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Aprendendo com Nhô Augusto


Nhô Augusto Matraga, depois de levar uma surra de largar o choco, apanhando mais do que mala velha para tirar o mofo, tendo sido ferrado, pulado de um barranco, dado como morto e cuidado por um casal estranho, recobra a consciência e decide que deve mudar de vida. O seu intuito com a mudança? Entrar no céu, nem que seja a porrete.

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Mas o porrete não era para os outros, como soía acontecer, quando Nhô Augusto era o brabão, o valentão, o casa-e-batiza, senhor do cutelo e do baraço, de antes não. O porrete era pra ele mesmo. Pra tratar dessa valentia, pra dominar o seu ímpeto de galo cego, sua tendência para desfeitear os outros, a troco de dá cá aquela palha. O porrete era pra o amansamento do seu próprio espírito, mais turbulento do que enxurrada de rio após as chuvas de janeiro, do que cavalo chucro, quando tenta ser montado.

Nhô Augusto quer consertar o mundo, diz Vossenhoria. Não. Ele quer se consertar, para poder ficar em concerto. O que ele faz Vossência nem desconfia. Ele escolhe um caminho claro, sem as engabelações do palreado fácil e oco como junco de beira de rio. O caminho é claro, mas não é um passeio em pradaria verde, em época de primavera. É caminho difícil, pedregoso, escorregadio como chão de brejo, mas só depende de quem faz o caminho, de mais ninguém. Nessa rota, Nhô Augusto tomou apenas as trilhas necessárias: trabalhar muito, rezar, ajudar os outros e pouca ou nenhuma conversa.

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Pois é, meu patrão, o trabalho mantém o corpo e a mente ocupados, não deixando o sujeito se desviar do prumo e faz ficar distante do palavrório que nada resolve. A vida é uma capina a ser laborada em dia de sol. A reza, se Vossenhoria acredita ou não, é um apoio para fortalecer a vontade e encaminhar o vivente na direção da ajuda do outro, com ele repartindo de amor o que possuir. Nada de mágoas, remorsos e culpas do passado.

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O sol sempre brilha após a chuva e os pássaros são os mais alegres a anunciar que a vida pode e deve ser iluminada. Tudo isso Nhô Augusto entendeu, Sinhô Moço, e colocou na prática, correndo do conversê. Qual foi a sua ação maior? Vossência não sabe? Foi dar a vida por um irmão, seu semelhante, desconhecido, mas que ele precisava de mostrar na prática a justiça aprendida no esforço da mudança.

Não, Sinhô, não mudamos o mundo, mas podemos tentar modificar a gente mesmo, e já é uma grande ajuda a esse mundão de meu Deus.



Milton Marques Júnior é doutor em letras, professor, escritor e membro da APL
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