Em texto publicado em 17.8.2009 na Folha de S. Paulo, Luiz Felipe Pondé comenta um encontro recente com um amigo de infância. Segundo ele,...

Amigo de infância

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Em texto publicado em 17.8.2009 na Folha de S. Paulo, Luiz Felipe Pondé comenta um encontro recente com um amigo de infância. Segundo ele, “esses encontros são marcantes para mim porque sempre acabo percebendo como hoje sou outra pessoa. Diante das lembranças compartilhadas, a distância no tempo se impõe como distância no afeto”. Ou seja, o que Pondé está corajosamente afirmando é que para ele o amigo de infância de certa forma tornou-se um estranho, ou quase. Em outras palavras, o tempo e a distância consumiram o antigo afeto, a antiga amizade que o ligava ao velho amigo.

Talvez se penitenciando com sua fria reação ao antigo companheiro, Pondé continua no mesmo texto: “Talvez falte em mim algum tipo de afeto duradouro, ou eu seja uma dessas pessoas miseravelmente volúveis que esquecem
quase tudo com o tempo. Ou talvez, pior ainda, eu seja excessivamente preso ao cotidiano e, por isso, minhas amizades só sobrevivam no dia a dia”. Pobre Pondé, pensei com meus botões, desculpe o clichê.

Claro que respeito a maneira de ser do filósofo; afinal, quem pode fugir do que se é ou do como se é? Somos o que somos, sem prejuízo de eventuais esforços para, quando é o caso, melhorarmos a nós mesmos. Também não estou fazendo juízo de valor sobre sua reação mais ou menos fria ao ver-se frente a frente com um camarada de sua meninice. Sua atitude, creio, não está sujeita a julgamento; no máximo, submete-se a uma análise, que é o que busco fazer agora. Mas volto a afirmar: Pobre Pondé.

Porque uma das riquezas da vida é exatamente as amizades da infância que resistem ao tempo e às provações da existência, conservando-se como tesouros ao nosso dispor, principalmente nas horas – tão necessárias – de se voltar aos começos. O velho Goethe concluiu que “o mais feliz dos homens é aquele que consegue ligar o fim de sua vida ao início”. E como fazer essa ligação, pergunto eu, sem a ajuda dos velhos amigos, que compartilharam nossas vivências, desde as primeiras? Há uma frase de que gosto muito, cujo autor não lembro: “As amizades se baseiam em experiências compartilhadas”. Verdade. Daí serem rasos os vínculos formados apenas nos salões de festas e nas mesas de bares e restaurantes. Ou os gerados na teia dos interesses da política, das finanças ou da simples mundanidade. Falta-lhes, para dar-lhes profundidade e consistência, justamente a base e a prova que
só uma existência repartida - com seus altos e baixos, suas dores e alegrias - pode lhes dar. É o que diz também a sabedoria popular: “Só pode ser considerado verdadeiramente amigo aquele (ou aquela) que comeu um quilo de sal com o outro”.

Tenho a graça e a sorte de ter um amigo de infância. Um amigo que permanece como tal – e cada vez mais – desde a tenra idade. Sempre presente em minha vida, participando de minha caminhada no mundo, solidário e fiel. Esta é a minha amizade sobrevivente dos começos, já que o outro camarada desses tempos já distantes partiu mais cedo, infelizmente. Amigos da adolescência, verdadeiros, tenho uns três ou quatro (é o bastante, acredite), também preciosos personagens de minha biografia, companheiros que povoam meu dia a dia com afeto e reminiscências. Todos amigos há mais de meio século. E se falei em reminiscências é porque até hoje, quando nos encontramos, é sempre o passado, as experiências juvenis vividas e as pessoas que cruzamos nessa época um dos temas inevitáveis e prazerosos de nossas conversas sem fim. Será por isso que Machado de Assis escreveu: “O passado ainda é a melhor parte do presente”? É possível.

E existem boas amizades recentes? Claro. Mas essas, por ainda não terem sido testadas nas horas difíceis, não poderão nunca receber antecipadamente o selo de qualidade das amizades antigas. Há que se esperar o teste incontornável do quilo de sal acima lembrado. E tem mais uma coisa que é exclusiva do amigo de infância, quando é de fato um verdadeiro amigo: é que com ele, mesmo em silêncio, estamos sempre conversando, num diálogo e num entendimento que dispensam as palavras. Tal fenômeno extraordinário às vezes acontece com velhos amantes ou com pais e filhos que se amam – e com mais ninguém.

Há uma situação delicada que envolve amigos de infância que ficam muito tempo sem se ver. É quando um se deu melhor na vida do que o outro. Melhor aqui se refere às condições materiais e externas da existência. Às vezes isso cria uma saia justa para um dos amigos ou para ambos. Não raro, a velha amizade não resiste a tais circunstâncias. Já quando os velhos amigos continuam se vendo pela vida afora, o fato de um ser melhor sucedido que o outro pesa menos. Num caso como no outro, tudo isso precisa ser administrado com tato e sabedoria, para não ferir suscetibilidades de ninguém.

Aristóteles, na Ética a Nicômano, afirmou que “sem amigos ninguém escolheria viver, mesmo que tivesse todos os outros bens”. É certo. Pois uma vida sem amigos verdadeiros é como uma vida sem amor: não vale a pena ser vivida. E nesse cenário, ninguém mais valioso que o(a) amigo(a) de infância, aquele ou aquela que mais nos conhece e ainda assim continua a nos querer bem.

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