Vem a ideia, o sentimento e, para quem fala, sobretudo para quem escreve, espera-se a consequente expressão, comumente pronta, depende... ...

A encrenca

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Vem a ideia, o sentimento e, para quem fala, sobretudo para quem escreve, espera-se a consequente expressão, comumente pronta, depende...

Bom, na fala é uma coisa, na escrita é bem outra. A fala corre autêntica, natural; a palavra ou a expressão sai no automático. Vem pegada na ideia.

Não sei bem, talvez fosse este o fundamento do Modernismo. Sabem disso, e muito bem, Ângela, Hildeberto, Milton Marques, Antônio Morais, José Mário e, acima deles todos, os poetas. Não sei, porém, se com os poetas, os verdadeiros, a coisa não se resolve espontaneamente. Os que deambulavam com Augusto dos Anjos, como Órris, José Américo, Santos Neto, Heitor Lima lá do Rio, contam que o seu verso já saía pronto, o poeta caminhando com eles, a fisionomia transformada, os dedos ritmando as sílabas, e a poesia se soltando, vindo à luz.

Aqui, por exemplo, se eu não estivesse escrevendo, estivesse em conversa, não tinha penado duas vezes para omitir o parindo. Trocar a fala pela escrita.

No primeiro capítulo de São Bernardo, quando Paulo Honório convoca Azevedo Gondim, o redator empreitado, para saber em que pé ia o romance, surge essa encrenca diante das primeiras páginas apresentadas: “Vá para o inferno, Gondim. Você acanalhou o troço. Está pernóstico, está safado, está idiota. Há lá ninguém que fale dessa forma?”

Azevedo Gondim “replicou amuado que um artista não pode escrever como fala”.

Não pode por quê? Azevedo Gondim respondeu que não pode porque não pode.

Eu também responderia como ele. E está aqui um exemplo. Desde a madrugada de ontem me ocorrera escrever sobre assunto que, ao teclar a primeira frase, logo de manhã, estanquei na palavra ´embevecer’. Dizia assim: “Embevece-me saber como vivem os escritores”. E entra Paulo Honório, o coronel de São Bernardo na minha pele: Embevecer, por que embevecer? Está fresco, isso.

E fiquei variando, variando, procurando a expressão conforme eu sentia. Agradar era pouco, atrair não era. Por que não recorrer ao Pequeno Dicionário que Aurélio tomou para si, montando um outro a ponto de sepultar os nomes dos primitivos lexicógrafos e colaboradores?

Para o que eu sentia, o que veio de cabeça foi, realmente, embevecer, sentir enlevo. Lírico, pois não. Diferente de Ascendino Leite, que se dizia dispensado de dicionário, fui ao velho léxico e nenhum vocábulo alinhado como sinônimo ou assemelhado correspondeu ao meu desejo.

Diacho, Azevedo Gondim tem razão. Será que Graciliano escrevia como falava? A lenda é que o prefeito de Palmeira dos Índios falava pouco. No banco da praça de Maceió, com Zé Lins, diz ele próprio que só Zé Lins falava. De tanto falar e torcer pelo Flamengo, admirava-se de sobrar-lhe tempo para escrever o romance efetivamente moderno que escreveu. Aí vem Raquel de Queiroz, que enturmava com eles, e mata a charada: “É que ele escreve como fala.”

E terminei escrevendo o que não estava nos planos. E mais fora ainda com essa alusão ao dicionário de Aurélio, grande dicionário, mas uma tumba funda com pequeno epitáfio para os primitivos donos da obra, do Pequeno (despretensioso) Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa, organizado por Hildebrando de Lima com a colaboração do que havia de mais eminente nas ciências, nas letras, nas artes e na linguagem popular. Se você pegar a edição de 1957, que já é a 9ª de Hildebrando, Manuel Bandeira e João Baptista da Luz e a 10ª, já com Aurélio, e sair lendo o elenco de colaboradores (Antenor Nascentes, Fernando de Azevedo, Francisco Venâncio, Carpeaux e dezenas de iguais) você termina ajoelhado.

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