Dois soldados, duas guerras, dois textos e dois contextos diferentes. Eis um elo entre Arthur Rimbaud (1854—1891) e Euclides da Cunha (186...

Euclides e Rimbaud

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Dois soldados, duas guerras, dois textos e dois contextos diferentes. Eis um elo entre Arthur Rimbaud (1854—1891) e Euclides da Cunha (1866-1909). O poeta francês, chamado por Verlaine de “Satã adolescente”, por sua vida conturbada, tem um belíssimo soneto intitulado “Le Dormeur du Val” (“O Adormecido do Vale”), publicado em 1870, que encontra eco em uma passagem do Capítulo III de “A Terra”, a primeira parte de Os sertões, livro de 1902, mas que começou a ser escrito a partir de 1897.

Se o soldado real descrito por Euclides da Cunha lutou na Guerra de Canudos (1896-1897), no sertão da Bahia, o soldado poetizado por Rimbaud lutou, ao que tudo indica, na Guerra Franco-Prussiana (1870-1871). A diferença entre os dois reside no fato de que Euclides da Cunha foi enviado, na condição de correspondente do jornal O Estado de São Paulo,
CC0
para cobrir a Guerra de Canudos, a partir da 4ª Expedição. Rimbaud, por sua vez, conheceu as notícias da Guerra Franco-Prussiana pela imprensa, porque dela foi contemporâneo, mas nunca chegou nem perto do front, no leste da França, região que faz fronteira com a Alemanha, ainda que se avente a hipótese de ele ter se ligado à efêmera Comuna de Paris (18 de março – 28 de maio de 1871), uma das consequências dessa guerra.

Em Euclides, a estranha situação do relato de um soldado morto, que serve de higrômetro natural, medindo a secura do sertão. Em Rimbaud, a recriação de uma visão surpreendente de uma guerra, que foi, a julgar pelo romance de Émile Zola, La débâcle (1892), uma carnificina irracional.

Vejamos inicialmente o soneto de Rimbaud e sua tradução por nós. Esclarecemos que a nossa tradução é operacional, sem qualquer preocupação estética. A nossa única intenção é dar condições a quem não lê francês de poder compreender o poema. Aqueles mais exigentes, que querem apreciar o poema e ter a sua experiência com a estesia que ele provoca, não se fiem nas traduções e busquem lê-lo no original.

Le dormeur du val
Arthur Rimbaud C'est un trou de verdure, où chante une rivière Accrochant follement aux herbes des haillons D'argent; où le soleil, de la montagne fière, Luit: c'est un petit val qui mousse de rayons. Un soldat jeune, bouche ouverte, tête nue, Et la nuque baignant dans le frais cresson bleu, Dort; il est étendu dans l'herbe, sous la nue, Pâle dans son lit vert où la lumière pleut. Les pieds dans les glaïeuls, il dort. Souriant comme Sourirait un enfant malade, il fait un somme: Nature, berce-le chaudement: il a froid. Les parfums ne font pas frissonner sa narine; Il dort dans le soleil, la main sur sa poitrine, Tranquille. Il a deux trous rouges au côté droit.

O adormecido do vale
Arthur Rimbaud É um buraco de verdura, onde canta um riacho Pregando loucamente à relva farrapos De prata; onde o sol da montanha orgulhosa Brilha: é um pequeno vale que espuma de raios. Um jovem soldado, boca aberta, cabeça nua, E a nuca banhando no fresco agrião azul Dorme; ele está estendido na relva, sob a nuvem, Pálido, no seu leito verde onde chove a luz. Os pés nos gladíolos, ele dorme. Sorrindo como Sorriria uma criança doente, ele faz a sesta: Natureza, acalenta-o calorosamente: ele tem frio. Os perfumes não fazem estremecer sua narina: Ele dorme ao sol, a mão sobre o seu peito, Tranquilo: ele tem dois buracos vermelhos do lado direito.

É interessante observar que muitos optam por traduzir a expressão “deux trous rouges” por “dois furos vermelhos”, o que está correto. Eu prefiro, no entanto, traduzir por “dois buracos vermelhos”, para fazer jus à estrutura do soneto, tendo em vista que o primeiro verso – “C'est un trou de verdure, où chante une rivière” – é o inverso simétrico do último verso – “Tranquille. Il a deux trous rouges au côté droit”. O riacho ou regato que canta, em um buraco de verdura, revelando a vida, à luz do sol e argentando a relva por onde passa,
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é a antítese perfeita para o soldado que aparenta dormir tranquilo, com dois buracos vermelhos do lado direito do peito. No primeiro verso, o buraco é o vale, fértil e iluminado; no último verso, os buracos são de bala. É a vida em sua beleza radiante e luzente, própria da juventude ceifada pela guerra, se contrapondo à morte.

A ambientação do poema abunda de vida e de luz: a montanha orgulhosa brilha, o vale espuma de luz, chove a luz, no leito verde em que repousa o soldado. Tudo é primaveril, como é primaveril a sua juventude. Mas o soldado tem frio e já não sente a natureza olorosa que se expressa no agrião e nos gladíolos. O verso prepara a morte na expressão do frio e na necessidade de acalento por parte da natureza, para cujo seio o soldado voltará. Aí reside a surpresa e a emoção do poema: a brutalidade dos homens, conduzindo a uma guerra sem sentido, jovens, como Rimbaud, que perderão suas vidas sem terem tido o tempo de vivê-las.

