No segundo ano de pandemia, em que mais uma vez os festejos juninos foram sem graça, consola-me recordar o tempo recluso na memória. Sã...

Festejos juninos sem graça

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No segundo ano de pandemia, em que mais uma vez os festejos juninos foram sem graça, consola-me recordar o tempo recluso na memória. São João sem fogueira, quadrilhas juninas (hoje as quadrilhas imitam escolas de samba), comidas de milho e boas conversas, não agradam.

Na época de criança no sítio Tapuio, que continua compondo a paisagem da memória afetiva sempre recordada como alimento para a paz do espírito, alguns lembravam das festas juninas na fazenda quando nossos antepassados ali chegaram, de carro-de-boi e facão, abrindo veredas para plantar esperança e cultivar família.

Partindo das fazendas, passando pelos engenhos e pelos sítios, nesse período, para celebrar o nascimento de João Batista, santo que no Nordeste é bastante venerado e amado, sempre houve muita animação. Fogueiras eram montadas nos terreiros das casas, usando a lenha cortada com antecedência, e queima de fogos.
Geralmente ocorriam novenas em honra dos três santos, encerradas com momentos inesquecíveis porque as orações e benditos emocionavam. Em algumas fazendas, ao gosto do patrão, em latada, havia samba que durava até alta madrugada.

- Vó, conta como era o São João de sua época!

No dia de São José, em dia de Santo Antônio ou São João, segundo a tradição e devoção, em frente das casas fincava-se mastro de bambu coberto de papel e no alto bandeira azul, que seria arriada nos festejos de São Padro. Como promessa, famílias mantinham a bandeira no terreiro durante todo o ano. Outro folguedo bacana era “furtá” a bandeira do vizinho. Obtido êxito, guardada com zelo, esta seria devolvida na festa do ano seguinte, em procissão e cânticos ao santo do dia.

Momento esperado também era quando, à beira da fogueira, tomava-se como padrinho ou madrinha pessoas de sua predileção, desde que já fossem batizadas.

Acontecia assim: o menino ou a menina escolhia uma pessoa para padrinho ou madrinha de fogueira. Esse tipo de batismo também se dava entre adultos. Usando paus acesos da fogueira, colocados no chão em forma de cruz, segurando a mão um do outro sobre os tições fumegantes, pronunciavam as palavras, repetidas três vezes, seguidamente: “São João disse, São Pedro confirmou que eu fosse sem padrinho (ou madrinha), que Jesus mandou”. A criança repetia: “São João disse, São Pedro confirmou que eu fosse seu afilhado (ou afilhada), que Jesus mandou”.

Quando o rito acontecia durante os festejos de São Pedro, apenas invertia os dizeres: “São Pedro e São Paulo, São Felipe e São Tiago e todos os anjos da corte do céu sejam testemunhas que eu sou seu padrinho” e o outro respondia: “e eu o senhor meu afilhado”.

Entre os jovens residentes em paisagens rurais, alguns formulavam a intenção, com juramento, junto da fogueira de São João, de se tornarem “compadres”. Ficavam amigos e camaradas em frutífero relacionamento. Se havia alguma dissentimento entre ambos, era a forma de reconciliação.

Para não fugir à regra, eu tenho uma madrinha com batismo de fogueira. Isso se deu quando ainda morava no sítio, há quase seis décadas.

Assim acontecia no lugar onde nasci, uma tradição espalhada há muito tempo pelo Nordeste.

Sem essas brincadeiras, tão puras e tão simples, os festejos juninos ficaram sem graça.

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  1. As origens se esfumam no tempo: ao Deus Juno, se acendiam fogueiras nas ruas de Roma, e estas viraram efemérides regulares depois que Júlio César criou o calendário com a inserção de um mês dedicado a esse Deus pagão. Com a ascensão do Cristianismo vieram os sincretismos produzidos pela Igreja Católica, quando a cada dia do ano corresponderia um santo da igreja. De Juno ficou apenas a nota do mês.

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  2. Lembrando que o termo “pagão” significa tão só uma demonização dos não católicos, e a instituição da santidade uma tentativa de substituir na cabeça do povo o panteão dos semideuses do olimpo.

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