Luizinho tem 10 anos, completou faz seis meses, perto do Natal. Como acontecia todas as manhãs, no dia do seu aniversário um beijo doce d...

A mãe de Luizinho

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Luizinho tem 10 anos, completou faz seis meses, perto do Natal. Como acontecia todas as manhãs, no dia do seu aniversário um beijo doce de mãe o acordou cedo, chamando para as aulas remotas dos tempos de pandemia. Estava em cima da hora. Comeu um pão com manteiga e tomou leite achocolatado enquanto conectava o celular e se debruçava na mesa cheia de material escolar.

Mais tarde a sala tinha se transformado. Agora a mesa mais lembrava um estádio de futebol, decorada com muito carinho. Sobre a toalha verde havia um mundo colorido com balões, bolas e camisas do Barcelona, o time preferido de Luizinho. Bem no centro um bolo com a estátua do ídolo Lionel Messi.

Pai e mãe entoaram os parabéns, esforçando-se para parecerem felizes na foto que mandariam para o grupo da família. Sem a presença dos avós, tios e primos faltava entusiasmo, além da gritaria e do corre-corre dos colegas mais chegados. Mesmo assim, Luizinho parecia feliz de verdade!

No dia 2 de abril, Sexta-feira Santa, pela madrugada, o menino ouviu a mãe tossir. E de manhã, como sempre acontecia, ela não veio até seu quarto para acordá-lo com o carinho de sempre. Pelo contrário, ela ouviu a porta do seu quarto bater:

- Mãe, a senhora está tossindo...

- Eu vou tomar alguma coisa e logo vai passar, meu bem! Seu café está pronto! Hoje não tem aula, então por que não dorme mais um pouco, filho?

- Eu estou preocupado com a senhora!

- Não é nada demais, Luizinho!

Mas a tosse foi se intensificando à medida em que o dia avançava. Veio a noite e ela já tossia muito. Depois tudo aconteceu de modo muito rápido. A outra madrugada trouxe dor no corpo, febre e um cansaço que evoluiu até ela não ter mais forças para falar. Depois de ser hospitalizada, o estado de saúde da mãe de Luizinho piorou mais e mais, dia após dia.

A família entrou em desespero. O choro da angústia era estancado com a força da fé e outra vez retomado pela dor da possibilidade da ausência definitiva. O menino se abrigava nos braços do pai, e os pedidos pela recuperação da mãe passaram a fazer parte das preces intermináveis, dos grupos de orações que já pediam pela saúde de outros doentes, pela alma dos que não resistiram e pelo consolo dos que ficaram.

E veio o que ninguém esperava, mas o que todos temiam: a intubação. Ela aceitara o anúncio com o silêncio de uma mãe que se despede do filho. De repente, tudo escureceu, inclusive para os que podiam olhar para o céu e divisar alguma luz de esperança.

“Às vezes, quando a dor da saudade é muito grande, tão grande que não cabe no peito, então a gente chora porque a lembrança insiste em dizer que o passado ainda não passou, e que continua a existir dentro da gente aquilo que parece não existir mais.”

Foram dias difíceis, de tristeza e incerteza. O pai de Luizinho chorava pelos cantos, na sua frente tentava confortá-lo, e até ajudava, mesmo assim faltava consolo porque nas horas de dor dilacerante somente a mãe pode aquietar o coração de um filho.

O pai passou a acordar Luizinho, que já não se concentrava nas aulas, e temendo o pior começou a prepará-lo para a dura realidade que se avizinhava. Desse modo, a angústia e a incerteza iam transformando a rotina daquela família.

Quando vinha a noite a solidão batia à porta do coração de Luizinho e mandava a saudade entrar, trazendo junto um choro mudo. Então começava a rezar baixinho a oração do Santo Anjo do mesmo modo que lhe ensinara a mãe. Se ela rezava pedindo proteção para ele, agora rezava pedindo proteção para ela. Adormecia com pedaços de oração entre os lábios, confiando que logo Deus a traria para casa.

Numa dessas manhãs o pai não conteve as lágrimas ao encontrar algo escrito no meio das tarefas do filho:

“Mamãe... Sinto falta do seu abraço, do beijo que sempre me dava na hora de acordar. Disseram que as mães são como rosas, e a vida como jardim, e por isso elas são as rosas do jardim da vida, e que servem para perfumar e encher esse jardim de cor e beleza. Disseram também que ela é o sereno que chega de manhãzinha para molhar o jardim. Deve ser por isso que você passava o dia tão bonita!

Nossa casa ainda existe, mas são somente o jardim, as paredes e o telhado. Mas isso não é existir porque a senhora não está aqui.

A sua falta chega quando a gente menos quer, e não sei por que, é a hora que eu mais queria que a senhora estivesse aqui. Ninguém é igual a você. Por isso, se tivesse de escolher alguém pra ficar perto de Deus ia dizer a ele que não podia ser você.

Queria que estivesse aqui para me dizer, baixinho, no meu ouvido: Dorme, meu filho, dorme porque amanhã você tem que acordar cedo.

Que saudade eu sinto, mãe!”


Sexta-feira, antevéspera do dia das Mães, ligaram do hospital.

O médico disse que ela estava reagindo, que tinha sido extubada e estava fazendo tratamento com oxigênio para os pulmões ficarem mais fortes.

Abraçando o menino, o pai disse baixinho:

- Mamãe acordou, filho!

Nesse domingo, dia das Mães, pela primeira vez sua mãe não estava presente, mas estava viva e se recuperava, e em breve voltaria para casa. À mesa, durante o café, pai e filho agradeceram a Deus pelo milagre da vida, e para celebrá-la uma festa seria feita no seu retorno.

Foi quando Luizinho lembrou do seu aniversário, do mundo colorido com balões, bolas e camisas do Barcelona, do bolo com a estátua de Lionel Messi. Ele parecia feliz de verdade, e como se gritasse silenciosamente para todo o seu coração ouvir, disse para si: “ – Messi, você é um grande jogador, mas ídolo eu só tenho um: a mamãe!”


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  1. Este comentário foi removido pelo autor.

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  2. Que conto emocionante! Parabéns, é uma narrativa que retrata bem os dias que estamos vivendo. Comovente e com um final cheio de esperanças. Terminei de ler em meio as lágrimas. Mais uma vez, parabéns pela escrita, é fantástico como vc nos prende do início ao fim.

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