chamado Hemingway, o autor de “O Velho e o Mar”?...

E Paris continua: “Venha, cronista, soube que você pretende rever a Islândia, essa grande ilha que quer beijar o círculo polar ártico, onde poderá contemplar novamente a sua exuberante natureza, suas cachoeiras e geleiras, com todo o seu mistério, sua história de vulcões e sua paisagem lunar...

Mas, depois da Islândia, você precisa vir me ver preparando-me para vestir o meu vestido de outono. Estarei linda. E sei – disto tenho certeza – que sou sua predileta. Que me perdoem Lisboa, Madrid, Barcelona, Amsterdam, Roma, Bruxelas, Londres, Queenstown, Sidney. Que me perdoe Viena, onde, decerto, você gostaria de revisitar a casa onde Freud morou. Subir aquela velha escada, onde o genial analista pisou. Que me perdoem todas essas belezas exóticas da Islândia.

Vamos cronista. Pegue logo um avião e venha me rever. Mesmo que seja apenas por alguns dias. Eu adoro quem gosta de mim, assim como você...

Y vone Cyrillo Soares deixa este mundo, precocemente, surpreendentemente, e isto muito me entristece. A imagem que tenho dela jamais se apag...

Yvone Cyrillo, hein?...

Yvone Cyrillo Soares deixa este mundo, precocemente, surpreendentemente, e isto muito me entristece. A imagem que tenho dela jamais se apagará de minha memória. Uma menina inteligente, sempre alegre, cheia de vida, entusiamo e que muito me encantou quando fui seu professor de Direito, na Universidade Federal da Paraíba.

Lembro-me que estudávamos o Instituto da Falência, uma disciplina muito difícil, mas que Yvone aprendeu com a maior facilidade. Certa vez, ao entrar na sala de aula, fui surpreendido com um estrondo de palmas. Por que isso? Foi Yvone que revelou aos colegas que era o meu aniversário. Olhei para o quadro negro e lá estava escrito em letras bem grandes: “Hoje é o aniversário do nosso querido professor!”

Inteligente, estudiosa, afetuosa, Yvone Cyrillo já havia enfrentado a perda de seu esposo, Fernando, com força e resignação. Era uma jóia de pessoa. Para ser franco, nunca a vi mal humorada. Estava sempre alegre, determinada, entusiasmada, sempre de bem com a vida. A vida que acaba de deixar, a vida, que ela tanto dignificou.

Tinha uma forte capacidade de liderança. Gostava do bom debate e sempre tinha bons e inteligentes argumentos. Bonita, bonita mesmo, Yvone Cyrillo possuía, de sobre, aquilo que se chama charme. E ela nunca soube o que era mau humor. Fazia amigos com facilidade e adorava ajudar os outros.

Eu fui professor de Yvone Cyrillo, mas, na verdade, foi ela quem me ensinou uma lição sobre uma coisa chamada ética. Uma coisa que está cada vez mais difícil de encontrar, nos dias de hoje.

Bonita, sempre irradiando o bom humor, grande senso de responsabilidade, minha amiga, que se foi deste mundo, jamais será esquecida.

Yvone Cyrillo, como eu gostava daquele seu sorriso... E como gostei de ter sido seu professor. Professor e amigo. Amigo para sempre.







E stive pensando nas suavidades da vida. São tantas. Basta elevarmos os olhos para observar o suave e distante bailado das nuvens. Como isso...

As suavidades da vida

Estive pensando nas suavidades da vida. São tantas. Basta elevarmos os olhos para observar o suave e distante bailado das nuvens. Como isso nos dá tranquilidade...

Outra suavidade: uma flor caindo no chão... Jesus nos convidou a olhar os lírios do campo. Que bela terapêutica do olhar. Uma folha caindo no chão é de uma suavidade que encanta.

Uma lágrima escorrendo num rosto... Haverá coisa mais suave? E uma nuvem deslizando sob um céu azul, haverá coisa mais bela no mundo?

A contemplação das suavidades da vida nos eleva e nos enleva. Daí recebemos boas vibrações e nos mantemos no caminho do bem, livre das tentações. Jesus nos ensinou a não cair em tentação. Tentação é teste. E são tantas as tentações... Tentação da vaidade, tentação do sexo, do orgulho, do desânimo. Cuidado com as tentações!

Observar é bom. Viver é bom, conviver ainda é melhor. A vida na solidão não tem o menor sentido. Os existencialistas gritaram: os outros são o inferno. Estupidez, ninguém vive sozinho. Viver é conviver.

Mais do que isto: viver é transcender. Precisamos do outro, como precisamos do ar que respiramos. Não podemos viver sem o outro. Jesus aconselhou-nos a amar o próximo como a nós mesmos. Esta é a mais difícil de todas as lições do Mestre. Amar ao próximo como a nós mesmos...

Mas, o que eu mais observo, na maioria das pessoas, é uma espécie de indiferença. Uma total indiferença às belezas, às suavidades da vida. Alguns chegam até a fechar a cara num acentuado mau humor. A presença do outro parece incomodá-los... Talvez até concordem com o pessimista e estressado Sartre, para quem "O inferno são os outros".

Ora, ora, o homem é o seu olhar. Dize-me como olhas e eu te direi quem és. Olhar uma flor num jardim, uma nuvem deslizando no céu azul, uma lágrima escorrendo num rosto. Olhar as suavidades da vida...

D ele li dois magníficos romances: “Vingança, não” e “Rio Seco”, cuja temática é o sertão. Confesso que essas leituras me exaltaram. E eu fi...

Leituras que me exaltaram

Dele li dois magníficos romances: “Vingança, não” e “Rio Seco”, cuja temática é o sertão. Confesso que essas leituras me exaltaram. E eu fiquei doido para conhecer o seu autor, que, na época, andava pela Europa.

Falo de Francisco Perreira da Nóbrega, cronista, professor, doutor em Teologia, imortal da nossa Academia, onde ocupava a cadeira nº 33, que já deixou este mundo, e nele um grande vazio. Era membro da nossa Academia de Letras. O patrono de sua cadeira, Castro Pinto, foi um estadista paraibano e grande incentivador das Letras. Foi ele quem convidou o genial Carlos D. Fernandes para dirigir A União. O nosso aeroporto tem o seu nome. Será devido aos vôos da inteligência do homenageado?

Mas voltando a Francisco Pereira Nóbrega, não fui de sua intimidade, mas o admirava muito à distância. Até que, um dia, vim a conhecê-lo, numa livraria daqui. Pequeno de estatura, um pouco reservado, franzino, Chico Pereira, como também era chamado, me impressionou pela sua simplicidade e humildade. Depois, ele achou de ministrar um curso em nossa universidade sobre Teilhard de Chardin. Assisti às suas aulas com muito enlevo. Agora era o filósofo que também passava a admirar, o homem de pensamento, senhor de uma forte personalidade.

