Dentre os vários frutos do espírito, que Paulo elenca em Gálatas (5, 22-23), o primeiro é o Amor Ágape. Não há, nas epístolas de Paulo pala...

Busquemos o amor

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Dentre os vários frutos do espírito, que Paulo elenca em Gálatas (5, 22-23), o primeiro é o Amor Ágape. Não há, nas epístolas de Paulo palavra que lhe seja mais cara. Ágape é o amor incondicional, o amor da escolha, cujo sentido se estende para designar a refeição dos primeiros Cristãos, juntos no compartilhamento da comida e do Amor a Deus.

É, exatamente, após uma das refeições do meio do dia, na terceira vez depois de ressuscitado, em que aparece a seus discípulos, que Jesus pergunta a Pedro se ele O ama (João, 21, 15-19). Pedro responde que sim. Jesus pergunta com o verbo agapáō, que significa amar por afeição, amar incondicionalmente, Pedro responde com o verbo filéō, o amar da amizade. São três perguntas de Jesus a Pedro. Duas vezes com o verbo agapáō.
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Diante das respostas do apóstolo encarregado de apascentar e pastorear o rebanho, as ovelhinhas do Senhor, respostas sempre com o verbo filéō, Jesus muda o verbo na terceira pergunta, usando também filéō, o que leva Pedro a afligir-se.

Pedro afligira-se por ser inquirido três vezes ou pelo fato de que diante de suas respostas evasivas, Jesus o interpelou pela terceira e última vez com o mesmo verbo que ele usara para responder às questões anteriores? Não há como dizer. O que podemos dizer é que, se Jesus pergunta uma coisa e Pedro responde outra, conforme se encontra no original grego, isto é motivo suficiente para uma reflexão de nossa parte sobre o que é amar.

Esclareça-se que em nossa língua, não há como estabelecer diferenças entre um e outro verbo, vez que ambos são traduzidos indistintamente por amar. O latim, por sua vez, faz a diferença entre amō/amāre e dilĭgō/diligĕre. Jesus pergunta com dilĭgō, verbo em cuja formação se distingue outro verbo, legō/legĕre, tendo como primeiro significado “colher” e “escolher”, posteriormente, “ler”. Pedro responde com amō.

São Jerônimo atentou para o detalhe do texto grego e buscou na língua latina o verbo correspondente a agapáō, para a sua tradução da Vulgata. Afinal, o amor da escolha não é uma colheita que se faz no coração? Em grego, eles são diferentes e a sutileza na sua distinção é que, talvez, tenha deixado Pedro aflito, ao perceber a mudança de um verbo para outro, na pergunta do Cristo.

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Há quem pregue não haver salvação possível apenas pela Fé e pelas obras ou pelo Amor Ágape; que para sermos salvos é necessário nossa Fé ser tocada pela Graça de Deus. Nessa visão salvacionista, de que Deus nos salva, talvez precisemos realmente ser tocados pela Graça divina. No entanto, se pensarmos que a salvação depende de uma evolução de nosso espírito e que aquilo que plantamos, um dia colheremos, podemos chegar à conclusão de que a Graça divina não é algo feérico, com o céu se abrindo e descendo sobre nós. A Graça divina não é externa, ela já se encontra dentro de nós. Ela é a consciência que Deus nos dá de que precisamos amar incondicionalmente, sem esperar nada em troca, pois isto nos torna felizes e nos estimula a fazer muito mais. Esta é a ideia de colher/escolher, que se encontra no verbo latino.

A Graça divina que age diretamente sobre a nossa Fé é o Amor Ágape. A aflição que toma conta de nós, talvez seja a mesma que se apoderou de Pedro, ao perceber o quanto é difícil entregar-se a esse Amor incondicional. Por esta razão, Paulo insiste e se refere tanto a ele como o cerne da vivência no Cristo, pois, se o conhecimento infla o peito de orgulho, é o Amor que constrói para a vida eterna (1 Coríntios, 8, 1). Portanto, como diz ainda Paulo, busquemos o Amor (1 Coríntios, 14, 1).


Milton Marques Júnior é doutor em letras, professor, escritor e membro da APL
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