Após três dias na Itália, eis que chegou a hora de conhecer a Cidade Eterna. Desejo antigo, acumulado ao longo da minha juventude, nos livro...

Noites de Roma

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Após três dias na Itália, eis que chegou a hora de conhecer a Cidade Eterna. Desejo antigo, acumulado ao longo da minha juventude, nos livros escolares, na enciclopédia de meu pai e nos inúmeros filmes italianos a que já havia assistido.
Partimos cedo de Cesenático e passamos o dia viajando: Vani dirigindo um carro e Karlisson o outro. Uma breve parada em Florença por puro masoquismo, pois é maldade permanecer só algumas horas na bela cidade.

Já era noite avançada quando entramos em Roma. Chamou logo a atenção o entrançado de lambretas bagunçando o trânsito.



A primeira noite em Roma foi inesquecível. Vivemos momentos de muita apreensão, que terminaram de forma inusitada. E engraçada.

Guiados por Vani, nos dirigimos à Via Cavour, onde ficava o hotel que reservamos previamente. Chamar aquilo de hotel é força de expressão. A Via Cavour é muito antiga e tem uma longa seqüência de palazzi, que são palacetes antigos, tendo em média quatro andares, com uma hospedagem autônoma em cada andar.

O “nosso hotel” nos deixou arrepiados, tão desagradável era o seu aspecto, cheio de bichos e baratas. As meninas se recusaram a dormir num pardieiro daqueles e nós endossamos. Assim, fomos procurar vagas num local mais saudável.

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Encontramos algo de melhor aspecto no terceiro andar de um palazzo, que nos guardava algumas surpresas.

Quando entramos, havia uma moça sentada no birô da recepção. A cabeça curvada para frente, camisa Lacoste azul claro, exibindo uma bonita e farta cabeleira, negra como as asas da graúna, que lhe cobria quase totalmente o rosto.

Escrevendo estava e não se deu ao trabalho de erguer a cabeça para nos responder que “sim, havia vagas para três casais.”

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Via Cavour
Achando um pouco desatenciosa aquela atitude, perguntei-lhe: “Senhora, qual o seu nome?"

Então ergueu o rosto, afastou os cabelos, e respondeu candidamente: "Meu nome é Massimo”. Quase caímos para trás, surpresos! Porém, não ficou por aí. A noite ainda prometia.

Pedimos para ver as condições dos quartos. Gentil, muito educado, Massimo nos guiou pelas acomodações disponíveis. O primeiro apartamento era muito bom. Socorro e Karlisson rapidamente se instalaram nele. Continuamos a visita.

No segundo quarto, Massimo abriu a porta e ficamos escandalizados: na cama havia um casal, que não estava muito quieto. O recepcionista não perdeu a fleuma. Fechou a porta delicadamente e disse, com toda a tranquilidade: "Acontece!"

Ao longo dos três dias de estada no hotel, Massimo revelou-se muito agradável, paciente (mesmo sendo italiano), prestando as informações de que precisávamos. E era especialista em risotos!



Na manhã seguinte, fomos até a padaria na esquina tomar o café da manhã com deliciosos panini, os sanduíches italianos, acompanhados de croissant e chocolate quente, sem esquecer o inevitável espresso, símbolo maior dos lanches rápidos na Itália.

No trajeto, quase caí de costa com a visão magnífica: em nossa frente, imenso, altivo, erguia-se nada mais nada menos do que... o COLISEU!

Coliseu
À nossa direita havia uma longa seqüência de respeitáveis ruínas, pois estávamos hospedados praticamente no coração da antiga Roma!

Passeamos nas trilhas do Fórum Romano, onde vimos a Coluna de Trajano, dos nossos livros de história. Em seguida, fomos ver de perto o Coliseu.

Uma das sensações mais estranhas que já tive foi quando chegamos ao alto da escadaria e descortinamos a imensa arena. Nem na Basílica de São Pedro eu sentiria o que senti. Ilma também teve a mesma sensação.

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Coliseu (parte interna)
As dimensões e as estruturas do monumento são impressionantes. Nele, há um número incontável de arquibancadas, entrecortadas por acessos. A arena é conservada de modo a mostrar-se como era no passado. Tudo muito bem protegido e repleto de turistas.

De lá fomos conhecer o Vaticano, que fica do outro lado do rio Tibre. Ao entrar na Basílica de São Pedro veio a primeira emoção: logo à direita, a visão da Pietá, estátua cuja réplica me foi presenteada pelo Padre Juarez Benício Xavier, nosso grande amigo, já falecido, e que deve estar lá no céu, sentado à esquerda de Deus Pai.

Os trabalhos feitos em granito vermelho e preto, nas esculturas e nas colunas retorcidas, causam grande impressão. Não perdi a oportunidade de descer até as catacumbas, onde repousam os restos de quase todos os Papas.

