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O Banquete

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Escrito por Platão, "O Banquete" (ou "Simpósio") é belíssima peça literária que faz apologia ao Amor. O texto, diferente dos demais produzidos pelo filósofo, descreve uma reunião festiva na residência do poeta trágico Agaton, da qual fazem parte inúmeros convidados famosos, a elite da sociedade ateniense.

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Entre políticos, poetas e filósofos encontra-se Sócrates, o mais honrado e ilustre de todos. Acomodados ao redor de uma mesa de banquete, inicia-se uma discussão sobre o amor, suas origens e significados, utilizando-se o usual método helênico do diálogo, no qual um assunto é analisado por meio de pequenos discursos livremente apresentados.

Trata-se de uma obra que exerceu marcante influência na construção do pensamento da sociedade ocidental, na época em que Platão viveu e nos séculos seguintes. Nos dias atuais, os diálogos de O Banquete são utilizados por médicos e psicólogos nos processos psicanalíticos, e também pela teoria geral do conhecimento, visando compreender o amor e os sentimentos que o inspiram.

Nenhuma prosa humana poderia atrever-se a fazer justiça, com os meios da análise científica ou de uma paráfrase cuidadosamente decalcada sobre o original, à suma perfeição da arte platônica, tal qual o Banquete nos revela. Na realidade, o Banquete não é um diálogo no sentido usual, mas antes um duelo de palavras entre pessoas que ocupam todas uma posição elevada.

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As principais ideias desenvolvidas podem ser assim resumidas: Fedro - poeta, filho de escravos, e introdutor do gênero fábula na literatura romana — explica que, sendo o Amor força vital e imortal da Humanidade, é não só honroso, mas também poderoso para aquisição da felicidade e da virtude, entre os homens, tanto na vida como na morte, uma vez que o amor é um encontro verdadeiro com o Eu supremo e divino, que compõe o sentido da existência e fortalece a sensação de pertencermos a algo maior.

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O filósofo Pausânias, um dos discípulos de Sócrates, destaca que o Amor sempre apresenta duas faces, que se completam: a humana e a divina. A primeira é de natureza impulsiva e sensual, a segunda é madura, própria dos que amam com a alma e que estão dispostos a compartilhar.

Erixímaco, conhecido médico ateniense, considera que o Amor “deve produzir harmonia na alma, no corpo e na Natureza”. O poeta Aristófanes analisa que “o desejo deve estar necessariamente associado ao amor, sem o qual é impossível ocorrer a fusão de dois seres que se amam.”

Ágaton exalta de forma idealística a beleza, a natureza e os dons do Amor, divinamente personificado em Eros, deus do amor e da beleza, segundo a mitologia grega.

Sócrates — o memorável filósofo, não é quem segura a batuta de toda a discussão, como costuma acontecer nos diálogos platônicos; é um de muitos oradores e, além disso, o último. É por isso que só no final do Banquete a dialética aparece, em perfeito contraste com a variegada retórica e brilhante poesia dos demais personagens.

De forma notável, Sócrates assinala as diferenças entre o Amor e o desejo, fornece o verdadeiro significado do mito Eros e, ao final, conduz os ouvintes ao terreno da realidade psicológica: Todo o eros representa um anseio por qualquer coisa que não se tem e se deseja ter. Por conseguinte, se Eros aspira ao Belo, é porque não é ele próprio o Belo".

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Da mesma forma, Eros também não é o Amor em si, apenas representa a atração sensual. Sócrates sugere que o Amor deva ser visto como “daimon” (espírito ou gênio), no sentido de poderosa força que extrapola a união física de dois seres, representada por Eros: o Amor é a misteriosa força espiritual de coesão existente em toda a Criação que, revelada em sua ampla magnitude, sugere que a sua essência “nem é mortal nem é deus, nem matéria, nem espírito, mas algo dos dois, manifestado num poder que os harmoniza não só na constituição do universo, mas particularmente na organização e destinação de nossa vida”.

O Teorema do Amor de Sócrates pode ser sintetizado nesta sua assertiva, ao citar Diotima de Mantineia (considerada a filósofa e sacerdotisa grega que teria orientado Sócrates a respeito da genealogia do Amor): "É o Amor o amor de consigo ter sempre o bem"!

Tais conceitos socráticos, aqui rapidamente expostos, não diferem, em essência, do pensamento de Emmanuel:

O amor puro é o reflexo do Criador em todas as criaturas. Brilha em tudo e em tudo palpita na mesma vibração de sabedoria e beleza. É fundamento da vida e justiça de toda a Lei. Plasma divino com que Deus envolve tudo o que é criado, o amor é hálito dele mesmo, penetrando o Universo.

Mais adiante acrescenta:

"O amor, repetimos, é reflexo de Deus, Nosso Pai, que se compadece de todos e que a ninguém violenta, embora, em razão do mesmo amor infinito com que nos ama, determine que estejamos sempre sob a lei da responsabilidade que se manifesta para cada consciência, de acordo com as suas próprias obras. E, amando-nos, permite o Senhor perlustrarmos sem prazo o caminho de ascensão para Ele, concedendo-nos, quando impensadamente nos consagramos ao mal, a própria eternidade para reconciliar-nos com o bem, que é a sua regra imutável."

Nenhum conceito sobre o Amor se iguala, contudo, ao anunciado por Jesus:

"Amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma, e com toda a tua mente. Este é o primeiro e grande mandamento. O segundo, semelhante a este: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Nestes dois mandamentos está dependurada toda a lei e os profetas."

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Amar ao próximo, na linguagem de Jesus, significa: “Assim, tudo quanto quereis que os homens vos façam, assim também fazei vós a eles, pois esta é a Lei e os Profetas.”

A prática dessas máximas tende à destruição do egoísmo. Quando os homens as adotarem como regra de conduta e como base de suas instituições compreenderão a verdadeira fraternidade e farão que entre eles reinem a paz e a justiça. Não mais haverá ódios, nem dissensões, mas apenas união, concórdia e benevolência mútua.

Finalmente, não poderíamos ignorar o mais belo poema escrito sobre o Amor, traduzido como Caridade pela divina inspiração de Paulo, o Apóstolo dos Gentios:

“Ainda que eu falasse línguas, dos homens e as dos anjos, se eu não tivesse a caridade, seria como bronze que soa ou como o címbalo que tine.

Ainda que tivesse o dom da profecia, o conhecimento de todos os mistérios e de toda a ciência, ainda que tivesse toda a fé, a ponto de transportar montanhas, se não tivesse a caridade, nada seria.

Ainda que distribuísse todos os meus bens aos famintos, ainda que entregasse meu corpo às chamas, se não tivesse a caridade, isso nada me adiantaria.

A caridade é paciente, a caridade é prestativa, não é invejosa, não se ostenta, não se incha de orgulho.

Nada faz de inconveniente, não procura o seu próprio interesse, não se irrita, não guarda rancor.

Não se alegra com a injustiça, mas se regozija com a verdade. Tudo desculpa, tudo cré, tudo espera, tudo suporta.

A caridade jamais passará."


Marta Antunes de Moura é vice-presidente da Federação Espírita Brasileira
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