Cabisbaixa, a moça se afasta do caixa da farmácia sem se sentir autorizada a apanhar e poder sair com a pequena sacola de compras. Recolhe l...

O mais curto dos romances

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Cabisbaixa, a moça se afasta do caixa da farmácia sem se sentir autorizada a apanhar e poder sair com a pequena sacola de compras. Recolhe lentamente o cartão da máquina, olha receosa as pessoas da fila — eu e uma outra — e sai meio sem jeito, sem fazer ideia do constrangimento mudo e surdo em que nos deixava.

Entreolhamo-nos, sentindo o que se passava, eu e a vizinha atrás de mim.

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Eduardo Soares
E me vi sentindo raiva da outra moça, a do caixa, apenas (quero crer) pelo que ela simbolizou naquele instante cinzento de cinema mudo.

Nisso, a lembrança (essa intrusa instantânea) traz de volta coisa mais ou menos semelhante, num tempo em que esse gênero de veto, de desabono, irrompia grosseiro do caixa em voz alta, sem o silêncio conveniente do sistema que rejeitou o cartãozinho eletrônico da cliente destes dias.

A prima, em minha companhia, pela segunda ou terceira vez fora tentar o resgate do trancelim com medalha de ouro que a mãe dela desenfurnara do escaninho mais escuro para remir a sobrinha, verdadeira filha, posta em apuros por uma arte do filho adolescente em seu primeiro emprego. O caixa, um velhote, não estava nos seus melhores dias. E tratou a prima com zanga suficiente para maltratar a fila inteira, que não era pequena. Foi no tempo em que o DSEC, antiga repartição da luz, apitava para toda a minha rua quando baixava de alicate no fio de minha casa, na Torre. Faltava-me moral, então, para mandá-lo ao que me chegou à boca. E saímos sob o peso denso, acabrunhante, dos olhares, alguns baixos como o nosso, de todo uma fila.

A moça de agora teve mais sorte. Tudo se passou numa transação mal sucedida, mas sem rumores, abafada pelo silêncio da eletrônica e o olhar sem censura de apenas dois circunstantes.

É um nada, uma rotina das mais comuns, mas nunca do lado de dentro da moça, da minha prima, que já não deve se recordar mais disso.

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Eduardo Soares
Numa crônica de Álvaro Moreira, de “O dia nos olhos” (1955), há um concurso na América do Norte para premiar o romance mais curto do mundo. Fora premiado este anúncio que saíra num jornal de Nova Iorque:


“Vende-se um berço quase novo, com umas roupinhas de crianças”.

E o cronista pródigo de humor poético e de escrita simples, em linguagem cristã de jesuíta bem humorado, entra com a sua achega no concurso: “Li depois uma lista de penhores não retirados, que iam ser postos em leilão pela Caixa Econômica. Que romances curtos! Que longos romances! – 1 colcha, 4 fronhas e 2 panos bordados. 1 casaco e 2 saias azul e cinza em bom estado. 1 fita de seda com uma medalha de prata. 1 violino com arco e estojo. 1 xale de seda branca. Anéis, colares, canetas-tinteiro ... tudo no estado.”

"Pobre estado! Nunca li nada tão doloroso". – finaliza esse grande leitor e intérprete da beleza humana e de seus dramas angelicamente percebidos, fosse através do teatro, da crônica, da poesia, mas num estilo só dele e de mais ninguém até hoje neste país de tantos poetas e escritores.


Gonzaga Rodrigues é escritor e membro da APL

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  1. Gonzaga, eternamente Gonzaga...
    Qual é a tua uva, que não pára de amadurecer?!?

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