Agora, quando a Professora Ângela Bezerra de Castro assume a presidência da Academia Paraibana de Letras, recordo o poema de Carlos Drummo...

O modo como Ângela lê

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Agora, quando a Professora Ângela Bezerra de Castro assume a presidência da Academia Paraibana de Letras, recordo o poema de Carlos Drummond de Andrade que fala de “um certo modo de ver”, para definir o perfil dela como leitora, escritora, poetisa e estudiosa da literatura brasileira.

Portadora de vasta cultura, Ângela sabe ler e escrever com perfeição, por isso reveste-se dos atributos indispensáveis para assumir relevante cargo, trazendo consigo a experiência das salas de aula da Universidade e da gestão de órgãos públicos na área da educação e da cultura.

Criteriosa na utilização das palavras escritas e vigorosa no estudo crítico-literário, talvez por isso tenha publicado poucas obras, mas o suficiente para colocá-la em outro nível de estudiosa da arte de escrever. Ao se referir à prática de analisar um trabalho literário, ela concorda sobre que “criticar é infundir vida. É criar”, como definiu Eduardo Portela.


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Eduardo Portela


Para exercer a análise literária num nível elevado, como ela pratica, é preciso extensa cultura. Seus estudos e ensaios são elaborados sob profundo exame do conteúdo da obra, com isso induzindo o leitor a partilhar das ideias do autor, para tornar ainda mais prazerosa a leitura. Sua crítica não é fútil, nem constituída de meras resenhas sobre livros, muito em voga nos tempos atuais, por isso cada trabalho publicado, sejam estudos curtos ou como na abordagem sobre “A Bagaceira”, de José Américo de Almeida, se destacam. Seja estudando o conteúdo de um romance, poema ou crônica, ela apresenta riqueza de detalhes que ajuda na compreensão da obra e de sua linguagem.

Levou escritores paraibanos para as salas de aulas, retirando-os das páginas de jornal para pousar na mesa de leitores jovens
As referências que abalizam a prática da sua crítica literária, pela lucidez e profundeza dos ensinamentos, são Eduardo Portella e Juarez da Gama Batista, ambos, cada um na sua dimensão intelectual, conquistaram o respeito no mundo das letras em nosso País. Acompanhando o modo dos dois conduzirem seus estudos literários, Ângela consolidou a arte de bem escrever, que executa com erudição, sempre apoiada num extenso conhecimento da história da literatura e da criação literária. Como comentava Nathanael Alves, “escreve simples quem sabe o que dizer”.

Tempos depois dos primeiros contatos com as palavras na escola, na fazenda do avô, misturada aos meninos de pés no chão sentados ao redor da longa mesa, Ângela teve sua vida reinventada pelas palavras para viver os encantos de cada frase com novos entusiasmos e emoções.

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Ângela Bezerra de Castro
Conhecedora da força das palavras, costuma dizer que escreve devagar, talvez para retirar as frases ocas e os pensamentos desconexos do texto. Cautelosa ao expor seu pensamento, reescreve seus textos até chegar ao elevado nível de conteúdo e forma de expressão. O que escreve ajuda a entender as emoções e fantasias que jorram das páginas encobertas por nossa visão curta.

Dona de uma maneira diferente de selecionar livros para suas leituras, ainda jovem como professora da rede estadual de ensino, levou escritores paraibanos para as salas de aulas, retirando-os das páginas de jornal para pousar na mesa de leitores jovens. Faz muita falta gesto como esse que nasce do amor aos livros, num momento de tantas imposições que afastam os leitores e os jovens do manuseio do livro e da aproximação com os autores.

Quando chegou para integrar a Academia, em 1999, fez um discurso expressivo sobre o reino das palavras, revelando a necessidade de que a memória cultural, a pesquisa e o ensino deveriam integrar-se, “como partes que são de um mesmo universo e de um mesmo processo”. Lembrou que a APL deveria estar influenciando o tempo e a vida da presente geração e ajudando a preparar jovens escritores, com as influências de seu corpo de acadêmicos nos diversos saberes.

Na presidência da APL, confiamos que buscará ainda mais os caminhos que levam ao diálogo franco e aberto, entre autores e leitores.


José Nunes é poeta, escritor e membro do IHGP
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