C onfesso que gosto de metrô. Transporte limpo, seguro. Pena que seja tão rápido. Rápido como uma bala. Pena que não tenha paisagem. O metrô...

Cuidado com a pressa

Confesso que gosto de metrô. Transporte limpo, seguro. Pena que seja tão rápido. Rápido como uma bala. Pena que não tenha paisagem. O metrô é um símbolo do homem moderno. Sem tempo, apressado, sem calor humano. Tudo nele é maquinal. Não há a presença humana. Cadê o rapaz ou a moça para a gente entregar o bilhete? Não existe. Na estação pega-se o bilhete e pronto. É verdade que quem dirige o metrô é uma pessoa. Vi, certa vez, uma moça guiando aquele troço. Séria como uma estátua. E em Londres, andei de metrô sem gente dirigindo. O bicho corria sozinho. E sabe que eu tive medo? ...

Diz o ditado que o trem não espera por ninguém. Este ditado se aplica ao metrô. Nunca vi tanta pressa para sair e para chegar. Muito menos de um minuto e ele já está fechando a porta. Se você não tiver cuidado... E o meu medo sempre é de ficar no vagão e me desencontrar dos meus queridos familiares...

Mas que a viagem é excelente, não tenha dúvida. Nenhuma trepidação. E é ótimo para a gente ler. E é o que vemos nesse transporte, muita gente com um livro na mão. O resto das pessoas de cara meio amarrada. Ninguém olha para ninguém e eu doido para ver um sorriso brasileiro...

O metrô é um transporte-símbolo do homem contemporâneo, apressado, estressado, robotizado, eficiente, mas sem calor humano. As pessoas quase não se olham. E se olham, tiram logo a vista.

O metrô não nos mostra a paisagem, vai por debaixo da terra. Você só vê parede. E, como exceção, agora estou me lembrando de um metrô de Lisboa, onde se liam pensamentos de Sócrates... Na estação do museu do Louvre, lá em Paris, veem-se belas réplicas e artísticos cartazes nas paredes.

O que me aborrece no metrô é a sua extrema rapidez. Que diferença de um navio, onde não falta o calor da presença humana. Mal chega numa estação, já está chiando para sair. Nada de conversa, nada de perder tempo. E a porta se fecha com uma rapidez enorme. O homem contemporâneo também é assim. Não para mais a olhar e refletir. Nada de se abrir num sorriso. Fecha-se logo. É o homem-metrô!

Cumprimentar, indagar como você vai, parar um pouquinho? Nada disso. No entanto, esquece o “homem-metrô”, sempre apressado, sempre estressado, que, quando ele fechar os olhos para este mundo, o carro mortuário, que o levará ao cemitério, é devagar e silencioso. Vai, muito lentamente, em direção à pousada onde ficarão os ossos do viajante.

N as agradáveis manhãs deste gostoso inverno o “bom-dia” vem sendo da chuva. E que seja muito bem-vinda a chuva, com seu o cheirinho de terr...

Cai chuva, já é tempo de paz!

Nas agradáveis manhãs deste gostoso inverno o “bom-dia” vem sendo da chuva. E que seja muito bem-vinda a chuva, com seu o cheirinho de terra molhada. E ainda tem gente que dela não gosta...

Manhãs com pássaros calados, asas encolhidas e escondidas nas brechas dos cachos de coco, mas, as plantas gritando de alegria. Dançando ao vento, celebravam o merecido banho com muita satisfação. Tenho pena de quem pensa que as plantas não riem. Vejo-as pelo vidro da janela, abraçadas, numa ciranda de alegria, todas cantando à chuvinha que cai...

Cai chuva!... molha a terra seca com sede de vida! Enche os açudes, os riachos e as poças, que os sapos e lagartixas querem te beber. Quem não te quer é porque não te merece.

Vai... lava tudo, limpa a poeira, corre e escorre pelos regos desse mundo que sem ti não vive!... Enche e transborda córregos, rios e riachos. Lava a alma desse planeta que, por vezes, se suja até de sangue. Aproveita, e lava também a nossa alma. Para que nos sintamos revigorados, reformados e atentos à mensagem divina que a rica, pródiga e generosa Mãe Natureza nos transmite todos os dias, da alvorada ao crepúsculo.

As chuvas são um presente muito especial de Deus, o Grande Pai, aquele que alguns pensam que tem barbas de nuvens brancas, mas que na verdade não se parece com forma alguma. Não se parece porque se confunde com o Universo, com a Criação, pois, só se começa a entender Deus quando se consegue vê-Lo como Criador e Criatura, começo e fim, preto e branco, triste e alegre.

De nada podemos reclamar. Tudo nos foi provido. Temos flores que nos sorriem na terra, e ondas que nos sorriem no mar. Temos o vento que acaricia e o sol que nos devolve as cores, que dormem nas noite de paz. Paz... é só o que nos falta. Que maravilha seria que o Grande Pai nos surpreendesse com esse maior presente que o mundo poderia ganhar. Já é tempo de paz!...

C arlos Drummond de Andrade, meu xará, é um dos meus ídolos da poesia. A primeira vez que o vi – e já faz tanto tempo! – foi na livraria Leo...

Um exemplo de dignidade

Carlos Drummond de Andrade, meu xará, é um dos meus ídolos da poesia. A primeira vez que o vi – e já faz tanto tempo! – foi na livraria Leonardo da Vinci, no Rio de Janeiro. Ele conversava animadamente com uma senhora, decerto sua leitora e admiradora. E como estava loquaz, o meu comedido poeta, de ordinário, ensimesmado! Ah, como tive vontade de participar daquela conversa! Drummond bem pertinho de mim...

