Cedo ainda da tarde, de volta pra casa, dou com as vistas num pichamento grosseiro, do pior mau gosto, na parede que ostentava a logomarca ...

O tiro no pé

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Cedo ainda da tarde, de volta pra casa, dou com as vistas num pichamento grosseiro, do pior mau gosto, na parede que ostentava a logomarca do jornal O NORTE. Paro sem querer, o olhar no estrago a puxar pelo olhar mais generoso.

Sem dono, cercado de basculho, o mato cobrindo uma colmeia de muitos significados, e eu me vendo de repente no ânimo de cinquenta anos atrás, indo e vindo a medir o terreno de fruteiras que teríamos de derrubar, como se fosse para mim, destinado à sede moderna do futuro jornal em off set.

Tanto tempo, tantas águas, que Já não fazia as contas disso. E agora a reprise batendo forte, muito mais rica de significados que a daquele instante em ação.

Havia uns três ou quatro anos, precisamente em 1970, o jornal saíra da lanterninha dos 600 exemplares para se equipar “ao nível da demanda” alcançada vertiginosamente, posto assim no relatório do executor e entusiasta do projeto, o jornalista Ari Cunha, vindo do Correio Brasiliense, de que era editor, para essa estada que se tornara costumeira.

Era o salto de qualidade dado pelo jornal, confiado no Natal de 1965, a Aluisio Moura, vindo do Diário de Pernambuco para formar uma equipe que não havia de oferecer outro resultado: Evandro Nóbrega, Hélio Zenaide, Wills e Teócrito Leal, Juarez Felix, Nathanael Alves, Luiz Augusto Crispim, Martinho Moreira Franco, Erialdo Pereira, Cecilio Batista, Barroso Filho, Jarbas Barbosa, Cabral, o escriba que assina, gente de uma redação que não via hora nem sacrifício, todos no jogo e na torcida. Veio Orlando Mota, embaixador de O Jornal, para nos enquadrar no sistema dos diários da cadeia e voltou enquadrado e feliz. Veio Calmon, braço forte de Chatô, que se hospedava na casa do primo João Medeiros e, dessa vez, se orienta na manchete do seu jornal: “Pode vir que tem hotel” – inaugurava-se o Hotel Tambaú.

A piche grosseira, o lixo, o mato brabo, uns restos de lataria e caixa velha cobrindo toda uma obra de inteligência e paixão “a serviço da Paraíba”. Era a divisa idealista dos fundadores de 1908, frustrados com o fechamento de 1930, reaberto em 1950 para a campanha de José Américo, ali atingida em seu ponto mais extensivo e alto.

Baixo a cabeça, desço o olhar até os pés, desabados dos pedais, e me pergunto se valeu a pena. “Claro que valeu, seu Gonzaga!” – é o que me faz ouvir a lembrança reflexa de Evandro Dantas da Nobrega, o mais fiel de todos nós, nascido em O Norte e nele contido em todos os pequenos e grandes momentos.

“Valeu, seu Gonzaga, a Paraíba sabe que valeu”. É ainda essa voz mais autorizada.

O que fez O NORTE, emulando com os demais, está na nota da Veja desta semana: “João Pessoa lidera (com 64%) o índice de leitores do Brasil”. É obra de tempo, obra de conjunto ou de emulação entre os Biu Ramos que faziam o Correio e os Evandro que simbolizam O NORTE, todos se somando à centenária A UNIÃO.

O que está no lixo, hoje, é obra do condomínio, único tiro no pé na biografia de Chateaubriand.


Gonzaga Rodrigues é escritor e membro da APL

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  1. Parabéns👏🏻👏🏻👏🏻 Gonzaga Rodrigues❗Excelente texto.
    Paulo Roberto Rocha

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  2. Gonzaga é um profissional de peso do nosso tão fragilizado jornalismo paraibano.

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  3. E isto mesmo, caríssimo Gonzaga (pena não mais poder tratá-lo pelo apelido que bem demonstrava o carinho que nós, pouco mais novos nas lides do jornal, o tratávamos).
    Foram tempos áureos, dos quais O Norte assumiu a liderança, com o seu ingresso na modernidade do jornalismo de então, bem demonstrado em pedra e cal que hoje vemos como ruínas dolorosas.
    Não há dúvidas, Gonzaga, que o seu pranto de saudade é de todos nós.

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