A subestima não é grave erro apenas para os que tendem a avaliar desse modo as forças do inimigo, como exemplifica o dicionário Aurélio an...

Gestores da Academia

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A subestima não é grave erro apenas para os que tendem a avaliar desse modo as forças do inimigo, como exemplifica o dicionário Aurélio antigo. Deixar de ler um livro que se recebe ou de passar-lhe as vistas, se não constitui erro grave, resulta às vezes em prejuízo. Menos para o autor do que a quem é dedicado.

Não é meu costume. Talvez tenha sido numa fase em que a leitura dos consagrados se impunha fundamental. Mesmo assim, um acaso feliz obrigou-me a ver com mais cuidado os enjeitados da última divisão da estante. Eu era pretensioso e só lia com apuro e denodo de Eça para cima, se é que existia acima dele na língua que empapei simultânea ao mingau de farinha.

E aconteceu que me encontrava devolvendo à Biblioteca Pública o mais famoso romance do mundo, concebido e produzido sob o efeito, no próprio autor, do porre de arsênico de sua Bovary, quando topei com os pés numa brochurazinha encardida, já se puindo, com um título curioso: Recordações do escrivão Isaias Caminha. Escrivão em capa de livro só me ocorria o da Carta concupiscente de Vaz de Caminha. E estava ali, a meus pés. Apanhei e resolvi abrir, ali mesmo de cócoras, e lá me veio para começar: “A tristeza, a compressão e a desigualdade de nível mental de meu meio familiar, agiram sobre mim de um modo curioso: deram-me anseios de Inteligência”. Fui me levantando até a cadeira e dali não saí mais, até hoje.

Era a cadeira do claríssimo salão de janelas altas da biblioteca pública, na General Osório. Decidiu minha vida esse livrinho. E hoje, 69 anos depois, não sinto o menor arrependimento pelo rumo que a brochura andrajosa me aprontou.

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Quando meu saudoso amigo e confrade Luiz Hugo Guimarães publicou a “História da Academia Paraibana de Letras”, há vinte anos, eu me julguei inteirado do assunto, deixando a leitura para mais adiante, longe de imaginar o bem que viria me fazer tempos depois. Agora, que me ofereço para o registro, em obra coletiva, da presença impetuosa do professor Clóvis dos Santos Lima na presidência da APL, de julho de 1970 a 76, quando renunciou. Ele que era um forte, abdicou desolado com o tratamento dispensado pelo Estado ao projeto de uma sede que correspondesse aos ideais de grandeza dos que fundaram, já tardiamente, a instituição.

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Essa história concisa de nossa Academia, com prefácio do presidente Joacil de Brito Pereira, sóbria de informações e comentários, chega em boa hora, vinte anos depois de editada. É nela que vou encontrar, com as palavras do próprio Clóvis, a luta em que ele se empenhou para restaurar e ampliar a sede adquirida gloriosamente por Oscar de Castro.

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