Quem fala? – insisti. Só disse que era de Matinhas, ouvi bem. Tento lembrar alguma amizade. Na minha memória, Matinhas do coronel Eufrásio ...

De Matinhas

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Quem fala? – insisti. Só disse que era de Matinhas, ouvi bem. Tento lembrar alguma amizade. Na minha memória, Matinhas do coronel Eufrásio das histórias de doutor Ramos, pai de Teócrito e Wills Leal. Matinhas de Artur Moura, desembargador saudoso que elevou sua terra, antigo distrito de Alagoa Nova, a culminâncias de civilidade e educação que, nos tempos atuais, um Almeida Prado de São Paulo ou de Santos está longe de alcançar, como se viu na cena de indigência moral de um desembargador no trato com a autoridade do guarda municipal. O guarda saindo com muito mais autoridade.

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Matinhas, um burgo escondido à mão direita de quem vai de Campina a Alagoa Nova. Muito bem escondida por sobras ainda fechadas da mata verde-escuro a protegerem os sítios de laranja tangerina, hoje o grande meio de vida da terra.

Como cidade e município, Matinhas é uma invenção de registro recente. O que ela realmente é, ao contrário do que significa o topônimo primitivo (Caa-mirim, cau-mirim, mato pequeno no Dicionário de Coriolano) é um arvoredo denso e grande entre montes sucessivos da Borborema brejeira. O acesso, pavimentado desde o governo passado, era um túnel fechado de mulungus e imburanas no tempo em que fui destacado para participar do seu recenseamento em 1950. Fazia extrema com o Geraldo, latifúndio dos Tavares Cavalcanti, um terço de cana e os outros dois de capoeira e mata.

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Na cabeça da rua, a capela de São Sebastião. Pequenina mas de um povo que se destacava na escolha de deputados como Ascendino Moura, na medicina solidária do irmão Virginio, consagrado na galeria dos benfeitores de Campina Grande. Artur, o irmão mais novo, viria ser presidente modelar do Tribunal de Justiça da Paraíba.

Na cabeça do recenseador, um jovem de 17 anos, custava acreditar que em palco tão pequeno, escondido da estrada, num sol de tanta amenidade, coubesse a tragédia do coronel Eufrásio Câmara, chefe político atacado a faca em plena feira, o criminoso irrompendo de entre os fereiros. D. Antonina, minha mãe, por pouco não testemunhara, hóspede de uma parenta. Aos 90 anos, quando morreu, ainda falava desse tumulto que tanto a impressionou, mocinha.

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Na campanha de José Américo, em 1950, subi no palanque de Matinhas, uma carroceria de caminhão, para representar, à boca da noite, a mocidade alagoa-novense. Matinhas quase inteira de Argemiro, não passei das primeiras palavras, abafado pela vaia e um grito agudo que levou meu público (ou o que estava ali para isso) a cair na risada: “Quem gosta de nego é onça!”. Não me lembro se desci ou me desceram, nessa experiência inaugural como orador.

Passamos por lá o ano passado, com os irmãos Teócrito e Wills Leal, na onda dos “caminhos do frio”. De quem, esse telefonema?


Gonzaga Rodrigues é escritor e membro da APL
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