No final de 1975, quando estudávamos o curso médico, fomos selecionados para atuar no Projeto Rondon . Criado pelo governo militar — d...

A conquista dos Andes (Parte 1)

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No final de 1975, quando estudávamos o curso médico, fomos selecionados para atuar no Projeto Rondon.

Criado pelo governo militar — durante a ditadura que se instalou no Brasil em 1964 e aqui reinou por 21 anos — o Projeto Rondon tinha como objetivo integrar os estudantes universitários (possíveis lideranças futuras) com a realidade das diversas regiões do país. Nós, da Paraíba, fomos designados para atuar no Pantanal do Mato Grosso.

A nossa base seria a cidade de Ladário, pequeno povoado às margens do rio Paraguai, onde se encontra instalada uma base naval da Marinha brasileira. A entidade militar prestou todo o apoio à nossa equipe. Quando soube que iríamos permanecer um mês no local, convenci Ilma e alguns colegas de fazermos uma visita a Assunção, capital do Paraguai, que é banhada pelo rio. Seria a nossa primeira viagem ao exterior.

Havia muito tempo que eu cultivava a vontade de conhecer um outro país. Por isso fiquei tão excitado com a oportunidade de atuar na fronteira. Chegar tão perto e não aproveitar seria imperdoável...

Tiramos passaportes e conseguimos convencer os nossos pais, especialmente os pais de Ilma. Como eles confiavam muito em mim, terminaram concordando com o nosso passeio durante a permanência no Centro-Oeste. Raspei tudo o que tinha na poupança. Mobilizamos a família: nossos pais nos ajudaram. Paulo Fernando, meu irmão, que trabalhava em Sergipe, também deu um bom auxílio.

Dia 3 de janeiro de 1976, um sábado, partimos em ônibus do Projeto Rondon para embarcar em avião da Vasp, de Recife para Corumbá, no estado Mato Grosso (ainda não desmembrado nos atuais Mato Grosso e Mato Grosso do Sul). Este foi o primeiro ano que a entidade utilizou aeronaves alugadas para transportar os rondonistas.

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Nossa rotina era rigorosa. Trabalhávamos no Projeto das segundas às sextas-feiras e todas as manhãs dos sábados. Uma semana depois eu já estava decepcionado, ao tomar conhecimento da realidade. Planejávamos descer o rio e passar um fim de semana em Assunção. Mas a ligação entre a cidade paraguaia e Ladário se fazia com navios boieiros, que transportavam gado para o país vizinho. Levavam dias para descer o rio e mais outros dias para voltar. Isso foi um balde de água gelada nos meus sonhos.

Acontece que Ladário fica ao lado de Corumbá, cidade próxima a Puerto Soares, na BOLÍVIA, que era frequentada por brasileiros, para a compra de "produtos de contrabando" e gasolina barata.

Mudamos, então, o objetivo da nossa aventura. O que antes era apenas conhecer um país estrangeiro, o Paraguai, passou a ter um novo tempero: assistir ao sol se pôr do lado contrário. Explico: em nossa cidade de origem, nos habituamos a ver o sol nascer no mar e se pôr em terra. Então, estando ali, por que não ver o Astro se pôr... no mar? Mudamos, assim, a nossa meta: de Assunção, capital do Paraguai, para Lima, capital do Peru!

Coincidiu que, por essa época, passamos a frequentar a cidade de Corumbá após o expediente. Na base naval, conheci o tenente Wagner, oficial que adorava jogar xadrez. Nas tardes de sábado, ele me levava para jogar no clube de xadrez de Corumbá, frequentado por pessoas de todas as idades. A maioria delas já havia visitado a Bolívia.

Passamos a ter contato com pessoas que tinham viajado ou estavam voltando de viagem àquele país andino, principalmente estudantes. De repente, a Bolívia passou a exercer intensa atração para nós. Eu conversava com muitas pessoas e anotava todas as informações numa agenda que Ilma havia me presenteado no Natal e que foi de extrema utilidade em nossa viagem, pelos mapas que continha.

Registrava tudo o que ouvia: lugares, transportes, hotéis, preços, horários, contatos, grau de segurança, repressão policial, restaurantes... TUDO! Por exemplo: à época, 1 cruzeiro valia pouco menos do que 10 pesos bolivianos. e 150 soles peruanos. Não existia computadores acessíveis e a agenda de Ilma cumpriu o seu papel, tendo sido de extrema valia para o sucesso de nossa viagem.

Isso permitiu que eu traçasse um roteiro de viagem, que foi cumprido com elevado grau de fidelidade. Porém, não totalmente, sofrendo mudanças de acordo com o que encontrávamos. Nosso lema era: “Gostou, fica; não gostou, parte para a próxima etapa.”

No dia 31 de janeiro de 1976 eu, Ilma o colega Alcides Diniz, hoje conceituado oftalmologista, nos desligamos oficialmente do Projeto Rondon e tomamos o trem para Santa Cruz de la Sierra, na Bolívia. Era a largada para a nossa aventura maior!

