Num tempo em que a cultura brasileira, a da elite ou acadêmica, trata Marx como despojo da URSS, como coisa de um remotíssimo passado, as ...

Máximas de Marx

Num tempo em que a cultura brasileira, a da elite ou acadêmica, trata Marx como despojo da URSS, como coisa de um remotíssimo passado, as Máximas de Marx, relidas por um paraibano que é exceção na alienação geral, o intelectual Walter Galvão, me fazem lembrar a lição que recebi, em carta, de um raro brasileiro da sua estirpe e de igual coerência, meu saudoso amigo Moacir Werneck de Castro.

A União Soviética se dissolvera em Congresso, prorrompia o Consenso de Washington, o presidente Fernando Henrique Cardoso proclamava virada a página de lutas subterrâneas pela nossa soberania, enquanto a dialética marxista ficava de cabeça baixa sob as luzes florescentes do PT. Florestan Fernandes se recolhia e o Partido Comunista tornava-se irreconhecível.

Vem o Moacir da minha admiração com as palavras mais simples: “O ideal socialista, que consiste em acabar com a desigualdade social, tem fundas raízes na História. Não morre nos corações e mentes só porque tenha falhado na sua aplicação em alguns países, por vastos e populosos que sejam”. Morreu na crença de que não é episódico esse ideal, tem raízes fundas e, onde encontra meio fértil desponta vigoroso porque é exato.

Este “potente porque é exato” , embalado num manual desse mesmo gênero das Máximas de Marx eu pude colher em M. Rosental, o mesmo manual que influiu na formação política de companheiros como João Manuel de Carvalho, Adalberto Barreto, Janiro Pontes Costa, militantes e idealistas que nunca se despregam das raízes.

Coincidência: vejo agora o informe sobre o livro de Walter Galvão quando leio o diário de Drummond, O observador no escritório, que eu desconhecia e Paulo Emmanuel descobre no sebo. Uma preciosidade que não estava nos meus cálculos. A convivência literária, artística e política trazida da intimidade para um leitor que vai reencontrar, de perto e por dentro, figuras e emoções que alimentaram toda uma vida de aprendizado cultural e político.

A coincidência reside na queixa registrada por Drummond de não ter lido a tradução, por Eneida, dos Textos Marxistas Sobre Literatura e Arte, de um tal Fréville, uma das cobranças de Geraldo Sobral, escrevendo-me do Rio e sabendo da rotina precária de nossas livrarias, salvo a dos irmãos Macedo e a de Bartolomeu, apesar da euforia editorial das esquerdas nos anos 1950.

Não me surpreende esse esforço de leitura e análise de Galvão em face do contexto alienado em que vivemos. Nesse quase meio século de militância intelectual e literária ele soube mesclar a seu e nosso contentos as indagações que a vida não consegue separar, nem mesmo em Marx, as de natureza emocional, literárias e as de puro pensamento. Bem jovem, sentado ao meu lado nuns degraus de acesso à redação de A União, já não me perguntava qual o favorito no Fla-Flu do domingo. Alegrava-se com outros jogos, noutros campos, que também não sei se os animava.

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