Daí por diante me desencontrei de Francisco Pereira da Nóbrega para depois voltar a encontrá-lo em suas crônicas diárias, no jornal “Correio da Paraíba”, numa coluna que deixou saudades a muitos leitores.

Chico Pereira não era muito de conversar. E quando conversava, era em tom menor. Jamais seria um político, de viver sorrindo e abraçando todo mundo. O homem era muito contido. Vivia se escondendo dentro de si mesmo, o que não é de estranhar num homem de pensamento. Quem fala muito, pensa pouco.

Católico convicto, mas muito independente em suas atitudes e idéias, o nosso Francisco Pereira da Nóbrega tinha como grande amigo o professor e escritor espírita Waldo Lima do Vale, autor do livro best-seller “Morrer... e depois?” O espiritismo de Waldo não afastou o católico de sua amizade. Ambos se entendiam e se respeitavam.

Na Academia de Letras, Francisco da Nóbrega nunca quis ocupar cargos. Mas sempre cumpriu os seus deveres de imortal.
Outro dia, estive visitando a Livraria do Luiz, que é um modelo de livraria, e com muita alegria revi uma edição do seu romance “Vingança, não”. E me veio um grande desejo de relê-lo. Agora não mais como um jovem verde, mas como um jovem maduro e mais experiente. E é o que vou fazer nestes dias. Reler este romance que deveria ser traduzido para vários idiomas e ganhado o mundo. Este e “Rio Seco” são leituras que exaltam.

Agosto está partindo. Dizem que é mês de muito vento. Gosto muito do vento. O vento que acaricia a minha careca. E ele, às vezes, é tão ...

O inimigo da rotina



Agosto está partindo. Dizem que é mês de muito vento. Gosto muito do vento. O vento que acaricia a minha careca. E ele, às vezes, é tão forte que chega a querer jogar fora o meu chapéu….

Sem o vento a vida seria uma tediosa calmaria. Sem ele, como é que Cabral descobriria o nosso país? O vento alegra, limpa, acaricia, enxuga, colabora na germinação das plantas agita o fogo. Outrora, ele era muito indiscreto e inconveniente, quando levantava as saias matando de susto as mulheres. Acontece que hoje, com as calças jeans, não há vento, mesmo em forma de brisa, que se torne inconveniente...

Mas o vento é também uma metáfora. Simboliza o entusiasmo. Com ele as árvores acenam alegres, o mar se enche de ondas, as nuvens são forçadas a descobrir o céu azul, as folhas velhas vão caindo numa triste despedida.

Ah, que tristeza quando o vento tarda ou falta! O homem, então,é forçado a construir cata-ventos, que não resolvem o problema. Outrora, graças ao artesanal abano, fazia-se vento para esquentar a nossa comida.

Ontem, o vento estava brabo. Se não me engano, ele queria anunciar alguma coisa. Ah, já sei. Ele queria dizer que setembro estava próximo a chegar. E eu adoro esse mês, pois foi nele que se realizou meu primeiro casamento e que viu minha segunda esposa, Alaurinda, abrir os olhos para o mundo. Setembro é para mim o mais simpático dos meses. E é em setembro que também se comemora a nossa independência.

E vamos às metáforas. O vento é a alma da natureza. Sem ele, tudo se imobiliza. Ele é que dá vida à vida. E tem muito de humano. Ora é suave como uma brisa, ora é violento como um furacão. Ora apaga o fogo, ora o agita. É inimigo da rotina, adora tirar as coisas do lugar. E como é belo contemplar a dança das árvores, das flores e das nuvens, graças a ele, que, como o tempo, está sempre renovando e transformando as coisas.

A palavra falada é uma dádiva, uma benção, uma beleza. Ah, os grandes discursos de antigamente! Como eles movimentavam e magnetizavam multi...

A palavra falada

A palavra falada é uma dádiva, uma benção, uma beleza. Ah, os grandes discursos de antigamente! Como eles movimentavam e magnetizavam multidões! Digo de antigamente porque hoje a preocupação é mais com a verba do que com o verbo...

Sem me referir aos grandes oradores do passado, gostaria de evocar os daqui da Paraíba. Disse meu pai que o orador paraibano, que mais o impressionou, foi o presidente João Castro Pinto. Informou meu velho que ouviu Castro Pinto no Teatro Santa Rosa, num discurso eletrizante, que o deixou sem dormir.

Dizem que o presidente Epitácio foi outro excelente orador. No seu busto, situado na entrada da avenida que tem o seu nome, vemo-lo, numa tribuna, de dedo em riste apontando para alguma coisa. E esta coisa era justamente o nosso sertão, dominado pela seca e pela fome. Da tribuna do Senado ele chamava a atenção para aquela grande realidade. Era o orador colocando o seu verbo a serviço do nosso esquecido Nordeste.

Mas será que houve orador, pelo menos aqui na Paraíba, maior do que Alcides Carneiro? Ele foi tão grande que o próprio Carlos Lacerda, um artista do verbo, o qualificou como “O Orador do Brasil”. Comício sem a presença do tribuno de Princesa Isabel não era comício. Eu não perdi um. E me lembro quando, certa vez, no adro da Catedral, mal começou seu discurso, desabou uma grande chuva. As palmas estrugiram. Ele, todo molhado, elevou as mãos para o céu e bradou: "Palmas, benção dos homens, chuva, benção de Deus!” Aí foi que bateram palmas. E prosseguiu o discurso dizendo que porta de igreja é para mendigo. E ele estava, ali, mendigando votos aos paraibanos.

Imaginação fértil, Alcides, quando ia fazer um discurso, não ia para a biblioteca, estudar e sim para uma rede se balançar. E ali ficava botando a sua fértil imaginação para funcionar, preparando a sua oração.

Outro orador que movimentou multidões foi José Américo de Almeida. Seus discursos abalaram o país. As frases geniais ficavam ressoando aos nossos ouvidos. Eram verdadeiros “discursos-denúncias”.

Aquele em que ele dizia: “eu sei onde está o dinheiro!”, se aplica até hoje. Agora, com a Lavajato, é que todos sabem... E aquele outro: "Não há maior tragédia do que morrer de fome na Terra de Canaã!", referindo-se ao Brasil... E por fim: "Ninguém se perde na volta”...

Na verdade, aqui pra nós, eu acho que os que não sabem falar é que estão inventando que a oratória está fora de moda...

Q ual a profissão que você escolheria hoje? Eu optaria pela aviação. Lindo aquele uniforme azul do comandante, a caminho da aeronave, levand...

Fazer o que gosta

Qual a profissão que você escolheria hoje? Eu optaria pela aviação. Lindo aquele uniforme azul do comandante, a caminho da aeronave, levando sempre um sorriso que imprime confiança aos passageiros. E mais belo ainda quando ele, à entrada da aeronave, dá votos de boas vindas aos que vão entrando no monstro de aço, que faz muita gente temer e tremer.

