Brainstorming ? Com quem? Uma voz interior: – Você não tem autocrítica? Ri ao me lembrar de um filmezinho, genial, de animação, Geri’s ...

Brainstorming

Brainstorming? Com quem?

Uma voz interior:

– Você não tem autocrítica?

Ri ao me lembrar de um filmezinho, genial, de animação, Geri’s Game, do Pixar Studio, no qual um velhote (a cara do Ariano Suassuna), se vê sozinho ante o tabuleiro de xadrez sobre uma mesa com duas cadeiras, e não resiste: movimenta um peão. Aí... vai pro lado oposto, move outro, volta pra primeira posição, revida, etc., etc., num crescendo em que se cria um feroz antagonismo entre os “dois”.

Veio-me à memória um crítico cinematográfico belga, alto, cabelos e barba bem alvos, que falava o português fluentemente e me impressionara e ao Kleber Mendonça Filho no Festival Internacional de Cinema de Flandres-Gante – Herman Leterme –, por ser competente ao extremo... e muito parecido com o ator sueco Erland Josephson, um dos preferidos de Bergman – e, por tabela, comigo.

– Você me decepciona – ouço novamente minha voz, mas agora atrás de mim.

Volto-me na cadeira giratória e dou com ele no meu gabinete, num terno caro que nunca tive, dizendo-me:

– Li um roteiro seu muito bom, no arquivo da CinemaScópio: Lucas/s.

– Pena que não foi aprovado.

– Porque não acharam, apesar das centenas de testes, o ator que pudesse fazer os quatro papeis daquele brainstorming que você bolou pra criar Cristo.

Brainstorming?! Caramba: de fato!

– A ideia de pôr Lucas – sozinho numa cela do Hospital Psiquiátrico Juliano Moreira – começando, de repente, a conversar com... João, um dos codinomes que usara devido à repressão do Império Romano, quando se fizera passar por um professor de filosofia grega, é ótima. Melhor ainda quando, já tudo acertado para fazerem o Messias trazer a Israel a doutrina platônica, surge novo desdobramento de personalidade, Mateus, que, de repente, é ridicularizado, na sua ira judaica, por uma quarta figura, o gay romano.... Marcos! A Emilie (refere-se à francesa Emilie Lesclaux, presidente da CinemaScópio e mulher do Kleber Mendonça) tentou contato com Raul Cortez para a proeza, mas ele já estava mal.

– Não se pode dizer que eu seja um cara de sorte.

Êle era quem estava sem sorte!

E o vejo olhar de relance para meus quadros, que tomam toda a parede à frente de meu computador, tipos populares da Paraíba, depois para a tela grande à sua direita (em que o Cristo do
Juízo Final, de Miguelângelo, rege uma orquestra que inclui Hermeto Paschoal, Chet Baker, Milles Davis, etc., etc., e vários anjos com trombetas, todos fazendo muito barulho pra ressuscitar a Terra: “Thalita, kumi!”).

Encabulo-me. Ele deve estar pensando: “Esse cara vive fazendo a mesma coisa”. Olha pra mim:

– Você propôs à empresa a produção do “Retábulo de Santa Joana Carolina”, de Osman Lins, e eles me mandaram pra cá. Vou logo ao primeiro problema: o título da história é muito ruim para um filme. Só funcionaria no Recife, porque o Osman era de lá.

E, sem transição:

– Que diabo é “retábulo”?!

– Vi, na Wikipédia, que você mora e estudou lá mesmo, em Gante.

– Na U-Gent, Universiteit Gent.

– Formou-se em quê?

– Cultura brasileira.

– Ah! E nunca esteve no museu da cidade, onde está o mais deslumbrante retábulo do mundo?

– Ô, aquilo! – reage, pernóstico. – Altaarstuk! – Seus (meus!) miúdos olhos castanho-esverdeados brilham por várias razões, inclusive ironia – The altarpiece! – Eu rio da “minha” pronúncia. – Chama-se... “Het... Lam... Gods”, “Cordeiro de Deus”. Ah: “De aanbidding van het Lam Gods” (Onde foi que aprendi a pronunciar isso? É chute!): “Adoração do Cordeiro de Deus”, obra dos irmãos holandeses Hubert e Jan van Eyck, sendo que Hubert – como eu – talvez nem tenha existido.

– E você não sabia que retábulo era “aquilo”?

– Sabia. Claro.

Vira-se pra outras telas mais recentes atrás de nós, no chão, encostadas em minha estante, incluindo a do “Museu de História Natural”, em que predomina um gigantesco esqueleto de dinossauro com uma cruz em cima do crânio, um vitral entre cada duas costelas, como se elas fossem arcobotantes de uma catedral gótica.

“Sempre fazendo a mesma coisa!” – eu, mais uma vez, me censuro. Herman diz:

– Pense na desinformação da imensa maioria do povo.

