E stive pensando nas suavidades da vida. São tantas. Basta elevarmos os olhos para observar o suave e distante bailado das nuvens. Como isso...

As suavidades da vida

Estive pensando nas suavidades da vida. São tantas. Basta elevarmos os olhos para observar o suave e distante bailado das nuvens. Como isso nos dá tranquilidade...

Outra suavidade: uma flor caindo no chão... Jesus nos convidou a olhar os lírios do campo. Que bela terapêutica do olhar. Uma folha caindo no chão é de uma suavidade que encanta.

Uma lágrima escorrendo num rosto... Haverá coisa mais suave? E uma nuvem deslizando sob um céu azul, haverá coisa mais bela no mundo?

A contemplação das suavidades da vida nos eleva e nos enleva. Daí recebemos boas vibrações e nos mantemos no caminho do bem, livre das tentações. Jesus nos ensinou a não cair em tentação. Tentação é teste. E são tantas as tentações... Tentação da vaidade, tentação do sexo, do orgulho, do desânimo. Cuidado com as tentações!

Observar é bom. Viver é bom, conviver ainda é melhor. A vida na solidão não tem o menor sentido. Os existencialistas gritaram: os outros são o inferno. Estupidez, ninguém vive sozinho. Viver é conviver.

Mais do que isto: viver é transcender. Precisamos do outro, como precisamos do ar que respiramos. Não podemos viver sem o outro. Jesus aconselhou-nos a amar o próximo como a nós mesmos. Esta é a mais difícil de todas as lições do Mestre. Amar ao próximo como a nós mesmos...

Mas, o que eu mais observo, na maioria das pessoas, é uma espécie de indiferença. Uma total indiferença às belezas, às suavidades da vida. Alguns chegam até a fechar a cara num acentuado mau humor. A presença do outro parece incomodá-los... Talvez até concordem com o pessimista e estressado Sartre, para quem "O inferno são os outros".

Ora, ora, o homem é o seu olhar. Dize-me como olhas e eu te direi quem és. Olhar uma flor num jardim, uma nuvem deslizando no céu azul, uma lágrima escorrendo num rosto. Olhar as suavidades da vida...

D ele li dois magníficos romances: “Vingança, não” e “Rio Seco”, cuja temática é o sertão. Confesso que essas leituras me exaltaram. E eu fi...

Leituras que me exaltaram

Dele li dois magníficos romances: “Vingança, não” e “Rio Seco”, cuja temática é o sertão. Confesso que essas leituras me exaltaram. E eu fiquei doido para conhecer o seu autor, que, na época, andava pela Europa.

Falo de Francisco Perreira da Nóbrega, cronista, professor, doutor em Teologia, imortal da nossa Academia, onde ocupava a cadeira nº 33, que já deixou este mundo, e nele um grande vazio. Era membro da nossa Academia de Letras. O patrono de sua cadeira, Castro Pinto, foi um estadista paraibano e grande incentivador das Letras. Foi ele quem convidou o genial Carlos D. Fernandes para dirigir A União. O nosso aeroporto tem o seu nome. Será devido aos vôos da inteligência do homenageado?

Mas voltando a Francisco Pereira Nóbrega, não fui de sua intimidade, mas o admirava muito à distância. Até que, um dia, vim a conhecê-lo, numa livraria daqui. Pequeno de estatura, um pouco reservado, franzino, Chico Pereira, como também era chamado, me impressionou pela sua simplicidade e humildade. Depois, ele achou de ministrar um curso em nossa universidade sobre Teilhard de Chardin. Assisti às suas aulas com muito enlevo. Agora era o filósofo que também passava a admirar, o homem de pensamento, senhor de uma forte personalidade.

Daí por diante me desencontrei de Francisco Pereira da Nóbrega para depois voltar a encontrá-lo em suas crônicas diárias, no jornal “Correio da Paraíba”, numa coluna que deixou saudades a muitos leitores.

Chico Pereira não era muito de conversar. E quando conversava, era em tom menor. Jamais seria um político, de viver sorrindo e abraçando todo mundo. O homem era muito contido. Vivia se escondendo dentro de si mesmo, o que não é de estranhar num homem de pensamento. Quem fala muito, pensa pouco.

Católico convicto, mas muito independente em suas atitudes e idéias, o nosso Francisco Pereira da Nóbrega tinha como grande amigo o professor e escritor espírita Waldo Lima do Vale, autor do livro best-seller “Morrer... e depois?” O espiritismo de Waldo não afastou o católico de sua amizade. Ambos se entendiam e se respeitavam.

Na Academia de Letras, Francisco da Nóbrega nunca quis ocupar cargos. Mas sempre cumpriu os seus deveres de imortal.
Outro dia, estive visitando a Livraria do Luiz, que é um modelo de livraria, e com muita alegria revi uma edição do seu romance “Vingança, não”. E me veio um grande desejo de relê-lo. Agora não mais como um jovem verde, mas como um jovem maduro e mais experiente. E é o que vou fazer nestes dias. Reler este romance que deveria ser traduzido para vários idiomas e ganhado o mundo. Este e “Rio Seco” são leituras que exaltam.