Depois vem o silêncio, aquele momento meio dramático da decolagem. O avião vai subindo, subindo, até entrar na horizontal, atropelando nuvens e enfrentando o vento. Como deve ser boa a sensação do comandante!

Sim, agora, todos estão dependendo de suas mãos, de seu olhar, de sua competência. Quantas milhas a vencer? Quanta atenção exigida!...

Ninguém sabe o nome do comandante, quais os seus problemas... Quais serão os seus pensamentos quando está entre a terra o céu? Suas saudades, seus amores, suas reflexões? Que sensação o domina naquele momento? Ninguém sabe. Todos no avião só estão ocupados e preocupados com os seus problemas. Ninguém pensa no que dirige a aeronave e tem o destino dos passageiros em suas mãos.

Outra profissão que eu escolheria sem pestanejar, é a de maestro. Maestro de uma orquestra sinfônica. Maestro que, a exemplo do comandante, também é um deus. Que sensação divina a de reger uma orquestra! Todos os músicos atentos aos seus gestos, às suas mãos, que lembram borboletas levitando sobre flores num jardim...

Duvido que um maestro entre em depressão, que esteja de mau humor, quando suas mãos começam a despertar os instrumentos para a música, com sua varinha mágica.

Comandante, maestro, muito melhor do que ter sido... Não, não vou comentar profissões prosaicas, rotineiras e tristes... Só sei que a coisa mais importante da vida é a fazer o que gosta, ter prazer na profissão. Não há maior violação a si mesmo do que procurar um meio de vida que não sintonize com o seu temperamento.

A ndei assistindo, um dia desses, à Sinfonia em dó menor, a mais popular das sinfonias de Beethoven, conhecida como a Sinfonia do Destino ou...

Referência e reverência

Andei assistindo, um dia desses, à Sinfonia em dó menor, a mais popular das sinfonias de Beethoven, conhecida como a Sinfonia do Destino ou a Quinta Sinfonia. Dir-se-ia que essa partitura é uma espécie de biografia do mestre de Bonn, onde ele trava uma luta contra o Destino. Uma luta cruel que termina com a vitória do homem Beethoven, o grande surdo, cuja existência foi um exemplo de coragem e fé.

Ele nunca cruzou os braços diante dos desafios existenciais. Lutou até o fim, sem jamais perder a dignidade que o caracterizava. Disse um escritor que Bach era sereno e Beethoven sério. Disse o grande místico Amiel que Bach era Deus e Beethoven, homem. E a Sinfonia do Destino nada mais é do que a luta do homem diante das intempéries, dos sofrimentos e da dor.

Começa essa partitura com aquelas quatro notas, representando as pancadas do Destino, com o qual o genial compositor trava uma terrível luta, mas que, finalmente, sai vitorioso.

O Beethoven-homem, entretanto, não se afastou do Beethoven-místico, o Beethoven que procurava sintonizar-se com a Divindade, seja na Pastoral, essa idílica sinfonia em que o compositor procurou exaltar o Deus Natureza, a que se refere o filósofo Spinoza, seja quando entoou aquele grito de alegria na Nona Sinfonia, saindo da horizontalidade humana para a verticalidade divina, da terra para o céu, da imanência para a transcendência. A verdade é que a vida de Beethoven transitou entre esses dois pólos: o humano e o divino.

Na Natureza, ele procurava o silêncio de um templo religioso, no tempo em que o templo era um oásis de silêncio. Ali ele esquecia os seus dissabores, as suas dores. Em contato com as árvores, ele encontrava a paz que não encontra entre os homens.

Voltando à quinta Sinfonia, vale a pena ouvi-la, seja no andante heróico, seja no movimento final, verdadeiro grito triunfal de um homem que teve tudo para se suicidar, tudo para desertar da vida, mas que, com admirável heroísmo conseguiu triunfar sobre as limitações que o Destino lhe impôs.

A Sinfonia em Dó menor é a homenagem ao homem, a Sinfonia Pastoral é a homenagem à Natureza e a Nona Sinfonia é a sintonia com a consciência cósmica. É o homem mergulhando no Divino.

Beethoven ainda é a grande referência. Referência que merece toda a nossa reverência. Sua música não é apenas para ser escutada. Mais do que isso. A música do genial compositor nos induz a muitas reflexões. Reflexões sobre a nossa vida, sobre o nosso destino.

C onfesso que gosto de metrô. Transporte limpo, seguro. Pena que seja tão rápido. Rápido como uma bala. Pena que não tenha paisagem. O metrô...

Cuidado com a pressa

Confesso que gosto de metrô. Transporte limpo, seguro. Pena que seja tão rápido. Rápido como uma bala. Pena que não tenha paisagem. O metrô é um símbolo do homem moderno. Sem tempo, apressado, sem calor humano. Tudo nele é maquinal. Não há a presença humana. Cadê o rapaz ou a moça para a gente entregar o bilhete? Não existe. Na estação pega-se o bilhete e pronto. É verdade que quem dirige o metrô é uma pessoa. Vi, certa vez, uma moça guiando aquele troço. Séria como uma estátua. E em Londres, andei de metrô sem gente dirigindo. O bicho corria sozinho. E sabe que eu tive medo? ...

Diz o ditado que o trem não espera por ninguém. Este ditado se aplica ao metrô. Nunca vi tanta pressa para sair e para chegar. Muito menos de um minuto e ele já está fechando a porta. Se você não tiver cuidado... E o meu medo sempre é de ficar no vagão e me desencontrar dos meus queridos familiares...

Mas que a viagem é excelente, não tenha dúvida. Nenhuma trepidação. E é ótimo para a gente ler. E é o que vemos nesse transporte, muita gente com um livro na mão. O resto das pessoas de cara meio amarrada. Ninguém olha para ninguém e eu doido para ver um sorriso brasileiro...

O metrô é um transporte-símbolo do homem contemporâneo, apressado, estressado, robotizado, eficiente, mas sem calor humano. As pessoas quase não se olham. E se olham, tiram logo a vista.

O metrô não nos mostra a paisagem, vai por debaixo da terra. Você só vê parede. E, como exceção, agora estou me lembrando de um metrô de Lisboa, onde se liam pensamentos de Sócrates... Na estação do museu do Louvre, lá em Paris, veem-se belas réplicas e artísticos cartazes nas paredes.

O que me aborrece no metrô é a sua extrema rapidez. Que diferença de um navio, onde não falta o calor da presença humana. Mal chega numa estação, já está chiando para sair. Nada de conversa, nada de perder tempo. E a porta se fecha com uma rapidez enorme. O homem contemporâneo também é assim. Não para mais a olhar e refletir. Nada de se abrir num sorriso. Fecha-se logo. É o homem-metrô!

