Quando eu esculpia as primeiras frases compondo matérias para jornal, Luiz Augusto Crispim já havia se revelado artesão da palavra, chamand...

O pastor das tardes e das manhãs

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Quando eu esculpia as primeiras frases compondo matérias para jornal, Luiz Augusto Crispim já havia se revelado artesão da palavra, chamando a atenção como adentrava na redação de O Norte, pela elegância corporal e inegável cultura. Lembro-me dele como o cronista da emoção e poeta da paixão que a professora Ângela Bezerra de Castro tão bem descreve.

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Depois da releitura na semana passada de o Arco e a Fonte, edição de 1976, com a mesma ânsia de quando li pela primeira vez, eu retornei ao livro “Eu e outros arrecifes”, reunião de crônicas de Crispim publicado em 2006, após sua passagem, recordando alguns de nossos encontros profissionais e literários.

Havia me lembrado de quando “Eu e outros arrecifes” foi lançado na Academia Paraibana de Letras, num momento de emoção por parte dos presentes. Tinha comigo as palavras de Carlos Romero sobre Crispim, para quem, “com acuidade, sabe flagrar o trágico e o cômico da vida” e que foi “um cronista sério, sem ser solene”. Cronista de quem Drummond havia afirmando que na sua crônica “combina a elegância da linguagem e a leveza do estilo”.


Por ocasião do lançamento da obra póstuma, o dia espalhava os derradeiros raios sobre o rio Sanhauá e pelos casarões em redor da Academia, ao tempo em que a professora Ângela falava sobre o livro e seu autor. Na ocasião, ela fez uma viagem pela trajetória de vida do amigo ausente, a emoção tomando conta do auditório enquanto falava de Crispim.

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Li o livro no mesmo dia do lançamento. Sem esquecer o que tinha ouvido a professora falar, a cada página virada eu ouvia o toque da máquina na redação, quando às vezes ele chegava à boca da noite para redigir sua crônica. Ficou comigo a emoção de Ângela ao discorrer sobre nosso amigo, padrão de educação, que faz tanta falta.

O silêncio no auditório da Academia na noite das homenagens para Crispim, em sequência a cada palavra da professora que engasgava em certos momentos durante seu discurso, denunciava a emoção de todos.

Tem razão Martinho Moreira Franco quando afirmou que Crispim era “o pastor das tardes e das manhãs
A exaltação dela ao amigo, depois daquela noite, ressoa como címbalo aos meus ouvidos, igual à linguagem de ventos quase uivantes nas noites de invernadas em Serraria ou Araruna, regiões de onde viemos.

A noite de homenagens não será o derradeiro afago para Crispim, porque nas páginas de jornal se encontram obras-primas de sua autoria esperando o momento de serem expostas para alimento de nosso espírito.

Tem razão Martinho Moreira Franco quando afirmou que Crispim era “o pastor das tardes e das manhãs”, que colocava elegância, lirismo e emoção nas crônicas que escrevia. Mesmo que a crônica seja uma arte tão difícil.


José Nunes é poeta, escritor e membro do IHGP
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