Pega o celular, faz uma ligação:

– Geraldo?

E me explica:

– É o chauffeur que me trouxe do Recife e está me esperando aí fora.

– Oi, e por que não o fez entrar?!

– Ora, está lá, à vontade, na sombra de uma daquelas árvores ao lado da OAB. Geraldo, você conhece uma santa chamada Joana Carolina, lá de Pernambuco?

Põe o aparelho junto ao meu ouvido, ouço o motorista:

– ... Não senhor.

Herman retoma o celular:

– Tem ideia do que seja um retábulo?

Passa a fala pra mim:

– ... Não senhor.

– Obrigado, era só isso. Olha aí, Solha. Geraldo é jovem, bom papo, antenado, público pagante do nosso cinema, não tem a menor ideia de que santa falamos, nem do que é um retábulo. Subamos um pouco a escala social.

Digita outro número.

– Marina? Tudo em paz aí no escritório? Sim. Sim. Sei, sei. Diga à Emilie que assim que eu voltar pro Recife falo com ela. Mas... nêga, desculpe interromper: você saberia me dizer o é que é um retábulo?

Ouço a voz feminina amiudada: Não, por quê?

– Já ouviu falar de uma Santa Joana Carolina?

Seguro o celular e falo com a secretária, meus olhos nos dele:

– Marina, tudo bem? É o Solha.

E aí, desistiu do cinema, de veras? A Emilie me disse que Kleber o convidou pra participar do “Aquarius” e que você reiterou que parara mesmo!

– É, desisti de ser ator. Do cinema, não. Por sinal, estou, aqui, num debate com o Herman, sobre um projeto meu pra CinemaScópio. Me diga uma coisa: ainda tem aqueles cartazes na parede à sua frente? OK. Sabe o que quer dizer Blade Runner?

– ... Não.

– Gallipoli?

– ... Também não.

– Olhe aquele, do outro lado. O que significa M*A*S*H?

Rsrsrsrs. Não sei.

– OK, obrigado. Diga pro Kleber que desejo para o Aquarius um sucesso maior ainda que o de O Som ao Redor!

Herman Leterme, recebendo o aparelho de volta, desligando-o:

– Meu caro, esses filmes venderam e vendem, aqui, porque já vêm com tremenda publicidade do exterior. Acha que uma autora com o nome de Svetlana Alexievich pode faturar com um livro agora, no Brasil, lançado na Rússia em 97? Pode, porque vem com a chancela do Nobel de Literatura de 2015. E o filme de um Alejandro Gonzáles Iñarritu? Pode, porque ganhou o Oscar de 2015 e o Globo de Ouro de 2016 O Regresso. Como não temos nada disso aqui na periferia, pergunto de novo: quem é – para o público pagante – Santa Joana Carolina?

– O filme vai mostrar: uma grande figura, avó de Osman Lins.

– A “vó” do Osman! E quem, diabo, quer saber da “vó” de Jorge Amado, da “vó” de Paulo Coelho, da “vó” de Milton Hatoum?

Eu, Herman! Porque pra todo mundo ela foi uma das muito sofridas professoras do interior pernambucano, mas, pra ele, uma santa. Osman perdeu a mãe logo depois que ele nasceu, ficando sem sequer um retrato dela, pelo que dizia que se tornara escritor talvez pra buscar esse rosto em alguma de suas personagens, quem sabe na mãe dela, no conto.

– E aí ele resolveu fazer um retábulo... literário... pra pôr atrás do altar dessa santa!

– É, construiu, assim, uma sagração à mulher do povo, à mulher brasileira, à mulher nordestina.

– Como disse Anatol Rosenfeld.

Olha-me com a cabeça baixa, a testa cheia de estrias, como num quadro de Ribera ou Caravaggio, as pontas dos dedos estrelados batendo-se, devagar, entre si, dizendo:

– Albert Ruddy (acho que foi Albert Ruddy, pois O Poderoso Chefão é da Paramount) chegou pro Coppola e disse “Olhe, cara: comprei os direitos do romance do Mário Puzzo, que está estourando no mundo todo, The Godfather!, e acho que você é um puto de um diretor, o cara certo pra dirigi-lo, desde... – balançou o indicador diante de mim, como se eu fosse o Coppola – desde... que deixe as frescuras intelectuais que sempre dão em “coisas” como seu último filme, The Rain People. Meu querido: conheço, sim, muito bem, a obra de Osman Lins, inclusive o Nove, Novena, com o “Retábulo de Santa Joana Carolina” incluído. É um livro muuuito bom. Mas... eu queria saber a razão pela qual você – excelente roteireista em potencial, como vi em Lucas/s e no bem realizado curta A Canga, do Marcus Vilar, de que gostei muito – está querendo perder tempo com ele, mandando pro ralo a grana e o prestígio da nossa produtora.