Apaixonado por pintura, cultivava eu o sonho de conhecer os afrescos de Miguelângelo. O desejo me perseguia desde a adolescência. Assim, veio a vontade de visitar a Capela Sistina. A visita não me deixou boas lembranças e vocês, leitores, hão de entender o motivo.

Para chegar ao Palácio do Vaticano, tivemos que fazer uma longa caminhada em torno da Praça de São Pedro, que tem tem a formação de um círculo.

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Praça São Pedro / Vaticano
Subimos por uma rampa em espiral, tão exaustiva que dava a impressão de levar direto ao Paraíso, com todos os pecados perdoados, tal o estado físico em que eu me encontrava.

No último andar do palácio fica o museu do Vaticano. Para chegar à Capela Sistina tivemos que percorrer todo o museu. Presenciamos o estado lamentável de conservação de suas vitrines: poeira, teias de aranha, ausência de informantes e de informações.

O interior da capela estava lotado. Centenas de pessoas assestando suas câmeras para todos os lados. Todo mundo em pé e circulando.

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Teto da Capela Sistina
Exausto, eu só queria saber de me sentar para poder olhar o teto e ver o dedo de Deus encontrando o de Adão, numa cena que lembra o filme ET, de Spielberg. Eu não queria outra coisa senão descansar. Assim, sentei-me numa elevação que existe ao longo da parede direita.

Para que fui fazer aquilo?! Ouvi um grito mal-humorado e uma segurança aproximou-se de mim, portando um cassetete com o qual me ameaçava. “Circulando! Circulando!”, parecia gritar. Pensei em resistir. Porém Ilma, em sua sabedoria, me puxou para o outro lado da capela e logo saímos, seguindo o fluxo de turistas.

Essa foi a minha inesquecível e lamentável visita à Capela Sistina. Espero um dia voltar e subir de elevador.



Na segunda noite em Roma, um sábado, saímos ao léu, procurando nos perder pelas ruas da cidade. Sei que muitos pensam como eu que essa é a melhor forma de se conhecer um lugar interessante.

Embora fosse início de outono, a noite estava apenas fresca, deliciosa e convidativa para caminhar. Muita animação, pessoas pelas ruas e calçadas.

Andando ao longo da Via dei Fori Imperiale, em direção à Praça Veneza, avistamos uma revoada de corujas brancas, saindo lá do alto do Monumento aos Heróis da Pátria, o Vittorio Emanuele, também conhecido por Bolo de Noiva. Que espetáculo magnífico!

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Monumento Heróis da Pátria (Vittorio Emanuele)
Caminhando mais, nos esgueiramos por ruelas ao longo dos quarteirões do centro histórico, quando ouvimos música no ar. Seguindo a canção (acho vagamente que eram notas finais da ópera Carmen, de Bizet), chegamos a uma praça onde uma orquestra sinfônica tocava ao ar livre. Muitas pessoas assistindo, algumas sentadas, outras não.

Lá, ouvimos o “O Barbeiro de Servilha”, de Rossini, “La Donna è Mobile” de Verdi e “Torna a Surriento” de Claudio Sevilla. Continuamos pela cidade, noite adentro e logo fomos novamente atraídos
por outra música tocada em instrumento de cordas, o qual não conseguimos identificar logo.

Chegamos, então, a outra praça, cercada de restaurantes, todos com mesas e cadeiras estendidas ao ar livre.

Sentamos em uma das mesas, diante do qual um músico de rua tocava, em pé, uma espécie de cítara. A música executada foi o que mais nos atraiu: Zorba! Ali ficamos por mais algum tempo, apreciando a música e o delicioso raviolli, regado a vinho caseiro. No dia seguinte tomamos o trem para o aeroporto Leonardo Da Vinci, na cidade costeira de Fiumicino. Iniciávamos o nosso retorno à pátria.

Embora muito saudosos do Brasil, especialmente dos filhos, nossos últimos instantes serviram para que já começássemos a encher a nossa “bolsa” de nostalgias: na sala de embarque um grupo começou a cantar baixinho "Arrivederci, Roma", com a suavidade de um Mantovani.

Ah, Itália... Arrivederci!

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  1. Vecchia Roma! O amigo foi felliniano no seu excelente relato! Parabéns!

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  2. Quantos palavras, bonitas e estimulantes... Agradeço a todos, servirão para que eu me esforce muito mais.

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  3. Não é por acaso que Roma é AMOR ao contrário. Relembrei-me da cidade eterna na descrição bem humorada de Zé Mário que nos inclui no Grupo de viagem tal a perfeição de seus relatos. Parabéns!

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    1. Bondade sua, Vicente...
      E de todos os outros que aqui deixam as suas palavras

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