Após um dia de exaustivo no Trem da Morte, como era conhecida essa viagem que ligava São Paulo a Santa Cruz de la Sierra, chegamos a esta que é a segunda maior cidade da Bolívia, em importância e tamanho.

Durante a viagem conhecemos muitos estudantes brasileiros, em sua grande maioria paulistas. De nordestino só nós três. Passamos a andar em grupos variáveis. Era mais seguro, e econômico. Dia seguinte fomos passear pela cidade. Havia muito pouco o que se ver.

Um dos estudantes não nos acompanhou: comprou um saco de folhas de coca e passou o dia trancado, mascando. Seus colegas de quarto, quando chegaram, perguntaram se ele já estava sentindo doidão. Sua resposta: “Nada! Estou, isto sim, com a boca toda anestesiada!”

À noite embarcamos num ônibus para Cochabamba. Não conhecemos nada da cidade, pois lá chegando, ao amanhecer, tomamos um outro ônibus para La Paz. Esta, sim, foi uma etapa muito agradável da viagem. Diferente de Santa Cruz, que se localiza na planície, Cochabamba se situa nas encostas dos Andes.

A estrada deixou de ser asfaltada, e tornou-se muito tortuosa. E quase sempre ladeada por abismos. Paramos para almoçar num restaurante de beira de estrada e fomos surpreendidos por uma chuva de gelo.

No meio da tarde atingimos o planalto. “Estamos pertos de La Paz” — disse-me o boliviano sentado ao lado. Foi quando vimos neve pela primeira vez! No horizonte ele indicou os picos nevados dos montes Illimani, à direita, e Illampu, ao fundo à esquerda. Que beleza! Imagine o deslumbramento destes três nordestinos.

Mas logo teríamos surpresa maior. O companheiro de viagem disse: “Estamos chegando a La Paz: está à nossa frente”. Olhei em torno e vi o aeroporto El Alto e algumas poucas indústrias. Mas não enxerguei a capital.

De repente, o ônibus fez uma curva acentuada à esquerda e começou a descer uma longa ladeira sinuosa. La Paz apareceu à nossa direita, lá em baixo, numa paisagem inesquecível!

À luz do sol poente, as casas da cidade se mostraram com um brilho dourado refletido dos seus tetos, como se Deus tivesse derramado e espalhado papel metálico dourado, picado, na imensa cratera aos nossos pés! Esta foi a primeira visão que tivemos de La Paz.

Descemos na estação rodoviária e pegamos um táxi para o Hotel Itália, nosso destino na rua Illampu. Pesquisando para escrever estas linhas, não deixei de experimentar um toque de nostalgia: tive a surpresa de ver que o hotel Itália nada mudou nesses 45 anos. Pelas fotos, parece continuar tão ruim quanto àquela época!

Carregando a bagagem, experimentamos os primeiros efeitos da altitude: dávamos alguns metros e já sentíamos cansaço, a respiração curta e acelerada. Pois estávamos a 3.640 metros, 500 metros abaixo de El Alto e o planalto boliviano.

Na manhã subsequente, um pouco mais adaptados, fomos conhecer o lago Titicaca. Imenso! Considerado o mais alto do mundo. Até algum tempo atrás eu tinha uma fotografia que eu fiz de Alcides botando o dedo dentro d’água.

Perto dali, visitamos as ruinas de Tiahuanaco, uma civilização pré-incaica — conforme nos contou o guia. A cidade foi destruída pelos incas, quando estes cresceram e começaram a expandir o seu império.As ruinas, muito bem conservadas, são impressionantes, com destaque para a Porta do Sol, a leste, e a Porta da Lua, a oeste. São imensos blocos de pedra, limitando a cidade antiga.

Ao centro, há uma enorme escavação quadrada, toda forrada de pedra. Das paredes projetam-se figuras em pedras de variadas formas: zoomórficas e antropomórficas. Era um templo onde aconteciam cerimônias. Provavelmente deve ter sido coberto de palha.

Em La Paz, conhecemos o Museu de Tiahuanaco e nos impressionamos com a presença de múmias em excelente estado de conservação. Havia, também, muitos crânios com perfurações feitas por trepanações, tão perfeitas que davam inveja a modernos neurocirurgiões...

No dia seguinte, chegou o momento mais esperado: conhecer a neve ao vivo e a cores! Num ônibus que deixava o conforto a desejar, subimos ao pico Chacaltaya, outrora coberto por neves eternas. Li recentemente que, agora, só há neve no inverno. O lugar abrigava um clube de esquiadores, chamado de Club del Condor.

Enquanto La Paz fica a 3.600 metros de altitude, Chacaltaya está a 5.395 metros. O seu acesso, à época, era perigosíssimo e muito precário: a estrada, de terra, percorria sempre a beira de abismos. De um lado, um paredão de 2.600 metros de altura; do outro, um precipício de mais de 2.600 metros de profundidade. Tão estreito era o caminho que se uma lhama viesse em sentido contrário ao do automóvel um dos dois cairia no despenhadeiro!

