Clarice Lispector escreveu que “Deus é de quem conseguir pegá-Lo”. Já o diabo, acrescento, é de quem ele pegar. Daí que nesta vida seja ma...

A propósito de Rousseau

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Clarice Lispector escreveu que “Deus é de quem conseguir pegá-Lo”. Já o diabo, acrescento, é de quem ele pegar. Daí que nesta vida seja mais importante fugir do diabo, que conhece a presa e tem o propósito deliberado de fisgá-la. O mal não faz questão de que nos arrependamos, desde que em algum momento tenhamos sucumbido aos seus ardis. Rousseau sabia disso quando escreveu, nas “Confissões”, que devíamos “evitar a primeira vez”.

Mas como aceitar esse conselho numa época que vê na experiência o único critério para o aprendizado e o melhor guia para as ações? Um dos bordões mais entoados hoje é o de que “caminhando se faz o caminho”. Só se deveria então escolher alguma coisa depois de experimentá-la.

Ao propor que evitemos a primeira vez Rousseu não estaria postulando uma moralidade apriorística e abstrata, que nos privaria de um juízo fundamentado e preciso porque seria alheia ao nosso eu? Se evito a primeira vez, o faço com base na experiência dos outros... Seria irônico isso num autor que incutiu no ser humano a noção de subjetividade.

Uma das passagens marcantes das “Confissões” é aquela em que Rousseau recebe um castigo ao descumprir determinada regra e se sente injustiçado por “ser outro”, ou seja, ter uma individualidade. “Se não sou melhor, sou outro” – é mais ou menos isso que ele escreve. Assim, não poderia agir como todo o mundo. Isso que hoje está banalizado em comerciais e certos livros de autoajuda – o encorajamento a que cada um “seja o que é” e faça a diferença – começou com o iluminista suíço.

Rousseau me serviu há anos de inspiração numa conversa que tive com a minha filha mais velha. Falávamos de drogas; se bem confiasse nela, eu queria mais argumentos para convencê-la de que, particularmente nesse domínio, era preciso evitar a primeira vez.

Ponderei-lhe, didático: “Imagine que você queira experimentar drogas por curiosidade. Duas coisas podem acontecer: ou você gosta, acha que vale a pena; ou não gosta e se dispõe a jamais fazer de novo. Comecemos pelo segundo caso: como você não gostou, perdeu tempo experimentando. O melhor mesmo era ter evitado. Vejamos agora o primeiro, ou seja, o caso em que você ache a droga um barato. Isso seria terrível, pois você ia querer repetir a dose.” Fiz uma pausa e resumi: “Esse é o tipo de experiência que não vale a pena tentar”.

É falsa a ideia de que devemos “experimentar tudo”; a algumas coisas devemos renunciar até por instinto de conservação. Um dos segredos de bem viver é discernir entre o que vale a pena ser experimentado e o que deve, de antemão, ser objeto de renúncia. Para isso não existe fórmula, a não ser a do bom-senso.

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  1. Obrigado, Milton. Quanto à grafia de “bom-senso”, passei a seguir a orientação do Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa e escrever esse vocábulo como um composto (ou seja, com hífen) e não como uma locução. Por duas razões. Primeira: oriento os alunos segundo o VOLP, e não teria sentido ensinar-lhes o que não pratico. Segunda: não deixa de haver em “bom-senso” uma característica dos compostos, qual seja, a de ter um significado autônomo — um sentido que não é meramente a soma dos seus componentes. “Bom-senso”, com efeito, não é um “senso bom”, mas a capacidade de agir ou julgar com sensatez e razoabilidade. Essa autonomia de sentido também ocorre, mutatis mutandis, em “boa-fé”, “bom-tom”, “boa-nova”, “bom-bocado” etc.

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