Agosto está partindo. Dizem que é mês de muito vento. Gosto muito do vento. O vento que acaricia a minha careca. E ele, às vezes, é tão ...

O inimigo da rotina



Agosto está partindo. Dizem que é mês de muito vento. Gosto muito do vento. O vento que acaricia a minha careca. E ele, às vezes, é tão forte que chega a querer jogar fora o meu chapéu….

Sem o vento a vida seria uma tediosa calmaria. Sem ele, como é que Cabral descobriria o nosso país? O vento alegra, limpa, acaricia, enxuga, colabora na germinação das plantas agita o fogo. Outrora, ele era muito indiscreto e inconveniente, quando levantava as saias matando de susto as mulheres. Acontece que hoje, com as calças jeans, não há vento, mesmo em forma de brisa, que se torne inconveniente...

Mas o vento é também uma metáfora. Simboliza o entusiasmo. Com ele as árvores acenam alegres, o mar se enche de ondas, as nuvens são forçadas a descobrir o céu azul, as folhas velhas vão caindo numa triste despedida.

Ah, que tristeza quando o vento tarda ou falta! O homem, então,é forçado a construir cata-ventos, que não resolvem o problema. Outrora, graças ao artesanal abano, fazia-se vento para esquentar a nossa comida.

Ontem, o vento estava brabo. Se não me engano, ele queria anunciar alguma coisa. Ah, já sei. Ele queria dizer que setembro estava próximo a chegar. E eu adoro esse mês, pois foi nele que se realizou meu primeiro casamento e que viu minha segunda esposa, Alaurinda, abrir os olhos para o mundo. Setembro é para mim o mais simpático dos meses. E é em setembro que também se comemora a nossa independência.

E vamos às metáforas. O vento é a alma da natureza. Sem ele, tudo se imobiliza. Ele é que dá vida à vida. E tem muito de humano. Ora é suave como uma brisa, ora é violento como um furacão. Ora apaga o fogo, ora o agita. É inimigo da rotina, adora tirar as coisas do lugar. E como é belo contemplar a dança das árvores, das flores e das nuvens, graças a ele, que, como o tempo, está sempre renovando e transformando as coisas.

A palavra falada é uma dádiva, uma benção, uma beleza. Ah, os grandes discursos de antigamente! Como eles movimentavam e magnetizavam multi...

A palavra falada

A palavra falada é uma dádiva, uma benção, uma beleza. Ah, os grandes discursos de antigamente! Como eles movimentavam e magnetizavam multidões! Digo de antigamente porque hoje a preocupação é mais com a verba do que com o verbo...

Sem me referir aos grandes oradores do passado, gostaria de evocar os daqui da Paraíba. Disse meu pai que o orador paraibano, que mais o impressionou, foi o presidente João Castro Pinto. Informou meu velho que ouviu Castro Pinto no Teatro Santa Rosa, num discurso eletrizante, que o deixou sem dormir.

Dizem que o presidente Epitácio foi outro excelente orador. No seu busto, situado na entrada da avenida que tem o seu nome, vemo-lo, numa tribuna, de dedo em riste apontando para alguma coisa. E esta coisa era justamente o nosso sertão, dominado pela seca e pela fome. Da tribuna do Senado ele chamava a atenção para aquela grande realidade. Era o orador colocando o seu verbo a serviço do nosso esquecido Nordeste.

Mas será que houve orador, pelo menos aqui na Paraíba, maior do que Alcides Carneiro? Ele foi tão grande que o próprio Carlos Lacerda, um artista do verbo, o qualificou como “O Orador do Brasil”. Comício sem a presença do tribuno de Princesa Isabel não era comício. Eu não perdi um. E me lembro quando, certa vez, no adro da Catedral, mal começou seu discurso, desabou uma grande chuva. As palmas estrugiram. Ele, todo molhado, elevou as mãos para o céu e bradou: "Palmas, benção dos homens, chuva, benção de Deus!” Aí foi que bateram palmas. E prosseguiu o discurso dizendo que porta de igreja é para mendigo. E ele estava, ali, mendigando votos aos paraibanos.

Imaginação fértil, Alcides, quando ia fazer um discurso, não ia para a biblioteca, estudar e sim para uma rede se balançar. E ali ficava botando a sua fértil imaginação para funcionar, preparando a sua oração.

Outro orador que movimentou multidões foi José Américo de Almeida. Seus discursos abalaram o país. As frases geniais ficavam ressoando aos nossos ouvidos. Eram verdadeiros “discursos-denúncias”.

Aquele em que ele dizia: “eu sei onde está o dinheiro!”, se aplica até hoje. Agora, com a Lavajato, é que todos sabem... E aquele outro: "Não há maior tragédia do que morrer de fome na Terra de Canaã!", referindo-se ao Brasil... E por fim: "Ninguém se perde na volta”...