Cumprimentar, indagar como você vai, parar um pouquinho? Nada disso. No entanto, esquece o “homem-metrô”, sempre apressado, sempre estressado, que, quando ele fechar os olhos para este mundo, o carro mortuário, que o levará ao cemitério, é devagar e silencioso. Vai, muito lentamente, em direção à pousada onde ficarão os ossos do viajante.

N as agradáveis manhãs deste gostoso inverno o “bom-dia” vem sendo da chuva. E que seja muito bem-vinda a chuva, com seu o cheirinho de terr...

Cai chuva, já é tempo de paz!

Nas agradáveis manhãs deste gostoso inverno o “bom-dia” vem sendo da chuva. E que seja muito bem-vinda a chuva, com seu o cheirinho de terra molhada. E ainda tem gente que dela não gosta...

Manhãs com pássaros calados, asas encolhidas e escondidas nas brechas dos cachos de coco, mas, as plantas gritando de alegria. Dançando ao vento, celebravam o merecido banho com muita satisfação. Tenho pena de quem pensa que as plantas não riem. Vejo-as pelo vidro da janela, abraçadas, numa ciranda de alegria, todas cantando à chuvinha que cai...

Cai chuva!... molha a terra seca com sede de vida! Enche os açudes, os riachos e as poças, que os sapos e lagartixas querem te beber. Quem não te quer é porque não te merece.

Vai... lava tudo, limpa a poeira, corre e escorre pelos regos desse mundo que sem ti não vive!... Enche e transborda córregos, rios e riachos. Lava a alma desse planeta que, por vezes, se suja até de sangue. Aproveita, e lava também a nossa alma. Para que nos sintamos revigorados, reformados e atentos à mensagem divina que a rica, pródiga e generosa Mãe Natureza nos transmite todos os dias, da alvorada ao crepúsculo.

As chuvas são um presente muito especial de Deus, o Grande Pai, aquele que alguns pensam que tem barbas de nuvens brancas, mas que na verdade não se parece com forma alguma. Não se parece porque se confunde com o Universo, com a Criação, pois, só se começa a entender Deus quando se consegue vê-Lo como Criador e Criatura, começo e fim, preto e branco, triste e alegre.

De nada podemos reclamar. Tudo nos foi provido. Temos flores que nos sorriem na terra, e ondas que nos sorriem no mar. Temos o vento que acaricia e o sol que nos devolve as cores, que dormem nas noite de paz. Paz... é só o que nos falta. Que maravilha seria que o Grande Pai nos surpreendesse com esse maior presente que o mundo poderia ganhar. Já é tempo de paz!...

C arlos Drummond de Andrade, meu xará, é um dos meus ídolos da poesia. A primeira vez que o vi – e já faz tanto tempo! – foi na livraria Leo...

Um exemplo de dignidade

Carlos Drummond de Andrade, meu xará, é um dos meus ídolos da poesia. A primeira vez que o vi – e já faz tanto tempo! – foi na livraria Leonardo da Vinci, no Rio de Janeiro. Ele conversava animadamente com uma senhora, decerto sua leitora e admiradora. E como estava loquaz, o meu comedido poeta, de ordinário, ensimesmado! Ah, como tive vontade de participar daquela conversa! Drummond bem pertinho de mim...

Nesse tempo, o poeta mantinha uma coluna diária, no “Jornal do Brasil”. Que crônicas maravilhosas! Quanta perspicácia, quanto bom humor, quantas lições de vida! Depois ele saiu do matutino carioca. Deixou de dar o seu bom dia aos numerosos leitores. A coluna ficou lembrando uma janela vazia. E em carta, eu lhe disse isto. A resposta veio rápida, em outra carta manuscrita na qual ele agradecia o meu livro “A Dança do Tempo” e, mais adiante, aludia à “janela vazia”. Eis um trecho da carta, datada de 29 de dezembro de 1985, que acabo de encontrar nos velhos papéis, que me deu muita saudade e que guardo, nos meus alfarrábios, como preciosa relíquia.

“Caro Carlos Romero. Obrigado pela oferta de a “Dança do Tempo”, um exemplo do que deve ser um livro de crônicas, na qual a acessibilidade de linguagem deve estar sempre a serviço de um pensamento lúcido”. A “janela vazia” me tocou a sensibilidade, mas continuo achando que a janela se cansou de quem nela se debruçava. O abraço amigo e os votos de um feliz 1986, de seu Carlos Drummond”.

Esta carta, daquele que tanto admirei à distância, agora me enche de saudades, nesta manhã com a chuva lá fora, chorando...
Epara terminar, esta outra carta, em que o poeta maior me agradecia o registro que fiz de seu livro “O Observador”, datada de 17 de janeiro de 1986: “Prezado xará e amigo: o meu “Observador” sentiu-se muito lisonjeado com o seu simpático registro em A União. São palavras de cordial significação, que me tocam. Mais uma vez, foi um comentarista generoso dos meus escritos. Quanto à parte final do artigo, esclareço que continuo a pensar do mesmo modo, no tocante à explosão demográfica, que vai tornando difícil de controlar este pobre mundo... Abraço amigo e agradecido do seu Drummond”.

Quando eu ingressei na Academia Paraibana de Letras, recebi dele este bilhete: “Prezado Carlos Romero: Vai aqui de longe, e cordialmente, meu abraço de felicitações ao novo membro da Academia Paraibana de Letras”.

Fiquemos por aqui. A presença do poeta continua forte na minha saudade e na minha admiração... Como estará o seu busto na praia de Copacabana?... Uma merecida homenagem que lhe prestaram os cariocas. Ele foi, antes de tudo, um exemplo de dignidade humana.

D isse o grande Montaigne: “Meus pensamentos adormecem quando sento. E meu espírito anda melhor quando minhas pernas se movem”. Daí se concl...

Sabedoria peripatética

Disse o grande Montaigne: “Meus pensamentos adormecem quando sento. E meu espírito anda melhor quando minhas pernas se movem”. Daí se conclui que o caminhar, o movimento do corpo, os exercícios físicos agitam as idéias, acordam os pensamentos.

Os filósofos da antiguidade, a exemplo de Aristóteles, ensinavam andando. Era o método chamado peripatético. Professores ou oradores que se movimentam conseguem fluir melhor as idéias, e prendem mais a atenção do auditório. Duvido que alguém durma com um professor que dá aula pra lá e pra cá.

Estou me lembrando de um mestre meu, de Metafísica, na antiga escola de filosofia, que dava aulas se movimentando, gesticulando. Chegava ao ponto de tirar o paletó, depois a gravata, e o meu medo era que ele viesse a fazer um strip-tease... O professor não é outro senão o nosso Manuel Viana, cujas aulas muito nos empolgavam. A disciplina, conquanto difícil, terminava entrando fácil na nossa cachola.