Ele sorri, triste.

– De volta pros trilhos!: O “Retábulo de Santa Joana Carolina” não tem ação! É uma obra li-te-rá-ria por excelência, que existe porque existe a literatura. Ponto!

– Herman, revi há pouco tempo, e com mais empolgação do que quando o vi pela primeira vez, o Hiroshima, meu amor, em que Alain Resnais usa integralmente o texto roteirizado pela romancista Marguerite Duras, palavras, palavras, palavras, mas não deixando um minuto sequer de ser uma obra-prima do cinema!

– Quer que ligue de novo pra Marina? Pro Geraldo? – Fechou a mão direita, com polegar e mínimo estirados, junto ao rosto – “E aí? Ouviram falar nesse filme?” Você está malhando em ferro frio. Andei dando uma olhada nos seus... “Brevíssimos Ensaios Muitíssimo Ilustrados” e vi um deles, “Fanfarra para um Homem Comum”, em que o tema é o seu pai. O “Retábulo” é a fanfarra do Osman para a mulher comum, que era a avó dele, e aquele foi o seu retábulo para o “seu” Fortunato Solha. Por que você não pensou em filmar as lembranças que tem de seu pai? Porque isso nem lhe passou pela cabeça! Veja bem: sou do ramo. Sou o cara que sente quando uma história não vai gerar bom filme.

Olha um quadro meu: banners com a suástica, ao lado do retrato enorme de Hitler sob o dístico “Tiberius Caesar”, Cristo já coroado de espinhos, Pilatos – em uniforme nazista – lavando as mãos do seu sangue – o sumo-sacerdote dizendo com revolta, em dois balões de histórias em quadrinhos: “Amai os vossos inimigos!” “Dai a César o que é de César!”

– Taí a ideia para um bom filme. Os produtores judeus iriam adorar.

– Foi para uma peça encomendada por Chico César para a Semana Santa, quando ele era secretário de Cultura do município. E vetada por ele mesmo, talvez pelo prefeito, então candidato a governador.

– Isso aí pra Semana Santa?! Vê-se que é hábito seu, mesmo, sempre tomar o bonde errado. Acho, Solha, ... que o livro do Osman, que é de 66, não pegaria hoje, como pegou quando surgiu. Mozart teve o tempo dele. Niemeyer teve o tempo dele. Dante, mais ainda. Pra você assistir a um filme como o Limite, do Mário Peixoto, considerado o mais importante do Brasil, mas que é de 1931, você tem que dar os devidos descontos, pela distância no tempo. Amplos descontos. Jorge Amado vendeu muito livro no mundo todo. Além de novelas e filmes baseados nos romances dele. Hoje... E imagine que Osman Lins não era um nome globalizado como o dele.

Pausa.

– Quer saber que tipo de mistério, mesmo, me interessa muito? O da mulher do Guimarães Rosa.

– Nem seu motorista nem sua secretária devem saber do que está falando, logo, seu tema não é bom!

– Conversa! Pense num filme com o nosso grande Guimarães Rosa vice-cônsul brasileiro em Hamburgo, Alemanha, no final dos anos 30, em plena efervescência do nazismo, a futura Aracy Moebius Carvalho Guimarães Rosa trabalhando com ele, os dois recém-saídos de casamentos arruinados. Moebius: o criador do laço de Moebius, superfície curva em forma de 8 deitado, desenvolvida do símbolo matemático para “infinito”, e que parece ter dois lados, como nós, mas só tem um.

– O último mistério do “Retábulo” começa com ele!

– Sim, e o Grande Sertão: Veredas, dedicado a Aracy, com ele termina! Mas acho que o GR não estava se referindo ao infinito, mas ao amor pseudo-homossexual de Riobaldo por Diadorim, que é mulher, coisa que nem ele nem ninguém sabe. Uma alusão ao amor... dessa Aracy por uma das judias que ela livrou do nazismo e mandou pro Brasil, a muita rica e culta Maria Margarethe Bertel Levy. Isso é que seria um filme, Solha! Pense no que é o fato de que as duas – lindas – sentiam sempre as mesmas coisas, de modo que em 2003 ambas caíram, uma em casa, outra na rua, e acabaram ficando de cama até o final, Maria Margarethe morrendo em fevereiro, Aracy Moebius em março de 2011. As duas com 102 anos.

– Realmente.

– Faça o projeto, que assino embaixo.

Esta é a versão que acabo fazer, com 6 páginas, a partir do conto original, com 15, que faz parte do volume NOVE NOVENA, variações, ed. Olho d´Água, 2016, organizado por Hugo Almeida, em homenagem a Osman Lins. O personagem Herman Leterme não existe. Abaixo, foto do ator Erland Josephson, que seria a presença imaginária que faria o brainstorming comigo – foto recente feita por minha filha Andréia.


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