Há uma paisagem nos grotões de Serraria que guardei na memória, cujas lembranças não se apagaram, seis décadas depo...

Um engenho anda comigo

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Há uma paisagem nos grotões de Serraria que guardei na memória, cujas lembranças não se apagaram, seis décadas depois. Este lugar é o engenho Martiniano, composto de casa grande, capela e outras moradias que formam o acervo arquitetônico do século XIX. Na beira do córrego no sopé da serra, olhando para o alto, observam-se palmeiras que parecem atingir as nuvens.

Na primeira viagem para aquele recanto aprazível, há quase sessenta anos, percorri o caminho escanchado na garupa de um cavalo conduzido por um morador de papai, e nunca mais me esqueci do que observei. A expressão maior da história de Serraria está ali representada, do apogeu político e econômico representados pelos seus antigos donos ao estágio atual, bem cuidado e o engenho moendo a todo vapor. A imagem da bagaceira de antigamente em frenético movimento, nunca saiu de minha mente.

Vemos o passado com os olhos da criança que fui um dia. Não lembro o que fomos tratar no engenho, mas carrego as imagens do bagaço de cana espalhado para secagem num longo terraço entre a casa grande e a casa de purgar.

O que os olhos das crianças veem em certos lugares, mesmo com os obscuros tumultos da alma adulta, em tempo oportuno ressurge como dádiva da memória. Sobretudo comigo, os lugares têm essa magia. Principalmente os ambientes rurais de minha região que são cheios de poesia. As imagens do engenho Martiniano em mim tornaram-se permanentes. Como aconteceu neste reencontro com o antigo engenho, construído pelo português Martiniano Pinheiro Borges em meados do século XIX e hoje pertencente ao empresário Álvaro Borba, que conserva toda sua arquitetura composta de casa grande e da bela capela.

A lembrança do engenho, mesmo tênue, continuava realimenta pelas imagens captadas durante a primeira visita naquela manhã com vento espalhando poeira, enquanto as palmeiras e árvores coavam o sol que chegava à bagaceira, cobrindo o engenho enquanto seu bueiro soltava fumaça do bagaço que alimentava a fornalha.

Durante anos o poeta propagou aquilo que o menino observou. O Martiniano de outrora recordava com saudade, mesmo que tenha retornado ao lugar tantos anos depois.

Neste engenho ocorreram belas cenas familiares. Muitos que ali moraram viveram os costumes do tempo Imperial na sublimidade dos gestos do coronel Francisco Duarte dos Santos e do major Antônio Bento, seu irmão. Os dois impulsionaram o crescimento da pequena povoação de Serraria que surgia no cangote de uma nesga da serra. Ali nasceu Francisco Duarte Lima, que ocupava uma cadeira na Assembleia Legislativa quando se tornou senador em 1937, substituindo José Américo de Almeida.

As lembranças me acompanharam desde aquela manhã dos anos 1960, e recentemente retornei para reencontrar marcas de um passado glorioso de Serraria.

Queria ver o passado com os olhos da criança que caminhava despercebida. Estou na idade de olhar para o que se escondeu no reservado da alma. Este engenho anda comigo.

Voltei e reencontrei a paisagem observada na meninice que não queria esquecer, porque é a própria essência do meu passado projetada naqueles cenários míticos e envolventes, certamente contemplados pelos meus avôs. Comoveu-me escrever estas coisas. Recuperei paisagens que os olhos viram há tanto tempo.

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  1. Maravilha de texto e de boas lembranças da nossa Macondo.

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  2. José Nunes👏👏👏 parabéns pelo texto lembrança!!
    Boas demais de suas vivências por Engenho que conviveu!!!
    Paulo Roberto Rocha

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  3. Beleza, Nunes. Tenho lembranças bem diferentes de nossos engenhos. Com muito tiro. Nos filmes Soledade - baseado n´A Bagaceira e Fogo Morto, no quais fui um delegado e o tenente Maurício. As suas têm muito a ver com as do menino que foi o Zé Lins. Cheias de pureza e de amor ao lugar em que nasceram.

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  4. O poético artigo de José Nunes evocou em mim saudosas lembranças dos 'caminhos dos engenhos' de Alagoa Grande, Bananeiras e Areia.

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