Se tivesse nascido na Grécia, poderia ter sido o precursor do teatro grego. Certamente, o protagonista das homenagens ao deus Dionísio , n...

Ednaldo do Brasil

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Se tivesse nascido na Grécia, poderia ter sido o precursor do teatro grego. Certamente, o protagonista das homenagens ao deus Dionísio, nas mirabolantes tragédias e comédias que marcaram os lucilantes canhões a gás dos palcos da grande época. Em Roma, teriam visto ao lado de Plauto e Terêncio e, noutras plagas, fazendo odes ao Shakespeare ou Molière, tudo dentro das magias teatrais, dos malabarismos que sempre marcaram o papel no design de sua apaixonante arte cênica.

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Joshua-hanson
No entanto, Ednaldo foi do Brasil. E o que mais massageia a nossa memória é saber que plantou suas paixões nas sementeiras da Paraíba. Foi pelos caminhos daqui que semeou e regou sua árvore cênica, contracenando com difíceis obstáculos que não o fizeram desistir. Por isso, agora, já posso parodiar Drummond: Havia um teatro no meio do caminho de Ednaldo, no meio do caminho de Ednaldo, havia um teatro.

Aos treze anos de idade, Ednaldo do Egypto já era um personagem da história da Paraíba. O primeiro encontro com a arte de representar fez a ligação inicial com as forças de suas habilidades artísticas. Há nove anos, sua cortina se fechou, o pano caiu e transformou-o num saudoso personagem das odisseias deste planeta. Já se somavam mais de sessenta peças apresentadas e aplaudidas pelas mãos de quem lhe havia consagrado um patrimônio, definitivamente, no cenário cultural da Paraíba. Enfim, um bravo samurai que se predestinou a cuidar da arte teatral paraibana e lutar por ela.

Para mim, foi uma honra ter sido seu amigo. Não somente isto, ter acompanhado de perto seu trajeto sobre o qual nunca andava sem grandes ímpetos. O teatro foi o seu vício, a sua cachaça, o seu ópio. Narcotizado com tudo que se referia a essa arte, ganhava o mundo como se estivesse recebendo o maior presente da vida, por existir. Gostava também de preservar sua história, o cultivo do “theatro”, assim como faz o bom jardineiro que planta, e, sobretudo, ama tudo aquilo que planta.

Quando não falava em teatro, retirava sempre de sua mochila de memórias umas tiradas de humor, com o gosto e a agilidade de sua interpretação e sob os lustres dos refletores de sua instigante luz própria. Fazia rir, e como diria Milan Kundera, “rir profundamente”, escancaradamente, mesmo que algo gerasse por dentro uma certa saudade travosa, a ausência de algum amigo que já havia se retirado de cena definitivamente.

Prottoy Hassan
Ator, diretor, autor... Fez cinema e trabalhou em um programa de humor na televisão. Assim era seu tempo de exímio dramaturgo, animador cultural, amante da arte cênica na Paraíba.

No teatro, destacaram-se: “Vovô viu a uva” e “No tempo da Chrestomathia”, esta última com texto e montagem dele, enfocando o épico, transbordado de memorialismo. Com base nos tantos ocorridos da Segunda Guerra Mundial, a peça insurgiu como um ato de teimosia pela qualidade viva da pesquisa, mostrando fatos trazidos da década de 1940 e colocados diante dos olhos atentos de um público extasiado. Conseguiu levantar a saga de um mundo trágico: o fuzil encostado do lado do coração e, no outro lado, a boemia noturna se derramando pela cidade, num ressoar de vívidas lembranças, gozos e ironias dentro das amarguras vermelhas despejadas dentro do conflito bélico.

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Masca T.
Em “No tempo da Chrestomathia”, a impecabilidade do elenco contou com ele, o porta-voz do antagonismo tragicômico de seu personagem saudosista, o Pierrot. Completaram a trupe os notáveis e experientes veteranos Pereira Nascimento, (in memoriam) Criselide Barros, Celsa Monteiro e os atores Fátima Veloso, Hércules Félix e Fernanda Régis. A direção foi do excelente Eliézer Filho, direção musical de Carlos Anísio e coreografia da argentina Rosa Cagliani, que nos deixou há alguns anos.

O teatro Ednaldo do Egypto, construído por sua indômita vontade, ficou encenando seu próprio universo de atos e fatos: o teatro que conduzia do lado esquerdo do peito; o teatro que adormecia e acordava nos camarins indisfarçáveis de seu pensamento; o teatro que abria as cortinas e armazenava peça por peça dos seus atos de amor à arte. Ficou como sua marca, seu carimbo, seu estigma.

Ainda bem que os redemoinhos exterminadores do tempo não conseguiram empurrar e fechar as suas portas, e o Teatro Ednaldo do Egypto permanece de pé, na marcação da Avenida Maria Rosa, em Manaíra. É lá onde se resume toda a glória de Ednaldo. E, como se fosse de Roma, expondo o espetáculo da pantomima, representando todos os papéis no coliseu de seu grande e mais significativo sonho.


Saulo Mendonça é escritor, poeta e haikaista
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  1. Show de crônica! Digna de um "mago" das artes cênicas! Parabéns!

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  2. Show de redação, com riqueza de lembranças!

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