F iquei feliz em saber que o meu amigo, jornalista Hélio Zenaide, hoje afastado da imprensa, onde atuou com tanto brilho, elegância e objeti...

Um grande mestre

Fiquei feliz em saber que o meu amigo, jornalista Hélio Zenaide, hoje afastado da imprensa, onde atuou com tanto brilho, elegância e objetividade, está se recuperando de um problema recente de saúde. Aos pouquinhos, já consciente e em casa, com o carinho de seus 4 filhos, ele vai se restabelecendo.

Hélio é o que pode-se chamar de um verdadeiro homem de jornal. Bom na reportagem, excelente no comentário político e arguto analista dos fatos, ninguém melhor do que Hélio para escrever um belo editorial, coisa que, como jornalista, nunca fui capaz de fazer.

Filho de Alagoa Grande, ele nasceu para escrever. Esta sua maior aptidão. Escreve com uma facilidade admirável, num estilo simples e objetivo. Seu pai, Heretiano Zenaide, foi pioneiro da ecologia em nossa terra. Escreveu vários livros cujo tema predileto era a Natureza. Livros que mereciam ser reeditados em face de seu valor didático. Portanto, esse gosto de Hélio pelas letras veio de seu pai.

De religião, o nosso jornalista sempre manteve distância. Seu temperamento cético estava mais preocupado com as coisas cá de baixo. Mas um dia – aí é que começa a sua outra história – Hélio, pela mão de sua filha Valéria, termina dentro de uma sala mediúnica do Centro Espírita Leopoldo Cirne, onde se comunica com os espíritos e se surpreende com o que o que viu e ouviu.

Convenceu-se da proposta espírita, tornando-se um convicto profitente. Daí em diante, não quis mais escrever sobre outra coisa. A Doutrina o fascinou. No tradicional jornal A União manteve, por muito tempo, uma coluna diária, abordando temas sobre mediunidade, reencarnação, e moral evangélica.

Por motivo de saúde, com problema de visão, ele hoje quase que não sai de casa, ao lado dos livros, da esposa, dos filhos e dos netinhos. Assim mesmo, continua lendo com o apoio de uma lupa.

Sempre tive muita alegria em ouvir Hélio Zenaide proferindo palestras no Centro Espírita sore Leopoldo Cirne, falando em alto e bom som, segurando a lupa e numa voz bem postada

Hélio é um homem em paz de consciência, feliz com a sua família, feliz com a religião que é hoje sua maior motivação na vida. Sua vida é uma grande lição. Lição de coragem e fé. Modéstia à parte, ele é um grande mestre.

C om tantas atenções voltadas para Brasília, que apareceu por esses dias, na TV e nos jornais ameaçada de depredação, nas manifestações de v...

Um exemplo para todos nós

Com tantas atenções voltadas para Brasília, que apareceu por esses dias, na TV e nos jornais ameaçada de depredação, nas manifestações de violência em nome da política, veio-me a lembrança o grande Oscar Niemeyer, um dos maiores arquitetos do mundo, o homem que projetou a capital, em um plano urbanístico que tem a forma de um avião. O único avião de que ele não teve medo, pois não consegue decolar.

Como eu gostaria de tê-lo conhecido pessoalmente. Não para falar-lhe. Gostaria, apenas, de contemplá-lo, mesmo que fosse à distância.

Sua distração quando viajava de automóvel era olhar as nuvens no firmamento. E era nesse contemplar de nuvens, que ele se inspirava para a sua arquitetura.

O presidente Kubistchek, o maior presidente que nós tivemos, logo que assumiu o governo, foi procurar o genial artista para cuidar da arquitetura de Brasília, pois já conhecia seu trabalho desde quando era prefeito de Belo Horizonte.

O que mais admirava em Oscar Niemeyer era sua integridade. Humanitário, incapaz de um deslize moral. E tanta corrupção por aí! Tanta falta de caráter! O nosso arquiteto, porém, soube fazer de sua vida também uma obra de arte. Uma admirável arquitetura existencial. Sua vida é um exemplo para todos nós.

Certa vez, declarou que “teria vergonha se fosse um homem rico. Que guardava duas coisas com satisfação: o desinteresse pelo dinheiro, que manteve por toda vida; e a vontade de ajudar as pessoas, ser-lhes útil, dividir.

Seus olhos não viam apenas as nuvens, mas também os meninos de rua, para os quais tinha profunda compaixão. Impressionante esta sua reflexão, com que encerro a crônica: “No dia em que o homem compreender que é filho da natureza, irmão dos bichos da terra, dos pássaros do céu e dos peixes do mar, nesse dia ele compreenderá sua própria insignificância e será mais humano, mais simples e mais solidário”.

Q uando o homem vem ao mundo, sua primeira pousada é o útero materno. Eis aí um espaço de muito silêncio. A gestação do feto vai se processa...

A morte do silêncio

Quando o homem vem ao mundo, sua primeira pousada é o útero materno. Eis aí um espaço de muito silêncio. A gestação do feto vai se processando sem o mínimo ruído. E tinha de ser, assim, porquanto no barulho, seria impossível a vida em formação.

Se olharmos a Natureza, onde é que está o barulho? As árvores são silenciosas e os pássaros que nelas se aninham só fazem cantar, suavemente. As flores se desabrocham no maior silêncio, e no fundo do mar, nem se fala. E que dizer desta usina que nos fornece luz, o dia inteiro, o sol? Trabalha num saudável mutismo. Não polui a atmosfera, nem agride os ouvidos. Da mesma maneira, as estrelas que surgem para enfeitar o firmamento. Dir-se-ia que o silêncio é a voz de Deus.

