Em A besta humana ( La bête humaine , 1890), Émile Zola põe na boca da personagem Séverine Roubaud os detalhes do assassinato do senhor ...

O escritor e suas estratégias

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Em A besta humana (La bête humaine, 1890), Émile Zola põe na boca da personagem Séverine Roubaud os detalhes do assassinato do senhor Grandmorin, presidente da companhia de trens, por seu marido, que fez dela cúmplice forçada. O crime acontece no interior de um trem, que se desloca de Paris ao Havre (Capítulo II), e só nos é mostrado fragmentariamente. O leitor tem conhecimento do acontecido, não tem dúvida a respeito dos culpados, mas faltam-lhe os detalhes do ocorrido.

Após o crime, Séverine torna-se amante de Jacques, um condutor de trens, que vê o crime de relance, quando se encontra na casa do guarda-barreira Misard, em visita a uma velha tia. Apesar de velocidade do trem, 80 km/h, Jacques, à passagem do comboio, vê um homem esgorjando outro, em uma das cabines.
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Diante da investigação da polícia, Séverine é uma das suspeitas, com o marido, Jacques é uma das testemunhas, mas o secretário de Justiça, prefere, por causa das conveniências políticas, dar o caso por encerrado, visto que as investigações seguindo o seu curso, mesmo que descobrissem os criminosos, poderiam manchar a reputação de Grandmorin, rico, prestigiado e Comandante da Legião de Honra da França.

O caso amoroso com Jacques Lantier faz Séverine Roubaud sentir-se mulher plena, gozando as benesses de um amor de escolha. Ela tem, no entanto, a necessidade de contar a Jacques o que ocorreu, como um desabafo de um peso que carregava e a incomodava sobremaneira — Ah! cette sensation de nuit de tempête, ah! ce noir épouvantable qui hurlait au fond de moi! (Ah! esta sensação de noite tempestuosa, ah! este negror terrificante que urrava no fundo de mim! — Capítulo VIII). De acordo, no entanto, com o que Séverine diz a Jacques, eles podem ficar tranquilos, seguros de que não serão pegos — l’affaire est classée, sans compter que les gros bonnets du governement ont enconre moins envie que nous de tirer ça au claire... (o caso está encerrado, sem contar que os chefões do governo têm ainda menos vontade do que nós de esclarecê-lo... — Capítulo VIII).

O leitor poderia perguntar o porquê de isso acontecer. Se já não há dúvidas quanto ao crime e seus autores, qual a importância e a necessidade de se detalhar o acontecido? Na realidade, mais do que um desabafo da personagem, para se mostrar sincera e honesta com o amante, de modo que não restem segredos entre eles sobre o seu passado, a longa passagem do Capítulo VIIII é uma técnica de narrativa.

Em primeiro lugar, vemos o autor retirar de cima do narrador o costumeiro encargo da onisciência que começava a se mostrar cediço, passando o relato para a personagem, utilizando-se do discurso direto. Em segundo lugar, constatamos algo que os manuais se eximem de dizer, deixando sua explanação para os tratados específicos sobre a narrativa, que, por sua vez, nem sempre abordam o assunto: os recursos da narrativa são estudados separadamente, por uma questão didática, nada impedindo, no entanto, que, na realização do texto, eles venham mesclados a outros recursos. A pureza dos vários discursos da narrativa só existe no ideal da sua separação didática. Deixaremos para outra oportunidade a análise, por exemplo, da técnica do monólogo interior misturando-se com o discurso indireto e indireto-livre,
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uso recorrente nos romances de Zola, um se enfiando no outro, exigindo do leitor mais atenção.

É manejando com habilidade as técnicas de construção do seu texto que vemos Zola transformar a fala da personagem Séverine em narrativa, cujo ponto de partida é um simples diálogo com o seu amante, Jacques. Mas não fiquemos por aí. Essa técnica, nesse instante, busca algo mais profundo: a essência do romance experimental. Nesse tipo de romance teorizado e realizado por Émile Zola (veja-se Le roman expérimental, 1880), há uma necessidade de se investigar a verdade, ainda que travestindo-a com a capa da ficção. O escritor, mais do que o “porquê”, deve procurar mostrar o “como” das coisas. Buscando ser fiel a seu credo, Zola se instrui sobre os assuntos que envolvem os trens, seu funcionamento, o seu desenho interno e externo, seus mecânicos, condutores, agulheiros, guarda-barreiras, as gares, a burocracia, os itinerários e horários... Tudo isto para que não haja incongruências ou inverossimilhanças internas e, sobretudo, externas. É ficção, sim, mas ela precisa do lastro do mundo exterior, assim pensava o autor de Les Rougon-Macquart.

Munido, portanto, de um credo de que não abria mão, Zola faz o experimento de colocar na boca da personagem os detalhes do assassinato, de maneira a testar a congruência do crime arquitetado e realizado. É um momento em que a técnica narrativa se torna uma estratégia de um escritor consciente de sua criação e coerente com o que teorizara. Sempre é melhor que a personagem, que viveu o assassinato, ela mesma possa dizer, com todas as minúcias, como aconteceu o fato. Se alguma coisa escapa e mostra uma fumaça de inverossimilhança, pode-se creditar à memória da personagem ou aos traumas que ela carrega consigo: os abusos sexuais impostos por Grandmorin, desde os 16 anos de idade; um casamento sem amor, ainda muito jovem,
com um marido dezesseis anos mais velho e que, a cada relação sexual, praticamente a violentava; o arrastamento a um crime de morte que ela não queria que acontecesse.

A ligação com Jacques Lantier é a redenção de Séverine como mulher, é a descoberta do amor espontâneo e de entrega, que a faz sentir-se, pela primeira vez, não só amada, mas segura. O que ela não sabe é que Jacques tem dentro de si um ímpeto atávico para o crime contra a mulher, inebriado pela ideia de matar e de ver o sangue correr. Se o amor com Séverine aquieta esse impulso dentro dele (Il ne sentait plus sa soif de venger des offenses três anciennes dont il aurait perdu l’éxacte mémoire, cette rancune amassée de mâle en mâle, depuis la première tromperie au fond des cavernes. — Capítulo VI), o relato da amada, acorda-o e o faz pensar, mais uma vez, nessa ofensa ao macho, cujo rancor remontava às cavernas.

Lembremos que o romance experimental de Zola, tem por base o livro do médico e cientista Claude Bernard Introduction à l'étude de la médecine expérimentale, atrelando o escritor ao determinismo biológico, em voga na época. Jacques Lantier é filho de Gervaise (L’Assommoir) e irmão de Étienne (Germinal), nascido do tronco Rougon-Macquart, em cujos rebentos os desvios de caráter são recorrentes, além de afetados pela loucura e pelo alcoolismo. É pagar para ver, se a besta humana vai ou não despertar de vez e realizar o desejo longínquo de matar, que existe em Jacques, fazendo-o, na sua loucura, provar aquele prazer de um minuto que é mais do que toda uma existência — Oh! Donner um coup de couteau pareil, contenter ce lointain désir, savoir ce qu’on éprouve, goûtter cette minute où l’on vit davantage que dans toute une existence!.

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