Um homem que chora com os adágios da 8ª sinfonia de Bruckner e da “Nona” de Beethoven. Um homem que exulta com o canto da cotovia da Sinfo...

Há 98 anos...

literatura paraibana cronista carlos romero aniversario nascimento musica classica
Um homem que chora com os adágios da 8ª sinfonia de Bruckner e da “Nona” de Beethoven. Um homem que exulta com o canto da cotovia da Sinfonia Pastoral, vibra com a tempestade e, logo depois, se enternece quando os trovões se acalmam na seguinte "canção dos lenhadores”.

Um homem que mareja os olhos ao ouvir o Cisne de Saint-Saëns e a Ave Maria de Schubert. Que brinca com a ideia dos esqueletos bailando e rangendo os ossos, à meia noite, num cemitério sombrio, da Dança Macabra.
Que imagina labaredas flamejando na Dança Ritual do Fogo, de Manuel de Falla, e era capaz de sacolejar o corpo com a Dança do Sabre, de Kachaturian.

Um ser que se empolga no imaginário sonoro de Korsakov, às Mil e Uma Noites, presta imensa e compenetrada atenção ao corne-inglês do Largo da Sinfonia do Novo Mundo, de Dvorak, e se comove com os arpejos pianísticos no Moderato do “Segundo de Rachmaninoff”. Capaz de entrever na rotina temática do Bolero de Ravel um colorido mágico e crescente rumo ao ápice orquestral que lhe encanta sob êxtase jubiloso. Assim como mentaliza a chegada triunfal ao cume panorâmico descrito por Strauss, no “topo” da Sinfonia Alpina.

Um homem que atendeu ao pedido de sua primeira esposa para que, se desencarnasse antes, o seu velório transcorresse ao som do 2º concerto para piano de Rachmaninoff. E assim foi. Mais de trinta anos depois, ainda escutamos as pessoas dizerem: “Foi o velório mais lindo que eu já vi”...

Um homem que “chorava” música. Que não gritava, não se exaltava, não agredia, não sabia o que era grosseria, não tinha inveja de ninguém, exceto em cultuar eloquente reverência aos maestros e comandantes de avião. Como admirava-os!

Um cronista da vida, da leveza, do humor e da poesia que em tudo via. Que ao escutar o histérico cacarejar de uma galinha, após botar um ovo, dizia que o galo decerto havia lhe contado uma piada muito engraçada para ela gargalhar tão descontrolada.

Ele era assim. Ele é assim. Um homem capaz de sair com um gravador de pilha na mão, com água nas pernas, para captar o coaxar dos muitos sapos que enchiam a nossa rua de bucolismo noturno, quando se alagava tornando-se "navegável" no inverno. Daí falou com o então prefeito para trocar o nome da rua para Nossa Senhora dos Navegantes. Imagine só...

Nas noites mágicas de Baía Formosa, transcendia o mundo terreno, escrevendo ao som das Sinfonias de Mahler, Sibelius, Shostakovich, das Cantatas de Bach (tinha todas), misturadas ao tic-tac da máquina datilográfica
e ao exuberante marulho que, de tão próximo, parecia estar dentro de casa. E estava! Todo, inteiro, se abraçando com os apaixonados poemas sinfônicos, sua imaginação criativa e o fino talento que nos rendiam deliciosas crônicas e suaves lições de viver.

Um homem doce, feliz, musical, apaixonado e iluminado, que ajudou a fundar a Orquestra Sinfônica da Paraíba, patrimônio criado pela força e empenho dos amigos da Sociedade de Cultura Musical, na década de 40. Criou, incentivou, acompanhou, assistiu e dela usufruiu momentos indeléveis de puro amor e emoção. Até a sua segunda e amada esposa, a boadrasta Alaurinda, ele nos trouxe de dentro da Orquestra.

Afinal, foi sempre através da música que se inspirou na vida terrena, para refletir, imaginar, criar e evoluir. Agora, música ainda mais sublime, intrínseca à visão espiritual paradisíaca e à paz de consciência, decerto abunda em seu cotidiano. Que de lá ele possa sentir toda nossa gratidão no dia de hoje, 98º aniversário de seu nascimento, e continue a nos enviar as mais afáveis vibrações de amor, de música, e sobretudo de bondade e sabedoria, em que ele é mestre.


comente
  1. A gente lê um texto como esse, seu, e diz "a vida vale a pena".

    ResponderExcluir
  2. Só quem conviveu um pouco com o Cronista de Tambaú pode avaliar suas lindas palavras, Germano. E o nome disso é Amor. Parabéns!

    ResponderExcluir
  3. A música eterniza, tanto àqueles que a compuseram como àqueles que sabem apreciar.
    Que beleza de texto... Um presente para Carlos Romero, que deve estar agradecido, onde quer que esteja.
    Parabens, Germano!

    ResponderExcluir
  4. Muito grato, José Mário, Vicente Gayoso e maestro Solha, pelas sensíveis considerações.

    ResponderExcluir

leia também