Se há um tipo de texto que prioriza o sortilégio das palavras (mesmo que em detrimento do conteúdo) à procura de um encanto, este tipo de ...

O ofício do nada

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Se há um tipo de texto que prioriza o sortilégio das palavras (mesmo que em detrimento do conteúdo) à procura de um encanto, este tipo de texto é a crônica. Bem sei que todo texto literário faz um uso retórico das palavras e procura encantar, mas um romance (ou um conto, um poema) tem (ou procura ter) uma densidade que uma crônica não ambiciona alcançar – em outras palavras: tudo que é dito pela crônica é supérfluo, ou, ao menos, secundário: o que importa mesmo é o jeito como a crônica se diz.

Decerto, na poesia, a linguagem tem preponderância sobre tudo que a língua encena, mas também não é isso que refiro; na poesia, as idéias e a linguagem certamente produzem uma correlação estrutural única que enlaça forma e sentido num “pas de deux” em que as partes se harmonizam num milagre verbal.

Não acontece assim com a crônica. Na crônica, ao contrário, idéia não importa, assunto não importa, estrutura não importa: o que importa é a leseira verbal, é aquela conversa sem pé nem cabeça, conversa de namoro inaugural, em que todos os meios quase nada têm a ver com os fins.
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Disse “quase” porque existe algum fim na crônica, e este é conversar com o leitor, seduzir-lhe o olhar para ser ouvido; ou seja: para ser lido com um tipo específico de prazer que só o inefável mistério de determinadas palavras consegue produzir.

Como, algumas vezes, a crônica narra uma história, não é incomum confundi-la com um conto; mas há, no conto, uma exigência de coesão estrutural (da mesma ordem que há na poesia) que geralmente a crônica não busca. Fácil mesmo é perceber a diferença entre crônica e artigo. O artigo procura sempre informar, é escravo de idéias, procura sempre mostrar a verdade (por isto diz tanta coisa falsa, promove tanto equívoco), procura, sempre que possível, gerar polêmica: ou seja: chamar a atenção para o autor do artigo. Artigo é como discurso em aniversário. A crônica é o bolo do aniversário. A crônica faz ouvido de mercador para a informação, ri das idéias, não acredita na verdade, foge da polêmica. Ou seja: a crônica não chama a atenção para nada – a não ser para o bordado verbal que vai tecendo, e, com este têxtil trabalho, quer apenas entreter (muitas vezes, até ludibriar) o leitor.

Mesmo nas crônicas em que a voz lírica é o eixo de tudo, essa voz parece estar sempre pedindo o apoio do leitor. Outro elemento que caracteriza a crônica é a leveza. Mesmo tratando de coisas graves, há que vesti-las de domingo, de vago, de delicadeza. A crônica quer ser descomprometida como essas evanescentes conversas de vizinhos (hoje sobreviventes apenas nos arrabaldes) confortavelmente sentados em espreguiçadeiras, nas calçadas, no início da noite, jogando conversa fora.

Há um poema de Manoel de Barros chamado “Inutensílio”. Acho que nenhum nome é mais apropriado à crônica. A crônica é, sem dúvida, um inutensílio. A crônica é pura enrolada verbal. É conto de vigário, descartado o prejuízo. É conversa de camelô (naturalmente que sem os fins pragmáticos dos camelôs). Por falar em fins, ao contrário do pragmatismo amoral, na crônica, os meios justificam os fins, como em toda atitude ética.

A crônica é pura literatura. É a poesia que se desfolha nas conversas fiadas. Ou seja: a crônica não passa de mera prosa: “é uma (p)rosa, é uma (p)rosa, é uma (p)rosa.”

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  1. Excelente texto, Morais. E me lembrei de Cony que dizia que Rubem Braga do nada fazia uma crônica. E Cony acrescentava (se referindo ao esquecido cronista Humberto de Campos): Ele nem precisava do nada.

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    1. Grande Flávio, velho amigo, meu parceiro em tantas partidas de time de botão, na nossa adolescência, hoje meu colega de blog: obrigado pela leitura e pela valorização do texto.

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    2. Grande Flávio, velho amigo, meu parceiro em tantas partidas de time de botão, na nossa adolescência, hoje meu colega de blog: obrigado pela leitura e pela valorização do texto.

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