E aí... cutucou a conviva — E aí aconteceu o que era de se esperar — Emendou Cori. Antes de dar continuidade, porém, o sagaz editor ...

O Retoque (Parte 4)

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E aí... cutucou a conviva — E aí aconteceu o que era de se esperar — Emendou Cori. Antes de dar continuidade, porém, o sagaz editor percebe a expectativa em torno. Interrompe propositadamente o que diz e dá umas balançadas no copo com uísque para agitar as pedras de gelo.

Prorrogado um pouco o suspense, fala finalmente — Uns dias depois, está de volta. Fora uma retocada e tanto, viu? o conto tem agora 4 páginas, e eu começo a rir logo na primeira, e vou ficar com cara de bobo até o final. Afinal, quem estava de volta ali era o velho e bom Edilson Limeira de sempre.

Conseguira manter o clima bucólico de final dos anos ’50, ainda associado ao tema da infância remota. Tinha dado um título algo genérico ao conto: “Reminiscências” — que mudou. Chama-se agora “Nascentes do Desejo”, e através de malabarismos só possíveis a quem, de fato, domina a Arte da boa escrita,
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nomeia alguns símbolos sexuais da época — considerados por ele responsáveis por sua precoce manifestação da libido.

No novo início, ele já começa com uma estranheza típica: diz que o cheiro das tntas de impressão sempre esteve associado em sua mente a certo estímulo sexual... escreveu que lhe basta abrir livro novo, cheirá-lo no regaço das páginas, e já se sente transportar para o dia distante em que descobriu, sob o travesseiro de cama do seu pai, um exemplar do Teatro Rebolado...

O que seria um caso...vamos dizer, curioso...mas irrelevante para outro que não ele... a partir dali assume dimensão...bombástica: talvez vocês nem acreditem, mas ele descreve a cena como um decisivo momento de revelação em sua vida. E que, ali — chegando a parafrasear o poeta Carlos Drummond —, ‘A máquina do mundo se entreabriu’. E diz que não viu melhor forma de privar do momento que a sorte lhe oferecia: enfiou o nariz entre as páginas da revista, no impulso — infantil, claro — de captar algum cheiro que talvez emanasse daquelas páginas, quem sabe impregnadas do perfume íntimo... — Faz aí uma nova parada. Nesse momento, é provável ter percebido um clima desfavorável a mais excessos retóricos, pois seu tom agora é outro Mas, para mim, se querem saber, tudo isto não passa de encenação literária...

Como assim — Indagou aquela conviva, e Cori tentou — uma última vez — esmerar-se na resposta Foi o que eu disse, amiga. Encenação literária. O autor-ator literário finge para o seu assunto uma natureza que não possui... embora não tenha ele culpa alguma de seu público ser chegado a uma... vamos dizer... vulgaridade, e que ele apenas procure... aplicar ligeiro verniz... um tanto asa-de-barata voando por lugares comuns e frases feitas de nossa herança cultural, ao seu tema que é — não há como negar: vulgar...e por que não dizer, em nosso tempo bastante banalizado... concorda?

Não se fez mais perguntas, e com isso, Coriolano Torquato Lins estava encerrando a fala do dia. Nesse momento — é previsível — seu semblante esbanja evidente ar de satisfação. A reconhecida vaidade pessoal possivelmente apaziguada pelo longo (e talvez último) pavoneio pessoal sobre ditar regras para o que os outros devam ler.

Mas, pelo menos no que diz respeito a texto de Limeira, é possível afirmar-se ter sido esta sua última exposição de vaidade, sim, e que a causa disto só pode ser atribuída, em última análise, ao baixo padrão profissional com que — desde sempre — tem interagido nos meios literários.

Em seus negócios, a inexistência de vínculo contratual entre partes é só um dado do baixo padrão profissional com que veio desde sempre atuando no mercado de livros. E seria justamente por esta brecha que o famoso editor local veria o caldo entornar.

Alguns dias depois, está telefonando para o escritor. Cobra a primeira parcela do pagamento da impressão, antes de remeter os originais para a gráfica — procedimento comum entre ambos. Um encontro é então marcado para o dia seguinte, no escritório, com Edilson chegando pontualmente. Ele traz um envelope nas mãos, e o deposita na mesa. A surpresa, para Coriolano, é que não há dinheiro no embrulho. O que há ali, para seu enorme constrangimento, é a carta de uma renomada editora sudestina.

