Lendo agora as memórias de um intelectual brasileiro que acompanhou de perto, e atentamente, o desenrolar da célebre revolta estudantil, a...

Eles só queriam fazer amor

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Lendo agora as memórias de um intelectual brasileiro que acompanhou de perto, e atentamente, o desenrolar da célebre revolta estudantil, até hoje comentada e que iria se espalhar pelo Ocidente, pus-me a refletir sobre a imprevisibilidade de certos acontecimentos da história. Não de todos, concedo, pois que existem aqueles cujas premissas vão se formando de forma tão clara e inequívoca, à vista de todos, que sua eclosão não chega a surpreender, já que vêm marcados pelo selo das coisas inevitáveis. Mas em muitos casos, não há dúvida de que os acontecimentos surgem fora de qualquer previsão, desencadeados por causas às vezes banais, só podendo ser compreendidos a posteriori,
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quando o são. O maio parisiense de 1968 é ilustrativo a esse respeito.

Em suas modestas origens, a revolta estudantil que tanto abalou o mundo ocidental não teve nem motivação nem objetivos políticos, rigorosamente falando. Celso Furtado, que também vivia em Paris à época, chegou a dizer expressamente ao nosso memorialista: “Aqui não vai ocorrer nada especial; De Gaulle anda pelas ruas e é aplaudido, enquanto Luís XIV, o Rei Sol, era vaiado”. Veja só. Isto teria sido dito em fevereiro de 1968. Apenas três meses depois, em maio, sem que ninguém desconfiasse, explodiria a tempestade libertária que entrou para a história do século XX. E tudo começou em Nanterre e não em Paris propriamente, apesar de que Nanterre é uma comuna que pertence à região metropolitana da capital francesa, situada nas redondezas da grande cidade. Em 1964, como resultado da divisão da Universidade de Paris, foi criado um campus na referida comuna, o qual passou a constituir a chamada Universidade Paris Nanterre, onde estudou, por exemplo, o atual presidente francês, Emmanuel Macron. Foi ali que tudo começou.

O problema em Nanterre, pelo menos inicialmente, não era de ordem política nem institucional, e sim de caráter sexual. Sim, isso mesmo: sexual, banalmente sexual. Ocorre que no mencionado campus, à época, onde o sexo já corria solto mesmo sem as facilidades trazidas posteriormente pela pílula anticoncepcional, havia uma distorção curiosa: “os rapazes não tinham permissão para entrar no dormitório das moças, embora o contrário fosse aceito”.
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À primeira vista, parece-nos que, na verdade, não havia problema nenhum, pelo menos nada que justificasse os protestos subsequentes, pois se as moças podiam ir livre e impunemente ao dormitório dos rapazes, nada havia de real que obstaculizasse os relacionamentos íntimos entre os estudantes. Mas a coisa não foi encarada assim por estes últimos. Os rapazes queriam ir aos quartos das moças e fizeram disso um cavalo de batalha. Talvez por puro tédio, já que originalmente não existiam outras reivindicações e a França, aparentemente, vivia um momento de paz e prosperidade. À falta, portanto, de outras bandeiras, levantaram a que estava mais à mão (ou no ventre) naquele momento, ou seja, o estandarte comportamental que exigia maior liberdade sexual no campus.

Vê-se, assim, que o célebre slogan “É proibido proibir”, que tanto foi usado pelos jovens ao redor do mundo para os mais variados fins libertadores, no início referia-se simplesmente ao prosaico impedimento de os rapazes visitarem as namoradas em seus quartos no campus. O que eles queriam dizer, de início, era o seguinte: É proibido proibir que nós possamos transar livremente nos dormitórios universitários femininos. Apenas isto.

Entretanto, sabemos nós, que já fomos estudantes e jovens, tudo que envolve esse pessoal potencialmente explosivo, sabe-se como começa, mas não se sabe como termina. Foi o que se deu em 1968, em Paris. Os tímidos e restritos protestos estudantis logo se espalharam para outros setores universitários e segmentos sociais, englobando também operários, de modo que, rapidamente, a conflagração envolveu outros atores e outras reivindicações, chegando ao ponto de ameaçar a própria permanência do presidente De Gaulle à frente do governo.

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Vê-se hoje que por baixo do simples tédio existiam, provavelmente de forma dispersa e ainda não racionalizada, várias outras insatisfações estudantis e sociais na calma França daqueles tempos. Os fatos mostraram. E o mundo ocidental nunca mais foi o mesmo a partir de então. O que começou como um limitado e banal apelo sexual ampliou-se de maneira desmesurada, com consequências sociais e culturais imensas. Mas uma coisa é indiscutível: o que Daniel Cohn-Bendit e seus colegas “revolucionários” queriam mesmo era tão só o acesso às camas de suas namoradas. E assim o inocente estopim foi aceso. E sem que ninguém pudesse imaginar, o sexo extravasou para a política. E o que começou modestamente num subúrbio de Paris alastrou-se pelo mundo.

No Brasil também repercutiu a revolta dos estudantes franceses, mas aqui os protestos e as passeatas estudantis tiveram motivação menos comportamental que política, já que vivia-se o período que antecedeu e sucedeu ao famigerado Ato Institucional nº 5, de dezembro de 1968, marco legal da explicitação da ditadura militar. Aqui o que se queria não era fazer amor, mas restabelecer a democracia. Como se vê, coisa de país atrasado e de periferia, infelizmente.

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  1. Em nome dessa tênue chama - uma senhora de 53 anos - aposentados com direitos financeiros e sanitários ameaçados, estão voltando às ruas de Fortaleza e Porto Alegre. Apenas lembrando.

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