O texto de Euclides da Cunha, como já dissemos, nos apresenta um fato real, não a transfiguração do fato. A descoberta do soldado morto por Euclides da Cunha lhe dá a medida da secura do sertão. Mumificado pela falta de umidade do ar, o soldado é um dos “higrômetros inesperados e bizarros” (p. 71), que o sertão tem para se exprimir:

“Percorrendo certa vez, nos fins de setembro, as cercanias de Canudos, fugindo à monotonia de um canhoneio frouxo de tiros espaçados e soturnos, encontramos no descer de uma encosta, anfiteatro irregular, onde as colinas se dispunham circulando um vale único. Pequenos arbustos, icozeiros virentes viçando em tufos intermeados de palmatórias de flores rutilantes, davam ao lugar a aparência exata de algum velho jardim em abandono. Ao lado uma árvore única, uma quixabeira alta, sobranceando a vegetação franzina. O sol poente desatava, longa, a sua sombra pelo chão, e protegido por ela – braços largamente abertos, face volvida para os céus – um soldado descansava.

Descansava... havia três meses.

Morrera no assalto de 18 de julho. [...] O destino que o removera do lar desprotegido fizera-lhe afinal uma concessão: livrara-o da promiscuidade lúgubre de um fosso repugnante; e deixara-o ali há três meses – braços largamente abertos, rosto voltado para os céus, para os sóis ardentes, para os luares claros, para as estrelas fulgurantes...

E estava intacto. Murchara apenas. Mumificara conservando os traços fisionômicos, de modo a incutir a ilusão exata de um lutador cansado, retemperando-se em tranquilo sono, à sombra daquela árvore benfazeja. Nem um verme – o mais vulgar dos trágicos analistas da matéria – lhe maculara os tecidos. Volvia ao turbilhão da vida sem decomposição repugnante, numa exaustão imperceptível. Era um aparelho revelando de modo absoluto, mas sugestivo, a secura extrema dos ares.”
1ª ed. São Paulo: Penguin Classics Companhia das Letras, 2019, p. 71-72

O leitor atento não terá dificuldades de reconhecer as semelhanças nos dois textos: soldado parecendo estar descansando, tranquilo, em canto ermo, ameno, iluminado, visto por um relato, cujo final guarda uma surpresa, revelando a sua morte. Não temos como afirmar se Euclides leu ou não o poema de Rimbaud, mas é bastante plausível que isto tenha ocorrido. A estrutura de ambos os textos apresenta semelhanças tão visíveis que apostar na coincidência seria absurdo. Por outro lado, é inconcebível se pensar num intelectual erudito como Euclides da Cunha, que não conhecesse a língua francesa e um escritor como Rimbaud. O seu texto de Os sertões dista cerca de 30 anos daquele do soneto.
Ao deparar-se com o soldado morto e mumificado, entre “o canhoneio frouxo de tiros espaçados” e o “tranquilo sono, à sombra daquela árvore benfazeja”, que o protegia, no seu descanso da morte, Euclides deve ter-se lembrado do soneto do poeta francês e montado a sua descrição, quase como uma superposição, a partir do “buraco de verdura onde canta um regato”, espaço em que o jovem soldado “dorme tranquilo, com dois buracos vermelhos do lado direito”.

É necessário dizer que, a releitura que Euclides da Cunha faz do soneto de Rimbaud não diminui o valor estético do seu texto. Há diferenças e uma delas é maneira como Euclides trata literariamente um texto que se quer científico. Pensado inicialmente como uma reportagem, o seu livro surge com uma força estilística bem peculiar, para ocupar um lugar na literatura brasileira, apesar de sua intenção declaradamente científica. Se o trecho nos remete a Rimbaud, por exemplo, como não lembrar da antecipação de Augusto dos Anjos na definição que Euclides dá para o verme – “o mais vulgar dos trágicos analistas da matéria”? Outra diferença é ver como a dor surda e elegíaca do poema de Rimbaud se transforma num exemplo de higrômetro natural, o que revela a veia não menos literária de quem construiu a cena.

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Este feliz encontro entre Euclides da Cunha e Rimbaud é, pois, apenas um dos aperitivos com que o leitor deverá se deliciar ao ler Os sertões, mas sobretudo essa fenomenal primeira parte chamada “A Terra”. É também um exemplo de que das guerras pode resultar algo que se aproveite. Lembremos, que o poema de Rimbaud tem uma simbologia importante. Datado de 1870, o poema marca os seus 16 anos de vida, início de sua meteórica produção poética, que se encerra aos 21. Mas 1870 é também o início da Guerra Franco-Prussiana, que durou um ano apenas. Ao seu término, o poeta tinha 17 anos. Se a guerra tivesse se estendido por mais um ano, Rimbaud poderia ter sido sorteado e é possível que o poema não tivesse sido escrito. A fronteira tênue entre os 17 e os 18 anos, permitiu a ele e a nós, a fruição do soneto e a sua reescritura por Euclides da Cunha.

O fato de um texto ser recriação de uma realidade possível e conhecida, e outro ser a descrição de uma realidade vivenciada não estabelece nenhuma hierarquia entre eles. Um soldado acalentado pela natureza primaveril, como criança frágil e desprotegida; outro soldado, poupado do verme repugnante, ambos são poderosas e inquestionáveis testemunhas de nossa insensatez eternizada na pena do poeta e na erudição do cientista.

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  1. Somente um intelectual com sua bagagem erudita poderia ter nos revelado a sensível semelhança do soneto de Rimbaud e o texto de Euclides; quanta beleza na sua análise! Pessoas como você nos dá a certeza de que vale a pena viver e continuar aprendendo.

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  2. Adhailton, agradeço sensibilizado a sua leitura, pois é muito importante para quem escreve, e você sabe disso, o retorno dos leitores. Por outro lado, considero-me um privilegiado por ter um leitor do seu nível. Grande abraço!

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