Também me lembro do grande professor de Filosofia do Direito, Miguel Reale, que vinha de São Paulo nos ensinar aquela difícil matéria nos cursos de especialização de nossa Faculdade de Direito. Muito loquaz, de estatura média, o homem andava pela sala de uma ponta a outra, atraindo a atenção de todos nós. Culto, erudito, ele tinha uma didática admirável. Seria horrível se ele ministrasse as aulas sentado...

Mas é preciso lembrar que o silêncio também é recomendável à produção de idéias. Quem fala muito pensa pouco.

Os grandes filósofos gostavam de caminhar. O velho Immanuel Kant, cuja cidade onde nasceu e viveu, o meu filho Carlos Augusto acabou de conhecer, costumava, todas as tardes, dar um passeio pela sua Königsberg, hoje chamada Kaliningrado. E saía de casa na hora certa. A cidade toda acertava seus relógios pelo pontualíssimo horário da caminhada do filósofo da Razão Pura, e da sabedoria peripatética.

Parece filme de ficção científica. No deserto escaldante da Austrália, aproximadamente 3.000 habitantes do pequeno vilarejo de Coober Pedy ...

Humanos que moram embaixo da terra


Parece filme de ficção científica. No deserto escaldante da Austrália, aproximadamente 3.000 habitantes do pequeno vilarejo de Coober Pedy residem literalmente sob a superfície terrestre.

Quando se trata de letras mudas na Língua Portuguesa, o H reina praticamente absoluto. Humano. Haver. Hábito. Homem. Bahia. Ah! Ihh! Uhhh...

Nunca pronuncie essas letras quando falar em inglês!

letras não pronunciadas em inglês


Quando se trata de letras mudas na Língua Portuguesa, o H reina praticamente absoluto. Humano. Haver. Hábito. Homem. Bahia. Ah! Ihh! Uhhh! Nessas expressões, ele entra mudo e sai calado.

F iquei feliz em saber que o meu amigo, jornalista Hélio Zenaide, hoje afastado da imprensa, onde atuou com tanto brilho, elegância e objeti...

Um grande mestre

Fiquei feliz em saber que o meu amigo, jornalista Hélio Zenaide, hoje afastado da imprensa, onde atuou com tanto brilho, elegância e objetividade, está se recuperando de um problema recente de saúde. Aos pouquinhos, já consciente e em casa, com o carinho de seus 4 filhos, ele vai se restabelecendo.

Hélio é o que pode-se chamar de um verdadeiro homem de jornal. Bom na reportagem, excelente no comentário político e arguto analista dos fatos, ninguém melhor do que Hélio para escrever um belo editorial, coisa que, como jornalista, nunca fui capaz de fazer.

Filho de Alagoa Grande, ele nasceu para escrever. Esta sua maior aptidão. Escreve com uma facilidade admirável, num estilo simples e objetivo. Seu pai, Heretiano Zenaide, foi pioneiro da ecologia em nossa terra. Escreveu vários livros cujo tema predileto era a Natureza. Livros que mereciam ser reeditados em face de seu valor didático. Portanto, esse gosto de Hélio pelas letras veio de seu pai.

De religião, o nosso jornalista sempre manteve distância. Seu temperamento cético estava mais preocupado com as coisas cá de baixo. Mas um dia – aí é que começa a sua outra história – Hélio, pela mão de sua filha Valéria, termina dentro de uma sala mediúnica do Centro Espírita Leopoldo Cirne, onde se comunica com os espíritos e se surpreende com o que o que viu e ouviu.

Convenceu-se da proposta espírita, tornando-se um convicto profitente. Daí em diante, não quis mais escrever sobre outra coisa. A Doutrina o fascinou. No tradicional jornal A União manteve, por muito tempo, uma coluna diária, abordando temas sobre mediunidade, reencarnação, e moral evangélica.

Por motivo de saúde, com problema de visão, ele hoje quase que não sai de casa, ao lado dos livros, da esposa, dos filhos e dos netinhos. Assim mesmo, continua lendo com o apoio de uma lupa.

Sempre tive muita alegria em ouvir Hélio Zenaide proferindo palestras no Centro Espírita sore Leopoldo Cirne, falando em alto e bom som, segurando a lupa e numa voz bem postada

Hélio é um homem em paz de consciência, feliz com a sua família, feliz com a religião que é hoje sua maior motivação na vida. Sua vida é uma grande lição. Lição de coragem e fé. Modéstia à parte, ele é um grande mestre.

C om tantas atenções voltadas para Brasília, que apareceu por esses dias, na TV e nos jornais ameaçada de depredação, nas manifestações de v...

Um exemplo para todos nós

Com tantas atenções voltadas para Brasília, que apareceu por esses dias, na TV e nos jornais ameaçada de depredação, nas manifestações de violência em nome da política, veio-me a lembrança o grande Oscar Niemeyer, um dos maiores arquitetos do mundo, o homem que projetou a capital, em um plano urbanístico que tem a forma de um avião. O único avião de que ele não teve medo, pois não consegue decolar.

Como eu gostaria de tê-lo conhecido pessoalmente. Não para falar-lhe. Gostaria, apenas, de contemplá-lo, mesmo que fosse à distância.

Sua distração quando viajava de automóvel era olhar as nuvens no firmamento. E era nesse contemplar de nuvens, que ele se inspirava para a sua arquitetura.

O presidente Kubistchek, o maior presidente que nós tivemos, logo que assumiu o governo, foi procurar o genial artista para cuidar da arquitetura de Brasília, pois já conhecia seu trabalho desde quando era prefeito de Belo Horizonte.

O que mais admirava em Oscar Niemeyer era sua integridade. Humanitário, incapaz de um deslize moral. E tanta corrupção por aí! Tanta falta de caráter! O nosso arquiteto, porém, soube fazer de sua vida também uma obra de arte. Uma admirável arquitetura existencial. Sua vida é um exemplo para todos nós.

Certa vez, declarou que “teria vergonha se fosse um homem rico. Que guardava duas coisas com satisfação: o desinteresse pelo dinheiro, que manteve por toda vida; e a vontade de ajudar as pessoas, ser-lhes útil, dividir.

Seus olhos não viam apenas as nuvens, mas também os meninos de rua, para os quais tinha profunda compaixão. Impressionante esta sua reflexão, com que encerro a crônica: “No dia em que o homem compreender que é filho da natureza, irmão dos bichos da terra, dos pássaros do céu e dos peixes do mar, nesse dia ele compreenderá sua própria insignificância e será mais humano, mais simples e mais solidário”.

Q uando o homem vem ao mundo, sua primeira pousada é o útero materno. Eis aí um espaço de muito silêncio. A gestação do feto vai se processa...