Falei do útero, do sol, das estrelas, das plantas, do fundo do mar, e já ia me esquecendo o nosso corpo, este santuário divino. O coração, esta bomba extraordinária, trabalha em silêncio, e o sangue, este rio vermelho, flui calmamente levando alimentos para as mais distantes células. Também os pulmões, o estômago, o fígado, funcionam caladinhos sem perturbar o ambiente. O mar não produz barulho, mas marulho, que é diferente. Nada mais apaziguador do que ficar ouvindo a voz do mar...

Aí dirá você: e o trovão? O trovão não agride os ouvidos, o trovão produz um som macio, grave, um som terapêutico e místico, que nos leva a reflexões...

Mas, afinal, quem é que faz barulho, neste mundo? O cachorro e o homem. Talvez seja essa a razão porque ambos são tão amigos...

O pior é que o barulho humano está cada vez mais se intensificando. Não há mais respeito ao silêncio, como em alguns países civilizados, onde as leis do silêncio ainda funcionam. Mas, aqui, nesta nossa capital, o barulho se tornou um escândalo, uma falta de vergonha, um desrespeito ao direito alheio. E a barulheira progride em lugares que foram criados para a paz, a exemplo das praias.

Até através dos telefones celulares, surgem, vez por outra, pessoas falando alto, fazendo desses instrumentos verdadeiros microfones. Resultado: muita gente está ficando surda. E quem é surdo costuma falar alto.

É preciso mais controle das autoridades para evitar a lastimável e iminente morte do silêncio.

Q uando os homens da limpeza púbica aparecerem à sua frente, faça uma ligeira reflexão. Lembre-se que eles limpam a sujeira que você produz....

Um trabalho muito sério



Quando os homens da limpeza púbica aparecerem à sua frente, faça uma ligeira reflexão. Lembre-se que eles limpam a sujeira que você produz. Merecem todo o nosso respeito e admiração. E à noite, enquanto você passeia, vai às festas, restaurantes, se diverte, eles trabalham.

Outrora, eram chamados homens do lixo. Ora, vejam só... Homens do lixo somos nós que sujamos as ruas, as praças, e a praia. Eles são homens da limpeza.

Preste atenção ao trabalho deles. Veja como é duro coletar o lixo. Muito diferente desse meu trabalho macio em que as mãos digitam as teclas deste computador. Um trabalho sem suor. Mas os garis suam por todos os poros. E quase não conversam. Trabalham em silêncio.

Graças a estes agentes da limpeza pública, tudo é recolhido, tudo fica livre da sujeira. E como eles dão duro no serviço! Só em olhá-los trabalhando deixa a gente cansada.

Os nossos agentes da limpeza pública vestem-se de vermelho. Seria alguma alusão ao vermelho da nossa bandeira revolucionária, que ostenta um “Négo”?...

Só sei que eles chamam logo a nossa atenção com a cor de suas vestes. Cor de sangue. Pena que ganhem tão pouco. Nada de gratificações extraordinárias, de gordas aposentadorias e muito menos de mensalões ou propina da Friboi. Acho que, à noite, quando vão se deitar, o corpo todo deve estar dolorido. Quanto cansaço, meu Deus do céu!

Também me veio à lembrança uma greve, lá na bela Amsterdam, que, de uma hora para outra virou um monturo só. Por pouco os urubus não pousaram nas suas praças, avenidas e pontes para decepção de Rembrandt e Van Gogh. Os homens da limpeza pública resolveram cruzar os braços. Foi um Deus nos acuda... Que eles nunca mais precisem cruzar os braços.

E no Natal, será que eles têm uma confraternização. Isto fica para os de cima, os produtores do lixo. Lixo que eles recolhem com muito trabalho.

Q uando estou para viajar, sempre me vem à lembrança a recomendação de Érico Veríssimo: “Sábio é o turista que viaja com bagagem pequena e a...

Até a volta!

Quando estou para viajar, sempre me vem à lembrança a recomendação de Érico Veríssimo: “Sábio é o turista que viaja com bagagem pequena e alma grande”.

Ele foi o autor predileto de minha juventude. Começou com “Clarissa”, que tanto mexeu com minha sensibilidade. Depois vieram outros: “Olhai os lírios do campo”, “Um lugar ao sol”, “Música ao longe”, “O resto é silêncio, “Caminhos Cruzados”, e assim por diante. E eu admirava também os títulos de seus livros. Por fim, vieram “Incidente de Antares” e as memórias com “Solo de Clarineta”

Érico também foi um bom escritor de viagens. Seu primeiro livro, neste gênero, “Gato Preto em Campo de Neve”, em que narra sua primeira visita aos Estados Unidos, é uma beleza pela sua argúcia de viajante. Há outros, no gênero, a exemplo de sua viagem ao México, e “Israel em abril”, que reencontrei aqui na biblioteca cheiinho de anotações a mão.

Vejam algumas: “O perfume dos laranjais é tão intenso que chega a ter um corpo, um peso, quase uma forma visível.” E que dizer deste trecho, quando ele se defrontou com o Mar da Galiléia e começou a fazer conjecturas líricas: “... ontem Jesus saiu de Nazaré, sozinho e a pé, na direção deste lago. Dormiu à noite debaixo de uma oliveira, cujos frutos comeu ao raiar do dia...” E mais adiante: “O Jesus de que te falo é um homem que transpira, que suja os pés na poeira dos caminhos e que os lacera nas pedras do chão”.

Doido por árvores, ele chega a este desabafo: “Alegra-me a idéia de que desde o princípio do Estado de Israel seu governo já fez plantar mais de setenta milhões de árvores no território nacional.

Quando estive em Porto Alegre, fiz questão de visitar a antiga Livraria Globo, onde vi o seu retrato sorrindo para mim... Pouco mais, a caminho da Alemanha, minha bagagem será pequena e alma, muito grande. Até a volta!