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Lívido, tomado pela surpresa e temendo o pior, Cori retira o papel e lê o que é um modelo gentil e sucinto de carta comercial. Através dela, Edilson está sendo chamado a assinar seu primeiro contrato de edição.

O crédito pelo inesperado milagre acabaria caindo nas costas de quem havia tomado a iniciativa de enviar uma cópia daqueles originais para algumas editoras do Sul e Sudeste do país. Quanto a isto, Edilson explicaria depois, e bem sucintamente que uma leitora (aquela!) lhe havia pedido cópias dos contos. Pretendia, segundo ele, selecionar alguns textos para nova antologia que a Secretaria de Cultura planejara organizar. Como tivesse, depois, perdido os prazos de inscrição, resolveu ela, de conta própria — E pra não perder a viagem — como bem observou Edilson — tirar mais algumas cópias e enviá-las às Editoras.

Essa não foi mais que uma tola e inútil tentativa de minimizar — escondendo — o fato de tratar-se de uma influente professora de Literatura da UFPE, e uma das fundadoras do Partido Verde no Estado. Detalhes e futricas à parte, o fato é que já nem se lembravam mais daquilo quando foram apanhados de surpresa pela inesperada resposta positiva. Automaticamente, essa bela notícia vinha suspender — atropelar — a impressão do novo livro pela CTL-Editor, em proveito da editora de porte, claro, e também do autor, claro, que pela primeira vez na vida irá agradecer por ter que esperar um pouco mais por seu novo livro.

Oito meses depois e nenhum centavo a mais, o novo selo veio impresso em livro de bom tamanho, cuja capa era um argumento à parte. Vendeu estratosféricos 300 exemplares na noite do lançamento, e a magnitude do evento deveu-se (para completa ausência de surpresa) às providências tomadas por essa mesma, fidelíssima, leitora e professora.

Foi uma concorrida noite de autógrafos, e Edilson, quem sabe assustado com o furor dos holofotes, transmutou — disfarçou — a vaidade em surtos de autopiedade em que, a todo instante, parece pedir desculpas a todos pelo inevitável sucesso de que está sendo vítima.

Numa hora foi visto se desculpando com as antigas amizades do sebo literário pela balbúrdia no novo ambiente — num momento em que pende a cabeça para um lado e a careta que faz exprime o insuportável, enquanto aponta com um tremelicante dedo indicador para o ouvido na parte de cima —, noutra, lamenta-se da artrose que lhe ataca justo o braço que empunha a caneta, enquanto atende ao extenso público perfilado diante da mesinha. Torquato Lins, por sua vez, e bem antecipadamente, arranjara uma desculpa qualquer e não deu o ar da graça.

Mas ele recebe o livro do ex-consulente pelos correios. A dedicatória é longa, humilde, e traduz fielmente o escritor que sabe usar as palavras certas quando o momento pede. Coriolano devolve a gentileza num telefone para o ex-afiliado, quando volta a se desculpar pela ausência na noite do lançamento, e anuncia seu propósito de levar o livro no próximo final de semana para o sítio do genro político, onde é aguardado pela vistosa rede no alpendre e a tranquilidade ideal para uma boa leitura. Em nenhum momento chega a trair ressentimentos, e aparenta, como sempre, bastante compenetração na fala — morde cada palavra como se a saboreasse —, e, pasmem, cumpre o prometido.

Consta que, devidamente espichado naquela rede, vá usar o dedo maior-de-todos como gatilho para arremessar por sobre a borda dela, em displicente incorreção política, o coto do cigarro na direção das jaqueiras e laranjeiras em torno do alpendre, antes de, finalmente, concentrar-se no livro do ex-neófito.

Sem nenhuma pressa, ele corre os olhos nos pormenores gráficos. Anota mentalmente cada boa opção editorial tomada independentemente de contenção econômica, e depois de dedicar alguns minutos de atenção ao texto de orelha, escrito (mas só podia ser) por aquela onipresente doutora em letras da Universidade, fixa-se na primeira página.