A morte do silêncio

Quando o homem vem ao mundo, sua primeira pousada é o útero materno. Eis aí um espaço de muito silêncio. A gestação do feto vai se processando sem o mínimo ruído. E tinha de ser, assim, porquanto no barulho, seria impossível a vida em formação.

Se olharmos a Natureza, onde é que está o barulho? As árvores são silenciosas e os pássaros que nelas se aninham só fazem cantar, suavemente. As flores se desabrocham no maior silêncio, e no fundo do mar, nem se fala. E que dizer desta usina que nos fornece luz, o dia inteiro, o sol? Trabalha num saudável mutismo. Não polui a atmosfera, nem agride os ouvidos. Da mesma maneira, as estrelas que surgem para enfeitar o firmamento. Dir-se-ia que o silêncio é a voz de Deus.

Falei do útero, do sol, das estrelas, das plantas, do fundo do mar, e já ia me esquecendo o nosso corpo, este santuário divino. O coração, esta bomba extraordinária, trabalha em silêncio, e o sangue, este rio vermelho, flui calmamente levando alimentos para as mais distantes células. Também os pulmões, o estômago, o fígado, funcionam caladinhos sem perturbar o ambiente. O mar não produz barulho, mas marulho, que é diferente. Nada mais apaziguador do que ficar ouvindo a voz do mar...

Aí dirá você: e o trovão? O trovão não agride os ouvidos, o trovão produz um som macio, grave, um som terapêutico e místico, que nos leva a reflexões...

Mas, afinal, quem é que faz barulho, neste mundo? O cachorro e o homem. Talvez seja essa a razão porque ambos são tão amigos...

O pior é que o barulho humano está cada vez mais se intensificando. Não há mais respeito ao silêncio, como em alguns países civilizados, onde as leis do silêncio ainda funcionam. Mas, aqui, nesta nossa capital, o barulho se tornou um escândalo, uma falta de vergonha, um desrespeito ao direito alheio. E a barulheira progride em lugares que foram criados para a paz, a exemplo das praias.

Até através dos telefones celulares, surgem, vez por outra, pessoas falando alto, fazendo desses instrumentos verdadeiros microfones. Resultado: muita gente está ficando surda. E quem é surdo costuma falar alto.

É preciso mais controle das autoridades para evitar a lastimável e iminente morte do silêncio.

Q uando os homens da limpeza púbica aparecerem à sua frente, faça uma ligeira reflexão. Lembre-se que eles limpam a sujeira que você produz....

Um trabalho muito sério



Quando os homens da limpeza púbica aparecerem à sua frente, faça uma ligeira reflexão. Lembre-se que eles limpam a sujeira que você produz. Merecem todo o nosso respeito e admiração. E à noite, enquanto você passeia, vai às festas, restaurantes, se diverte, eles trabalham.

Outrora, eram chamados homens do lixo. Ora, vejam só... Homens do lixo somos nós que sujamos as ruas, as praças, e a praia. Eles são homens da limpeza.

Preste atenção ao trabalho deles. Veja como é duro coletar o lixo. Muito diferente desse meu trabalho macio em que as mãos digitam as teclas deste computador. Um trabalho sem suor. Mas os garis suam por todos os poros. E quase não conversam. Trabalham em silêncio.

Graças a estes agentes da limpeza pública, tudo é recolhido, tudo fica livre da sujeira. E como eles dão duro no serviço! Só em olhá-los trabalhando deixa a gente cansada.

Os nossos agentes da limpeza pública vestem-se de vermelho. Seria alguma alusão ao vermelho da nossa bandeira revolucionária, que ostenta um “Négo”?...

Só sei que eles chamam logo a nossa atenção com a cor de suas vestes. Cor de sangue. Pena que ganhem tão pouco. Nada de gratificações extraordinárias, de gordas aposentadorias e muito menos de mensalões ou propina da Friboi. Acho que, à noite, quando vão se deitar, o corpo todo deve estar dolorido. Quanto cansaço, meu Deus do céu!

Também me veio à lembrança uma greve, lá na bela Amsterdam, que, de uma hora para outra virou um monturo só. Por pouco os urubus não pousaram nas suas praças, avenidas e pontes para decepção de Rembrandt e Van Gogh. Os homens da limpeza pública resolveram cruzar os braços. Foi um Deus nos acuda... Que eles nunca mais precisem cruzar os braços.

E no Natal, será que eles têm uma confraternização. Isto fica para os de cima, os produtores do lixo. Lixo que eles recolhem com muito trabalho.

Q uando estou para viajar, sempre me vem à lembrança a recomendação de Érico Veríssimo: “Sábio é o turista que viaja com bagagem pequena e a...

Até a volta!

Quando estou para viajar, sempre me vem à lembrança a recomendação de Érico Veríssimo: “Sábio é o turista que viaja com bagagem pequena e alma grande”.

Ele foi o autor predileto de minha juventude. Começou com “Clarissa”, que tanto mexeu com minha sensibilidade. Depois vieram outros: “Olhai os lírios do campo”, “Um lugar ao sol”, “Música ao longe”, “O resto é silêncio, “Caminhos Cruzados”, e assim por diante. E eu admirava também os títulos de seus livros. Por fim, vieram “Incidente de Antares” e as memórias com “Solo de Clarineta”

Érico também foi um bom escritor de viagens. Seu primeiro livro, neste gênero, “Gato Preto em Campo de Neve”, em que narra sua primeira visita aos Estados Unidos, é uma beleza pela sua argúcia de viajante. Há outros, no gênero, a exemplo de sua viagem ao México, e “Israel em abril”, que reencontrei aqui na biblioteca cheiinho de anotações a mão.

Vejam algumas: “O perfume dos laranjais é tão intenso que chega a ter um corpo, um peso, quase uma forma visível.” E que dizer deste trecho, quando ele se defrontou com o Mar da Galiléia e começou a fazer conjecturas líricas: “... ontem Jesus saiu de Nazaré, sozinho e a pé, na direção deste lago. Dormiu à noite debaixo de uma oliveira, cujos frutos comeu ao raiar do dia...” E mais adiante: “O Jesus de que te falo é um homem que transpira, que suja os pés na poeira dos caminhos e que os lacera nas pedras do chão”.

Doido por árvores, ele chega a este desabafo: “Alegra-me a idéia de que desde o princípio do Estado de Israel seu governo já fez plantar mais de setenta milhões de árvores no território nacional.

Quando estive em Porto Alegre, fiz questão de visitar a antiga Livraria Globo, onde vi o seu retrato sorrindo para mim... Pouco mais, a caminho da Alemanha, minha bagagem será pequena e alma, muito grande. Até a volta!

A inda em clima de Páscoa, quando se falou muito na Paixão, na Ressureição, não poderíamos deixar de lembrar do amor ao próximo, tão enfatiz...

