Nem parece quase verão. Chicago, eternamente açoitada por ventos fortes, encara uma tardia onda de frio. Subo a gola do casaco enquanto ...

Para trás ficarão as janelas

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Nem parece quase verão. Chicago, eternamente açoitada por ventos fortes, encara uma tardia onda de frio. Subo a gola do casaco enquanto arrasto a mala pequena pela calçada. Diante da Union Station, café, croissant e um gosto de liberdade. Estar só é um prazer que nem a pandemia abalou. Ao contrário: cada vez mais valorizo a companhia dos meus pensamentos, o diálogo interno com uns filósofos mortos e o mastigar constante das ideias para o próximo livro.

Como declaração de independência, decido tomar sorvete. Mas está frio! Quero assim mesmo. A ninguém devo satisfação – saboreio as palavras. De onde estou, a visão do rio parece inadequada. Águas rompem a arquitetura monumental e se refletem nos prédios espelhados. Parece artificial, como uma colagem. Relaxo o corpo na cadeira de ferro e não consigo evitar um sorriso: um grupo de mulheres Amish acena para os turistas numa barca.
Outro descompasso. Roupas do século dezoito, toucas brancas na cabeça, as mãos se movendo em câmera lenta, numa coreografia improvável no coração da metrópole. É hipnótico. Não tiro os olhos delas. O sorvete pinga no casaco preto. Também escorre pelos meus dedos.

Especulo sobre o que pensam aquelas mulheres enquanto acenam no centro de Chicago. Eu as vi, mais cedo, limpando as bocas dos filhos que comiam sanduíches do McDonald’s e lhes arrumando as roupinhas muito limpas. Os maridos de camisa azul, chapéu antigo, colete preto e suspensório. Todos usam barbas e penteados de tempos passados. Parecem figurantes de algum filme de época que foram almoçar ainda usando a maquiagem.

Espero flagrar nos Amish algum desconforto. Nada. Todos parecem sossegados e à vontade. Pedem asinha de frango, salada com molho ranch. A vendedora demora a entender por causa do sotaque. Eles repetem.

Na escadaria da estação, uma policial chama a atenção da mulher que se recusa a usar máscara e responde com grosseria. Uma outra começa a falar sozinha, em voz alta. A moça Amish, de touca, vestido azul-marinho e óculos redondos, fala algo ao marido. Ele sacode a cabeça e sai. Tem ainda alguma acne adolescente no rosto de bochechas rosadas. Novos personagens descendo os mesmos degraus em que Brian De Palma filmou a cena antológica de Os Intocáveis.

Estamos à espera da viagem. Eu, a moça que fala sozinha, a malcriada sem máscara, as mulheres Amish. Imaginamos que somos livres, que seguimos nossas próprias regras. De repente rio, com gosto. Liberdade, eu disse? Não sou diferente das Amish que usam carroças de tração animal no dia-a-dia e estão prestes a embarcar num trem.

Quem tem liberdade nesse mundo? Não eu, por certo. As mulheres Amish vão descer do comboio em algum lugar da Pennsylvania. Eu vou desembarcar na California. Um breve momento de escape e logo a realidade se imporá a todas nós.

Três dias num trem. A paisagem brilhante passará pela janela em ritmo frenético. Vou tentar capturá-la. Das milhares de fotografias restarão poucas aproveitáveis. Na memória do celular não cabe tudo o que vejo. Patética tentativa de apreender o mundo e congelar o momento.

Depois virá o cotidiano. Para trás ficarão as janelas amplas a mostrar desertos e revelar rios descendo montanha abaixo.

Abro a bolsa e aperto o bilhete que me permite ficar sozinha por três dias. Meu passaporte para um tempo de liberdade é brevíssimo, mas será desfrutado com entusiasmo. Vou vivê-lo intensamente, murmuro baixinho. Nada de fazer planos e distrair a mente enquanto o cenário lá fora fica para trás em vertiginosa velocidade. Depois de mim, outros ocuparão a cabine, deslumbrados com as mesmas cenas.

Esse aproveitar dos segundos é minha missão. A vida sorvida com intensidade, como um sorvete de chocolate em tarde de sol. Deixará um gosto bom na boca. Ou manchas no casaco. Eu decido o que carrego nesse “comboio de corda que se chama coração”.

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