Lá em cima, na estação de esqui, pouco aproveitamos. O frio intenso contrastava com a lembrança de calor tão recente: apenas cinco dias atrás estávamos no Pantanal do Mato Grosso experimentando 42 graus de temperatura! Ilma ainda calçava a sandália que usou no Rondon, recheada com quatro pares das minhas meias.

Outra dificuldade foi o sorocho, o Mal das Alturas. Dores de cabeça, sangramentos no nariz, mal-estar intenso, tonturas e sensação de desmaio iminente. Além de tudo isso havia o ar rarefeito: dávamos três passos e parávamos arquejando. Tomávamos café e chocolate, sem bom resultado. Só melhoramos, mesmo, quando tomamos o chá da coca! Aí pudemos desfrutar um pouco do momento.

Deslumbrados, os estudantes desciam a pista de neve escorregando em seus agasalhos! Que alegria ver moças e rapazes se comportando como crianças!

Passamos uma semana em La Paz. Para economizar fazíamos refeições nas ruas, em tabuleiros típicos, ao longo das calçadas. Pagávamos 10 pesos por um prato contendo chorizo (linguiça), papas (batatas) e uma folha de alface. Parte do dinheiro era reservado para conhecermos as novidades.

Outra opção era o Comedor público: num grande espaço do mercado central, a comida, pouco variada, era oferecida em tabuleiros instalados nos recantos; no meio do salão havia um amontoado irregular de mesas e bancos.

Tive uma má experiência, lá. Certa tarde, depois de servidos, e prestes a comer, percebi o boliviano ao lado se servindo de um tempero verde num frasquinho. Perguntei-lhe o que era. Respondeu:
“Es ajy” Um tipo de pimenta que eu desconhecia.

Perguntei se era forte. Respondeu que não, que era muito boa. Então despejei no prato. Com uma única garfada já senti sair fogo pelos ouvidos, pelos olhos e pelas narinas, igual a uma mula-sem-cabeça... Engoli seco, pensando no dinheiro. E comi ainda uma parte do prato. Ilma me salvou dividindo a refeição dela comigo... e me censurando.

À noite frequentávamos um bar perto do hotel, na rua Illampu. Gostava de ir até lá porque me agradava ver os bolivianos jogando xadrez. Lá também escutávamos as canções de artistas locais, andinos. Lembro-me especialmente de Los Chalchaleros, com músicas de ritmo agradável , parecido com guarânias. Tudo isso bebericando singani, deliciosa aguardente feita de uvas brancas, e símbolo nacional da Bolívia.

Aquela foi a nossa primeira semana nos Andes. Inesquecível! Ao longo dela preparamos a nossa viagem ao Peru: novas emoções nos aguardavam!

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  1. Ângela Bezerra de Castro13/1/21 10:29

    O leitor faz, literalmente, essa viagem com você, compartilhando as mesmas emoções. Porque sua narrativa está impregnada do entusiasmo e do vigor de uma encantadora juventude, que revela surpreendente sabedoria, na forma de viver, retirando sempre o melhor de novas experiências, sem nenhum temor. Foi um presente, deixar o isolamento Covid, para segui-lo nesta revigorante aventura andina, em que se afirma, cada vez mais, como excelente narrador.

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    1. Partindo da professora Ângela Bezerra de Castro, seu comenttário muito me deixa envaidecido e estimulado para me aprimorarcada vez mais.
      Obrigado, Ângela!

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  2. Velho companheiro de jornada, ainda não nos tínhamos encontrado a essa altura da viagem, mas endosso tudo o que você escreveu e passamos por experiências semelhantes. Me lembro que a subida do Chacaltaya tinha horário certo. Pela manhã apenas subiam, e à tarde desciam. Nosso hotel em La Paz era o Tumusla, na Calle Tumusla. Puxei uma imagem recente do Google e a rua continua a mesma, mas o hotel não existe mais. Estou ansioso para ler a continuação.

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    1. Velho companheiro de vigem Márcio Metzker! Quanta honra reencontrá-lo! Quantas lembranças agradáveis de momentos que compartilhamos, na nossa Conquista dos Andes!
      É um grande prazer reencontrá-lo. Seja bemvindo ao Ambiente de Leitura Carlos Romero

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  3. Bela aventura, Zé Mário. Ficamos ansiosos pela continuação desta para compartilhar dessa viagem com você como que estivéssemos juntos. Emocionante narrativa. Parabéns!

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    1. Que bom que você gostou desta "viagem," Vicente! Logo, logo faremos outra.

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  4. São experiências como esta que moldam nossa vida.
    Aproveitar oportunidades e saber curti-las como o fez o nosso Zé Mário é parte sensível e indelével no nosso dia a dia.
    Viajamos com ele como diz o dito popular, "nunha boa".

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    1. Grande Arael, é sempre bom ter ilustres companheiros "de viagem," como você e Raquel.
      O meu abraço

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  5. Maravilha! Viajamos em seu artigo!

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