Nesse tempo, o poeta mantinha uma coluna diária, no “Jornal do Brasil”. Que crônicas maravilhosas! Quanta perspicácia, quanto bom humor, quantas lições de vida! Depois ele saiu do matutino carioca. Deixou de dar o seu bom dia aos numerosos leitores. A coluna ficou lembrando uma janela vazia. E em carta, eu lhe disse isto. A resposta veio rápida, em outra carta manuscrita na qual ele agradecia o meu livro “A Dança do Tempo” e, mais adiante, aludia à “janela vazia”. Eis um trecho da carta, datada de 29 de dezembro de 1985, que acabo de encontrar nos velhos papéis, que me deu muita saudade e que guardo, nos meus alfarrábios, como preciosa relíquia.

“Caro Carlos Romero. Obrigado pela oferta de a “Dança do Tempo”, um exemplo do que deve ser um livro de crônicas, na qual a acessibilidade de linguagem deve estar sempre a serviço de um pensamento lúcido”. A “janela vazia” me tocou a sensibilidade, mas continuo achando que a janela se cansou de quem nela se debruçava. O abraço amigo e os votos de um feliz 1986, de seu Carlos Drummond”.

Esta carta, daquele que tanto admirei à distância, agora me enche de saudades, nesta manhã com a chuva lá fora, chorando...
Epara terminar, esta outra carta, em que o poeta maior me agradecia o registro que fiz de seu livro “O Observador”, datada de 17 de janeiro de 1986: “Prezado xará e amigo: o meu “Observador” sentiu-se muito lisonjeado com o seu simpático registro em A União. São palavras de cordial significação, que me tocam. Mais uma vez, foi um comentarista generoso dos meus escritos. Quanto à parte final do artigo, esclareço que continuo a pensar do mesmo modo, no tocante à explosão demográfica, que vai tornando difícil de controlar este pobre mundo... Abraço amigo e agradecido do seu Drummond”.

Quando eu ingressei na Academia Paraibana de Letras, recebi dele este bilhete: “Prezado Carlos Romero: Vai aqui de longe, e cordialmente, meu abraço de felicitações ao novo membro da Academia Paraibana de Letras”.

Fiquemos por aqui. A presença do poeta continua forte na minha saudade e na minha admiração... Como estará o seu busto na praia de Copacabana?... Uma merecida homenagem que lhe prestaram os cariocas. Ele foi, antes de tudo, um exemplo de dignidade humana.

D isse o grande Montaigne: “Meus pensamentos adormecem quando sento. E meu espírito anda melhor quando minhas pernas se movem”. Daí se concl...

Sabedoria peripatética

Disse o grande Montaigne: “Meus pensamentos adormecem quando sento. E meu espírito anda melhor quando minhas pernas se movem”. Daí se conclui que o caminhar, o movimento do corpo, os exercícios físicos agitam as idéias, acordam os pensamentos.

Os filósofos da antiguidade, a exemplo de Aristóteles, ensinavam andando. Era o método chamado peripatético. Professores ou oradores que se movimentam conseguem fluir melhor as idéias, e prendem mais a atenção do auditório. Duvido que alguém durma com um professor que dá aula pra lá e pra cá.

Estou me lembrando de um mestre meu, de Metafísica, na antiga escola de filosofia, que dava aulas se movimentando, gesticulando. Chegava ao ponto de tirar o paletó, depois a gravata, e o meu medo era que ele viesse a fazer um strip-tease... O professor não é outro senão o nosso Manuel Viana, cujas aulas muito nos empolgavam. A disciplina, conquanto difícil, terminava entrando fácil na nossa cachola.

Também me lembro do grande professor de Filosofia do Direito, Miguel Reale, que vinha de São Paulo nos ensinar aquela difícil matéria nos cursos de especialização de nossa Faculdade de Direito. Muito loquaz, de estatura média, o homem andava pela sala de uma ponta a outra, atraindo a atenção de todos nós. Culto, erudito, ele tinha uma didática admirável. Seria horrível se ele ministrasse as aulas sentado...

Mas é preciso lembrar que o silêncio também é recomendável à produção de idéias. Quem fala muito pensa pouco.

Os grandes filósofos gostavam de caminhar. O velho Immanuel Kant, cuja cidade onde nasceu e viveu, o meu filho Carlos Augusto acabou de conhecer, costumava, todas as tardes, dar um passeio pela sua Königsberg, hoje chamada Kaliningrado. E saía de casa na hora certa. A cidade toda acertava seus relógios pelo pontualíssimo horário da caminhada do filósofo da Razão Pura, e da sabedoria peripatética.

Parece filme de ficção científica. No deserto escaldante da Austrália, aproximadamente 3.000 habitantes do pequeno vilarejo de Coober Pedy ...

Humanos que moram embaixo da terra


Parece filme de ficção científica. No deserto escaldante da Austrália, aproximadamente 3.000 habitantes do pequeno vilarejo de Coober Pedy residem literalmente sob a superfície terrestre.

Quando se trata de letras mudas na Língua Portuguesa, o H reina praticamente absoluto. Humano. Haver. Hábito. Homem. Bahia. Ah! Ihh! Uhhh...

Nunca pronuncie essas letras quando falar em inglês!

letras não pronunciadas em inglês


Quando se trata de letras mudas na Língua Portuguesa, o H reina praticamente absoluto. Humano. Haver. Hábito. Homem. Bahia. Ah! Ihh! Uhhh! Nessas expressões, ele entra mudo e sai calado.