Ninguém abraça de braços fechados

Ainda em clima de Páscoa, quando se falou muito na Paixão, na Ressureição, não poderíamos deixar de lembrar do amor ao próximo, tão enfatizado no Evangelho.

E não dá para falar em amor ao próximo sem lembrar de caridade. Foi dito que a caridade é o sentimento máximo de amor. Daí o slogan espírita: “Fora da caridade não há salvação”.

Mas como podemos definir caridade? Se eu der um pão a um cachorro, estaria praticando caridade? Acho que não. Teríamos aí um sentimento de misericórdia.

Caridade é amor, amor ao próximo, ao semelhante. É colocar-se no lugar do outro.Lembram-se da parábola do samaritano, contada por Jesus? Em que um homem descia para Jericó e no caminho foi assaltado por uns bandidos? Mais adiante, passava por ali um samaritano e condoeu-se da situação. Não pensou duas vezes e tratou dos ferimentos da vítima, chegando a levá-lo para uma hospedaria. Acontece que, antes, passaram pelo mesmo lugar dois religiosos e nem sequer demoraram a vista na vítima.

Fez bem a Doutrina Espirita erigindo como máxima: “Fora da caridade não há salvação”. Paulo de Tarso, o iluminado de Damasco, gritou que a caridade é o sentimento máximo.

A Doutrina fez bem em estabelecer como máxima : “Fora da Caridade não há salvação.”
Mas a lição mais difícil ensinada pelo Evangelho é “amar ao próximo como a si mesmo”. Será que amamos ao próximo como a nós mesmos?

Outrora, o slogan “Fora da caridade não há salvação”, era lido em vários locais da antiga Federação. Que o atual presidente Marco Lima restaure a bela frase. Como a Doutrina espírita é ecumênica...

Concluo lembrando o significativo slogan espírita: “Fora da Caridade não há salvação”. Caridade, que é amor ao próximo, nada mais é do que o nosso grande teste de amor.

Gostaria de ter perguntado a Jesus, porque morreste de braços abertos? Ele, sem dúvida, responderia: “Ninguém abraça de braços fechados”...

E a crônica? Cobra, meu filho Germano, que é um dos meus leitores prediletos, aliás, com muita honra. É que o cronista está com uma preguic...

E eis a crônica

E a crônica? Cobra, meu filho Germano, que é um dos meus leitores prediletos, aliás, com muita honra.

É que o cronista está com uma preguicinha danada, com esse silêncio gostoso, silêncio com cheiro de chuva.

Mas vamos à crônica, e eu me lembrando de Alagoa Nova, terra onde nasci, onde fui pai pela primeira vez, e para onde voltei, como juiz. E como juiz, tive um tabelião muito inteligente e que se deu muito bem comigo.

Observador primoroso, ele, certa vez, me disse: ”Doutor, um homem a gente conhece pelo andar”. Será? Talvez sim.

Acontece que chegou um novo delegado de polícia na cidade. Aí eu indaguei: E aí Bastos, que tal o novo delegado? E ele, sem pestanejar: “O andar é de malandro”...

Bastos era solteirão. Um homem de bem. Para ele, homem de bem é aquele que paga em dia, que nunca esquece suas dívidas. Acontece que Bastos emprestava a juros.

Alagoa Nova, que meu irmão Eudes denominava “sítio de mangueiras”, era uma beleza. E nem era terra produtora de cachaça...

Outrora, no cemitério, tinha um enorme pé de piroá, que terminou sendo derrubado. Isso me entristeceu. Outro dia, a nossa amiga e conterrânea, Aleci Mendonça, me mostrou uma foto antiga, com o grande piroá, na frente do cemitério. Uma maravilha.

Fui juiz de minha terra. Que beleza! E a casa onde dei o primeiro grito para o mundo ainda existe. Um sobrado de duas janelas e uma porta, que, ao que fui informado, continua inteiramente preservado. Soube até que o meu quarto, no primeiro andar, que tinha uma janela de onde eu espiava a igreja, ainda está do mesmo jeito.

Mas, e o meu amigo Bastos de Souza? Que admirável caráter. E pelo simples fato de não ser casado, o padre vivia se metendo na vida daquele admirável homem.

E eis que terminei a crônica que Germano me pediu. E concluo dando um viva. Viva a vida, e suas boas lembranças!

N ão vejo outro título para esta crônica que escrevo com muita preguiça, logo que a chuva começou a cair forte, nesta manhã de outono. Tanta...

Crônica molhada

Não vejo outro título para esta crônica que escrevo com muita preguiça, logo que a chuva começou a cair forte, nesta manhã de outono. Tanta chuva que deixa a gente molhado e triste. Triste e preguiçoso. Mais ainda. A chuva me trouxe saudades. Saudades de quê, cronista?

Saudades de minha infância. Mais ainda, saudades de minha asma. Mas, só da asma? Não, saudades de minha mãe. E o que tem uma coisa a ver com a outra? Ora, quando eu tinha asma, minha mãe passava as noites comigo, me acariciando, contando histórias lindas. Será que toda mãe faz isso? Não sei, só sei que a minha fazia. A asma, também chamada de puxado, foi de uma pontualidade extraordinária. Nunca deixou de me visitar.

Mas, voltemos a esta chuva que ainda cai forte por aqui. Quanta água descendo do céu, meu Deus. Aqui para nós, sou um homem mais do fogo do que do gelo, mas do sol do que da chuva. Não sei porque danado, uma nasci em Alagoa Nova. Eu deveria ter nascido em Patos.

Como chove! Mas, tudo é necessário. Eu soube que chegaram até aqui as águas do rio São Francisco. E Lula dizendo quem foi ele quem trouxe a água do grande rio….

Minha asma passou, as chuvas estão diminuindo, o Sol já apareceu e a modinha está dizendo que “a raposa casou-se com o rouxinol”...

O céu agora está uma beleza. E viva a vida. Respiro forte e pronto. Sinto que respirar é viver. Eis o que é a vida. Se a criança não respira no momento em que nasce, morre. Meu primogênito, Carlos Augusto, levou umas palmadas do médico porque não chorou, assim que veio ao mundo.

E com essa chuva me lembrei do grande tribuno Alcides Carneiro que disse, quando começou a chover, num começo de discurso: “Pensava que falava apenas sob os aplausos dos homens, mas vejo que também falo sob as bênçãos de Deus”.

A chuva despareceu, o sol veio enxugando tudo, e a crônica chegou ao fim.

T odas três na letra M. E estou, justamente, me lembrando, agora, do meu amigo e, sobretudo mestre, Desembargador Paulo Bezerril. com quem ...