Na verdade, aqui pra nós, eu acho que os que não sabem falar é que estão inventando que a oratória está fora de moda...

Q ual a profissão que você escolheria hoje? Eu optaria pela aviação. Lindo aquele uniforme azul do comandante, a caminho da aeronave, levand...

Fazer o que gosta

Qual a profissão que você escolheria hoje? Eu optaria pela aviação. Lindo aquele uniforme azul do comandante, a caminho da aeronave, levando sempre um sorriso que imprime confiança aos passageiros. E mais belo ainda quando ele, à entrada da aeronave, dá votos de boas vindas aos que vão entrando no monstro de aço, que faz muita gente temer e tremer.

Depois vem o silêncio, aquele momento meio dramático da decolagem. O avião vai subindo, subindo, até entrar na horizontal, atropelando nuvens e enfrentando o vento. Como deve ser boa a sensação do comandante!

Sim, agora, todos estão dependendo de suas mãos, de seu olhar, de sua competência. Quantas milhas a vencer? Quanta atenção exigida!...

Ninguém sabe o nome do comandante, quais os seus problemas... Quais serão os seus pensamentos quando está entre a terra o céu? Suas saudades, seus amores, suas reflexões? Que sensação o domina naquele momento? Ninguém sabe. Todos no avião só estão ocupados e preocupados com os seus problemas. Ninguém pensa no que dirige a aeronave e tem o destino dos passageiros em suas mãos.

Outra profissão que eu escolheria sem pestanejar, é a de maestro. Maestro de uma orquestra sinfônica. Maestro que, a exemplo do comandante, também é um deus. Que sensação divina a de reger uma orquestra! Todos os músicos atentos aos seus gestos, às suas mãos, que lembram borboletas levitando sobre flores num jardim...

Duvido que um maestro entre em depressão, que esteja de mau humor, quando suas mãos começam a despertar os instrumentos para a música, com sua varinha mágica.

Comandante, maestro, muito melhor do que ter sido... Não, não vou comentar profissões prosaicas, rotineiras e tristes... Só sei que a coisa mais importante da vida é a fazer o que gosta, ter prazer na profissão. Não há maior violação a si mesmo do que procurar um meio de vida que não sintonize com o seu temperamento.

A ndei assistindo, um dia desses, à Sinfonia em dó menor, a mais popular das sinfonias de Beethoven, conhecida como a Sinfonia do Destino ou...

Referência e reverência

Andei assistindo, um dia desses, à Sinfonia em dó menor, a mais popular das sinfonias de Beethoven, conhecida como a Sinfonia do Destino ou a Quinta Sinfonia. Dir-se-ia que essa partitura é uma espécie de biografia do mestre de Bonn, onde ele trava uma luta contra o Destino. Uma luta cruel que termina com a vitória do homem Beethoven, o grande surdo, cuja existência foi um exemplo de coragem e fé.

Ele nunca cruzou os braços diante dos desafios existenciais. Lutou até o fim, sem jamais perder a dignidade que o caracterizava. Disse um escritor que Bach era sereno e Beethoven sério. Disse o grande místico Amiel que Bach era Deus e Beethoven, homem. E a Sinfonia do Destino nada mais é do que a luta do homem diante das intempéries, dos sofrimentos e da dor.

Começa essa partitura com aquelas quatro notas, representando as pancadas do Destino, com o qual o genial compositor trava uma terrível luta, mas que, finalmente, sai vitorioso.

O Beethoven-homem, entretanto, não se afastou do Beethoven-místico, o Beethoven que procurava sintonizar-se com a Divindade, seja na Pastoral, essa idílica sinfonia em que o compositor procurou exaltar o Deus Natureza, a que se refere o filósofo Spinoza, seja quando entoou aquele grito de alegria na Nona Sinfonia, saindo da horizontalidade humana para a verticalidade divina, da terra para o céu, da imanência para a transcendência. A verdade é que a vida de Beethoven transitou entre esses dois pólos: o humano e o divino.

Na Natureza, ele procurava o silêncio de um templo religioso, no tempo em que o templo era um oásis de silêncio. Ali ele esquecia os seus dissabores, as suas dores. Em contato com as árvores, ele encontrava a paz que não encontra entre os homens.

Voltando à quinta Sinfonia, vale a pena ouvi-la, seja no andante heróico, seja no movimento final, verdadeiro grito triunfal de um homem que teve tudo para se suicidar, tudo para desertar da vida, mas que, com admirável heroísmo conseguiu triunfar sobre as limitações que o Destino lhe impôs.

A Sinfonia em Dó menor é a homenagem ao homem, a Sinfonia Pastoral é a homenagem à Natureza e a Nona Sinfonia é a sintonia com a consciência cósmica. É o homem mergulhando no Divino.

Beethoven ainda é a grande referência. Referência que merece toda a nossa reverência. Sua música não é apenas para ser escutada. Mais do que isso. A música do genial compositor nos induz a muitas reflexões. Reflexões sobre a nossa vida, sobre o nosso destino.