Qualquer leitor brasileiro já ouviu falar de Graciliano Ramos . Capítulo de todos os manuais de literatura, tópico em inúmeros vestibular...

Graciliano Ramos e 'Insônia'

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Qualquer leitor brasileiro já ouviu falar de Graciliano Ramos. Capítulo de todos os manuais de literatura, tópico em inúmeros vestibulares, unanimidade para a crítica especializada e editado em larga escala (a julgar pelo número de edições de seus livros), parece desnecessário falar da importância de sua obra. Há, no entanto, um livro de Graciliano que é completamente esquecido (embora com muitas edições) por parte da crítica especializada: "Insônia". "Insônia" é um livro tão ignorado pela crítica que, até a sua 29ª edição, não tinha nenhum prefácio ou posfácio. Ironicamente, um prefácio que circulou em algumas poucas edições anteriores falava genericamente sobre a obra de Graciliano; não sobre "Insônia".

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"Insônia" foi composto, em parte, com contos escritos no período em que Graciliano estava na cadeia da ditadura Vargas, e como o velho Graça publicou alguns desses contos em periódicos, para conseguir alguns trocados, talvez isto tenha influenciado a crítica da época, que leu os contos apressadamente e os colocou no limbo das obras de ocasião. Álvaro Lins, um dos críticos hegemônicos da época, depois de desqualificar o livro, chega a dizer que nenhum texto do livro chegava a ser um conto (grosseiramente, ele chama os contos de capítulos) e que quatro textos do livro jamais deveriam ter sido escritos. Crítico de muito prestígio, talvez seu julgamento tenha influenciado parte da crítica contemporânea dele.

O que alguns críticos ignoram é que Graciliano tinha consciência do valor de seus contos: antes de "Insônia", ele publicou "Dois dedos" (1945, seu primeiro livro de contos). Em 1946, publica "Histórias incompletas" (em que reúne três capítulos de "Vidas secas", quatro de "Infância" e três contos de "Dois dedos"). Em 1947, publica "Insônia", em que reúne os contos de "Dois dedos" e outros contos inéditos. "Insônia" teve uma segunda edição (revista pelo próprio Graciliano) em 1952, o que certamente indica que ele acreditava no seu livro. Embora famoso como romancista, ele não só escreveu contos, como foi jurado em concurso de contos e editou uma antologia em três volumes de contos brasileiros.

Para se ter uma idéia da ignorância da crítica em relação ao contista Graciliano, basta dizer que o próprio Antonio Candido (um cidadão indiscutivelmente exemplar e um dos melhores críticos literários de todos os tempos, respeitado em todos os cursos de Letras do país), ao referir-se a Graciliano como contista, afirma ser "Histórias incompletas" seu primeiro livro de contos! Ora: além de desconhecer "Dois dedos", "Histórias incompletas", como se esclareceu acima, não é um livro de contos. Não bastasse, diz que o livro é medíocre, sem sequer destacar algum “capítulo” (já que o livro tem bem mais capítulos de outros livros do que contos), e esses capítulos são elogiados por ele nos livros de origem. Um equívoco, realmente.
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O pior é que, pela grandeza de seu prestígio (merecido), possivelmente sua opinião deve ter influenciado parte da crítica contemporânea e posterior na desvalorização do livro.

Até João Luiz Lafetá, um sério, inteligente, competente e sensível estudioso da obra de Graciliano, no artigo “O porão de Manaus”, ao fazer uma excelente síntese da obra de Graciliano, acentua a presença do modo irônico (a partir do conceito de Northrop Frye) como elemento que, num crescendo, atravessa toda obra de Graciliano. Lafetá, para exemplificar este modo irônico (em que “o herói encontra-se numa posição de absoluta inferioridade”), vale-se de quase toda obra de Graciliano, mas não faz uma referência sequer a "Insônia", em que esse procedimento é recorrente.

José Paulo Paes, em 1988, no ensaio “O pobre diabo no romance brasileiro”, elege quatro romances para discutir a questão do pobre diabo; um deles é "Angústia", de Graciliano. Apesar de o ensaio restringir-se ao estudo de romances, se lembrarmos que todos os personagens de "Insônia" podem, de algum modo, enquadrar-se neste tipo, só o desconhecimento deste livro de contos justifica que não se lhe faça uma alusão sequer.

A ignorância em relação ao contista Graciliano prossegue de tal modo que na antologia organizada por Italo Moriconi, "Os cem melhores contos brasileiros" (Editora Objetiva, 2000), o famigerado Moriconi, certamente não conhecendo "Insônia", inclui Graciliano na antologia como contista, mas publicando dois capítulos, um de romance, outro de caráter autobiográfico, em vez de publicar dois contos constantes de "Insônia", o último livro de contos de Graciliano, o único livro de Graciliano que possui edição crítica e que tem não menos de 29 edições.

Na contramão dessa crítica apressada, o leitor moroso e cuidadoso irá perceber nas histórias de "Insônia" a mesma mundividência presente nos romances de Graciliano, o mesmo senso irônico, os mesmos traços estilísticos e a mesma técnica refinada dos seus melhores romances. Há um recurso técnico que atravessa quase todo o livro: a construção em abismo. Não bastasse, há uma unidade de concepção, pois há sempre um personagem (em geral, o protagonista) que se enquadra no tipo “pobre-diabo”; ou, para ficar com Lafetá, “que se encontra numa posição de absoluta inferioridade”. Basta ver, neste livro, uma trilogia sobre as relações do homem comum com os Poderes, em que a figura de um “pobre-diabo” vê-se nas malhas do legislativo, do executivo e do judiciário, para se perceber, no Graciliano contista, um nítido projeto conceptivo – não um mero produto do acaso ou da circunstância.

Somente em 1969, "Insônia" começa a sair do limbo da crítica: neste ano, Massaud Moisés, em seu livro "A análise literária", elegeu “Um ladrão” para modelo de análise de conto. A análise primorosa de Wendel Santos (de 1975) revela a qualidade exemplar de concepção de “O relógio do hospital”. Em 1979, Antônio M. dos Santos Silva analisa o processo de antecipação em “A prisão de J. Carmo Gomes”. Em 1993, Ana Luiza Montalvão apresentou a dissertação “O contista Graciliano Ramos: a introspecção como forma de perceber e dialogar com a realidade” na UNB. Em 2005, foi apresentada a tese “Graciliano: Ramos Excluídos”, na UFPB, sobre "Insônia", em que são analisados todos os contos do livro.

Em "Insônia", há alguns contos que deveriam constar de qualquer antologia universal de conto: “Minsk”, “O relógio do hospital”, “Dois dedos”, “A prisão de J. Carmo Gomes” e “Um ladrão”. Até o famoso Álvaro Lins, que detonou o livro de contos de Graciliano, reconheceu, contraditoriamente, no mesmo texto, que “Minsk” estava entre os "capítulos" que eram pequenas obras-primas de Graciliano... Mas o livro continua sendo desprezado ou desconhecido por parte da crítica e do público-leitor de Graciliano.

Antonio Morais Carvalho é professor e poeta
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  1. Uma faceta do velho Graça que não é muito destacada. Muito bom.

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    1. Obrigado, amigo. Esse livro é mesmo esquecido.

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  2. Parabéns👏🏻👏🏻👏🏻 Antonio Morais Carvalho, com agradecimentos à panorâmica aula sobre os contos de Graciliano Ramos.
    Paulo Roberto Rocha

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  3. Eu que agradeço pela leitura, Paulo.

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