Mar, música e mulher

Todas três na letra M. E estou, justamente, me lembrando, agora, do meu amigo e, sobretudo mestre, Desembargador Paulo Bezerril. com quem muito aprendi. Um homem simples, cujo cargo não lhe alterou a personalidade. Sua grande paixão era a música. Tocava flauta e foi como flautista que ele integrou a nossa Orquestra Sinfônica, o inesquecível empreendimento cultural do nosso governador Tarcísio Burity.

Bezerril não gostou quando eu lhe disse que havia passado num concurso para juiz. “É como uma pérola lançada no mato”.
Ele sempre me dizia que as três coisas mais belas da vida são o mar, a música e a mulher. Concordo com ele.

Foi um excelente flautista de nossa Orquestra Sinfônica, em sua primeira fase. Um homem de uma simplicidade admirável. Pequeno no tamanho, mas grande no caráter.

Disse-me que o mar era uma de suas paixões, mas não consigo imaginá-lo de calção de banho lutando contra as ondas.

Paulo Bezerril muito me incentivou. Deu-me conselhos admiráveis. Eu gostava muito de conversar com ele.

Quando surgiu a Orquestra Sinfônica, numa época de saudosa memória, lá estava ele com sua flauta. Sua afinada flauta, reitero.

Lembro, agora, de sua filha Wilma, que ele adorava e com muita razão...

Mar, mulher e música. Suas três paixões. Três paixões com M.

Não me esqueço, e gosto de repetir, que quando eu fui lhe dizer que tinha sido aprovado num concurso para a magistratura, e iria trabalhar numa cidadezinha do interior, ele sorriu, levemente, e disse: “É o mesmo que jogar uma moeda no meio do mato”...

Mas, conversar com ele é que era bom. Uma conversa discreta, a que não faltava perspicácia. Era admirável o seu bom senso.

Por que estou me lembrando dele? Ora, por que as boas lembranças são psicoterapeutas. Paulo Bezerril, o magistrado, o músico, sobretudo o homem, modelar muito me ensinou na vida. Espremo a memória, o que me faz muito bem, e parece que estou a vê-lo. Esbelto, elegante, e, vez por outra, esboçando um sorriso de muita sabedoria.

Nada como uma boa lembrança para enfeitar ou dignificar uma vida.

E m toda família houve mortes. É óbvio. Meu irmão Alberto, quando pequeno, ficava sentado no chão, perto da mãe, costurando. De repente, mam...

Morte na família

Em toda família houve mortes. É óbvio. Meu irmão Alberto, quando pequeno, ficava sentado no chão, perto da mãe, costurando. De repente, mamãe notou que o menino chorava. Preocupada, perguntou: “O que foi, algum bicho lhe mordeu?” Não, é que estou pensando que, um dia, a senhora vai morrer”. A mãe sorriu, deu-lhe muitos beijos, e disse: “Não. Não vou morrer agora não, e deixe de besteira”.

Meu pai morreu aos oitenta e dois anos. Minha mãe foi mais longe, entregar sua bela vida a Deus. Atravessou o século, sorrindo. Digo bem: sorrindo, pois nunca vi uma mulher tão otimista. Sua alimentação? A mais sóbria possível, sem esquecer o ponche diário de laranja com cenoura. Gostava de cantar, gostava de ler, gostava de conversar, decifrava as chamadas “palavras cruzadas” e as charadas, nem é bom falar.

Minha mãe era muito bonita e tocava flauta. Já meu pai, não foi tão longe como ela, na idade, pois teve problemas com a próstata.

Tive um tio extraordinário, chamado João Augusto. Morreu solteirão, e se você lhe contasse a façanhas de uma pessoa, ou que alguém havia ficado muito rico, ele apenas dizia, sorrindo: “Mas, morre...”

Meu irmão mais velho, Mário, morreu de fumo. Ainda cheguei a vê-lo, no hospital, arquejante e lamentando muito por ter fumado.

Eu ainda estou vivinho da silva. Fui fumante exagerado, até que, um dia, senti o coração palpitar, a ponto de pular fora. Consequência do cigarro. Larguei-o, logo.

Hoje, com meus dois filhos queridos, Carlos e Germano, sinto-me feliz, pois ambos são infensos ao fedorento vício do fumo. Cigarro rima com catarro e pigarro, que são consequências de quem fuma.

Há uma modinha que termina assim: “Adão, foi feito de barro, colega, me dê um cigarro”. Dê não, leitor. Lembre-se de que o famoso Freud era um fumante exagerado até que contraiu câncer na boca, de cujo mau cheiro seu gato corria como o diabo da cruz.

O Sermão da Montanha resume toda a Doutrina de Jesus e é uma das maiores lições de otimismo. Basta lembrar de que o venerável Gandhi chegou...

Um sermão de fé e otimismo

O Sermão da Montanha resume toda a Doutrina de Jesus e é uma das maiores lições de otimismo. Basta lembrar de que o venerável Gandhi chegou a dizer: “Se toda a literatura do mundo fosse destruída e restasse apenas o Sermão da Montanha, nada se teria perdido”.

Imagino Jesus subindo o monte, ou a montanha, para pronunciar o seu discurso. Decerto, o clima estava ameno, o céu muito azul, a brisa beijando a face das pessoas, e Jesus falando. Uma voz suave, uma voz de quem falava com autoridade.

Ele começa se dirigindo aos bem-aventurados, isto é, aos humildes, aos que choram, aos mansos, aos que têm fome e sede de Justiça, aos puros de coração, aos que sofrem perseguição, discriminação. O silêncio deveria ser profundo.

A mensagem evangélica é de puro otimismo, mas, para cultivar o otimismo é preciso estarmos vigilantes. Daí o Mestre ter-nos advertido: “Orai e vigiai para não entrardes em tentação”.

Mas, não poderia ser outra a mensagem de quem nos convidou a olhar os lírios do campo, de quem disse: “Pedi e vos será dado, buscai e achareis”. Mensagem de quem dizia ao enfermo: “Tua fé te curou”.

A oração e a vigilância, portanto, são duas atitudes para nos livrar das tentações que são muitas. Tentação do dinheiro, do orgulho, da ambição, do ódio, da maledicência, da ociosidade...

Jesus estava sempre orando. E os seus discípulos tiveram inveja e aí pediram que o Mestre lhes ensinasse uma oração, que foi a do Pai Nosso.

É preciso lembrar de que nada conseguimos com pessimismo, com desânimo. “Tende bom ânimo” – aconselhava ele. Ah, o entusiasmo... Dizem que a palavra significa “Deus dentro de nós”.

E nunca esqueçamos a recomendação: pedi e vos será dado, buscai e achareis, batei e abrir-se-vos-á. Usemos a boca (o pedido), usemos os pés, isto é busquemos, e depois as mãos, batendo à porta.

Jamais desanimar, jamais cruzar os braços, jamais perder a fé, que é a grande força da vida. E esta fé não precisa ser grande. Ela pode ser do tamanho de um grão de mostarda.