Na sequência, alguém que por ali se encontrasse, observador casual da cena, teria percebido um ligeiro estremecimento percorrer a rede. O livro inicia-se com o conto-título “Retoque”, e logo nas primeiras linhas causará impacto. Talvez aquele frio na espinha: apesar do nome diferente (Coriolano Torquato Lins é uma invenção, embora coincida com o seu na ostentação do duplo sobrenome), o homem que está deitado naquela rede não pode evitar sentir-se na pele do personagem descrito. Atividade profissional, aspecto físico e circunstância se afiguram rigorosamente familiares para ele.

Estava lá: “Entrega os originais dos contos e recua para a poltrona da sala. De lá, observa Cori — gordo e fumando feito um desesperado — folheá-los. ”

O texto — ele segue percebendo — é autobiográfico, e, à medida que avança na leitura, vê que transcreve, embora nem sempre fielmente, os últimos acontecimentos envolvendo a publicação abortada em consequência do súbito interesse da Sant’Aquisição (o nome da importante editora dito agora em todas as suas letras).

Ali estava a história do conto quase expurgado e reinventado depois, os conceitos pessoais tantas vezes expostos em público... e ele percebendo como o escritor, habilmente, e usando um narrador indeterminado, havia feito descrição exagerada, sardônica, caricatura feroz e divertidamente cruel dele mesmo, cuidando, no entanto, de transferi-la para Edilson Limeira, alter ego.

E vê como a personagem, depois, escamoteia-se, praticamente some da narrativa para só reaparecer no final, na noite apoteótica do evento... e tinha aquela passagem de Parati... mas essa, pelo menos, lembrava-se de ter ele mesmo contado para o autor.

No entanto lhe parecerá óbvio que a fidelidade da narrativa somente se mantém até o momento em que o escritor remete o texto para a Sant’Aquisição, o que deve ter acontecido uns poucos meses depois dele haver lhe mostrado aquela carta no escritório. A partir dali, deduzirá ele, o conto entra obrigatoriamente no terreno da ficção, e até da especulação, pois como pode alguém descrever o lançamento de um livro no momento em que o escreve? Além do que — e mesmo que conhecesse, como bem conhecia os hábitos do editor — como acertar que este iria ler o livro na chácara do genro? Podia ter sido em casa, no escritório... deduzirá que o autor arriscou um palpite com enorme possibilidade de acerto?

Estranhará talvez a inexistência de mais relatos no Bar de Apolônio, onde a história daquele contrato editorial dificilmente terá surgido, e isto pela razão primária de que o provável contador da história talvez não tenha encontrado nela os elementos de vanglória que fizessem jus a um ambiente talhado sob medida para a fanfarra artística. Mas, se essa conversa apareceu por lá, ou não, somente o editor poderá responder tal pergunta.

Restava, porém, uma dúvida: como soubera seu ex-cliente do extravasamento lítero-verborrágico — regado a uísque — no apartamento do genro? É bem possível que o editor tenha dado giros e mais giros na mente antes de lembrar-se da mulher presente ao boca-livre. Afinal, ela bem que pareceu interessada no assunto... parecia um tipo de professora... e há uma boa possibilidade de que, de fato, lembre-se dela... militante do partido verde... o partido do genro deputado. Mas, e daí?

Talvez Coriolano... ou melhor, Rogério Caldas Melo, não tenha mesmo como saber que aquela mulher mantivera — o tempo inteiro — contatos com o seu ex-parceiro de Editora, e que o informara de tudo que foi dito naquele terraço... mas, depois de ler este primeiro conto, e até relê-lo, talvez Caldas Melo passe a entender melhor a forma como certas coisas vieram ocorrendo em torno de si, antes de mergulhar no conto seguinte. Este, aliás, bem curto, pouco mais de lauda.

E talvez, aí, um momento delicado: o conto seguinte é aquele mesmo que, a princípio, fora excluído, para ser depois reescrito pelo autor — que irá permanecer incógnito para o leitor. Mas Rogerinho o reconhece de pronto e constata, um tanto chocado, que seu ex-pupilo desistira até mesmo de dar ao conto “Reminiscências” aquele título sucedâneo, resolvido que estivera a publicá-lo integralmente. Na forma originária. Sem nenhum retoque.

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