Nasci em João Pessoa, no dia 25 de abril de 1947. Tenho 73 anos. Melhor: já os tive. Estou às vésperas dos 74. Portanto, são...

A poesia é o meu estandarte

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Nasci em João Pessoa, no dia 25 de abril de 1947. Tenho 73 anos. Melhor: já os tive. Estou às vésperas dos 74. Portanto, são 73 verões,/ são 73 invernos./ outonos nem se fala,/ muito menos primaveras./ até que um dia descarrilharei/ numa dessas estações/ e nunca mais verei/ um verão como este.

Sou filho único do funcionário público federal, Petrônio Franca de Castro Pinto, já falecido, e de Mercedes Aquino de Castro Pinto, do lar, de prendas domésticas – como se dizia antigamente –, ainda lúcida nos seus 95 anos de vida plena, regada, vez por outra, por um bom vinho.

Fiz o primário no Instituto São Judas Tadeu, das professoras Dona Edazima e Dona Maria José, ambas tão boas e cordatas que, quando ralhavam conosco, percebíamos, mesmo crianças, que tudo não passava de uma grande encenação. O meu aprendizado, portanto, se deu sob a terna proteção dessas duas irmãs, católicas praticantes, mas sem carolices.

Prestei o exame de admissão no Colégio Pio X, em que alguns irmãos maristas pregavam o temor ao inferno lançando mão das labaredas de um histrionismo nem sempre convincente, pelo menos para mim, que nunca me deixei impressionar por palavras de ordem.
No mês de maio, dedicado à Maria, puxávamos o terço na capela, onde o cheiro de incenso impregnava as minhas narinas ávidas pelo ar puro da manhã que resplandecia lá fora, no campo de futebol, no gramado estalando de verde.

O temperamento impulsivo do Irmão Paulo Berckmans – espécie de Tereré de batina –, geria o time de futebol do Guará, dentro e fora das quatro linhas do campo. Era um homem sanguíneo, calvo, de baixa estatura e de nacionalidade francesa. Joguei no Guará e na seleção do Pio X, quase toda à base do Santos, aqui de João Pessoa. Fui um jogador apenas mediano, mas abaixo da média como aluno, tanto que me reprovei na 3ª série ginasial, cujo titular de classe, o Irmão Leão Panet, lecionava as disciplinas Ciências e Desenho, esta última responsável pelos meus pesadelos borrados pelo negrume da tinta nanquim. Ainda bem que, na ida e na volta ao colégio, a Avenida das Coremas aguardava-me com o seu leito coalhado pelo pólen dos jambeiros em flor.

Tenho boas recordações deste tempo, das turmas e dos Irmãos Guilherme, Odilon, Acácio, João, Inácio e Paulo Berckmans. Foi no Pio X que conclui o ginásio, passando a cursar o científico no Lins de Vasconcelos, dirigido pelo Professor Nery e por Dona Creusa.

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Misto, este colégio representou uma nova experiência para o menino que tangenciava o caminho entre a sua casa e o Pio X, entre o Pio X e a sua casa, para evitar o encontro com as meninas do Lyceu. Às vezes, quando as encontrava, o adolescente baixava a cabeça, olhava para o chão, e por pouco não tropeçava na timidez dos passos em que se refugiava.

No Lins, os meus olhos aprenderam a olhar os olhos das adolescentes, os meus olhos que hoje, tantos anos depois, são contornados pelas rugas que concentram e denunciam todo um esforço para ver melhor, para enxergar e compreender melhor o espetáculo do mundo, apesar das retinas já fatigadas.

Faz algum tempo, encontrei algumas cadernetas escolares do aluno Sérgio Martinho Aquino de Castro Pinto. E nelas, além das notas medíocres – excetuando-se as de Português e de História –, algumas suspensões por indisciplina. Desejei mostrar as cadernetas ao meu neto Pedro Henrique, no que fui de pronto advertido pela minha filha Maria Cecília: “_ Não é este o exemplo que um avô deve passar para os netos!” E recolhi-me à insignificância do avô sexagenário, cujas rebeldias do tempo de jovem deveriam permanecer deslembradas para todo o sempre, na quadra já longínqua dos seus quinze, dezesseis anos.

Do Lins de Vasconcelos, migrei para o Liceu, onde conclui o 3º ano clássico e me submeti ao vestibular de Direito, obtendo aprovação. No Liceu, fiz amizades que perduram até hoje, Luiz Humberto Melo, José Leite Guerra, João Santos Coelho e o meu compadre Luciano Moraes – padrinho de Maria Carolina, minha filha caçula –, os dois últimos queridos amigos desde o tempo do Pio X.

Por esta época, já trabalhava na Reitoria da Universidade Federal da Paraíba, onde arquivei parte da minha juventude nas engrenagens do relógio de ponto, no árido convívio com os burocratas de todos os gêneros e graus: um jeito botânico/ de quem cultiva folhas/ de papel carbono.// de quem as enxerta/ nos gestos e na fala.// de quem arvora/ no caule do silêncio/ de quem cala/ uma primavera burocrática.

Na Faculdade, continuei o mesmo aluno relapso que sempre fui. Afinal, nada deveria me extraviar dos caminhos tortuosos da literatura. A poesia, a boemia e a pouca aptidão para o Direito, reprovaram-me no 2º ano. Não obtive frequência em algumas matérias, mas, justamente por isso, tenho o privilégio de pertencer a duas turmas, a que ingressei na Faculdade e a que conclui o curso. Hoje, dois dos meus filhos exercem o Direito, Sérgio Rodrigo é Procurador da República, e Maria Carolina é Oficial de Justiça no estado de Pernambuco. Maria Cecília, seguindo o pai, fez mestrado em Letras na Universidade Federal da Paraíba, embora tenha concluído o curso de Ciências Jurídicas e Sociais. Sou avô de quatro netos, Pedro Henrique, Maria Luísa. Guilherme e Gabriel. Orgulho-me de todos eles. E da minha mulher, Alda Lúcia, a primeira a ler, aprovar ou não os meus poemas.

Não participei ativamente da política estudantil, apesar de comparecer às passeatas, ocupações da antiga FAFI e às do Centro do Estudante Universitário (CEU), atual Cassino da Lagoa. Contudo, quando tinha oportunidade, denunciava a instituição da censura, a ação nefasta que ela exercia sobre a inteligência nacional.

Em 1972, recém-chegado de Curitiba, onde fora receber um dos prêmios do Concurso Nacional de Contos do Paraná, em entrevista ao jornalista Frutuoso Chaves, para o jornal “A União”, critiquei a proibição da exposição das obras eróticas de Picasso no território brasileiro: “O ministro Alfredo Buzaid confundiu a obra de arte do mestre Picasso com a pica de aço do mestre de obras”.

Segundo soube depois, a entrevista por muito pouco não provocou a demissão de Frutuoso, do jornalista e crítico cinematográfico Antônio Barreto Neto, que ocupava a função de editor do jornal no governo Ernani Sátyro, homem de extrema confiança do regime militar.

De outra feita, quando de uma palestra que proferi em Campina Grande, a convite da teatróloga e professora Lourdes Ramalho, denunciei a censura, quase recebendo voz de prisão de um irascível coronel do exército, que comandava o efetivo militar da Rainha da Borborema.

As minhas influências literárias foram muitas, tantas quanto as estrelas do céu e os grãos de areia da praia, a começar pela do meu pai, cronista do cotidiano, autor do livro “Páginas de um diário”, que relata, sob o ponto de vista de um menino, o contexto em que se digladiavam os liberais e os perrepistas. Aliás, já fiz menção à influência paterna em texto que divulguei em “Panorama Editorial”, revista mensal da Câmara Brasileira do Livro: “(...)
As crônicas do meu pai eram lidas ao sabor de uma profunda nostalgia, sentimento estranho para uma criança que, ainda sem passado, sentia uma saudade atávica do menino antigo que fora o seu pai. Daí para também escrever as minhas ‘memórias’ foi um passo, apenas com uma diferença: impossibilitado de explorar o tempo pretérito, de convertê-lo em matéria bruta do meu texto, não me restou alternativa senão inventá-lo. O que o fiz, inconscientemente, na esteira do verso de Manuel Bandeira: ‘A vida inteira que poderia ter sido e que não foi’”. Só que, nesta fase, eu não tinha uma vida inteira, como não a tenho até hoje, que a vida jamais se completa e é inteira, por mais larga e comprida que seja.

Quanto às minhas leituras, sou volúvel: migro de um gênero para o outro. Afinal, livros são como pessoas, a convivência prolongada com um só gênero, cansa, extenua. Mas se migro de um para o outro como quem muda de camisa, suo mais a camisa da poesia, lendo-a e produzindo-a. A poesia é o meu estandarte.

(Depoimento prestado no projeto Papo de Sábado, na Livraria do Luiz, em que os poetas, ficcionistas, críticos, ensaístas etc, falavam não só de suas atividades literárias como de suas vidas. Daí o tom autobiográfico).

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