Para: ▪ Hanna, que faz aniversário no Dia das Crianças! ▪ Tomáz, meu Príncipe de Gales! ▪ Samuel, meu primeiro sobrinho-neto! Com essa ...

Se essas casas fossem minhas...

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Para: ▪ Hanna, que faz aniversário no Dia das Crianças! ▪ Tomáz, meu Príncipe de Gales! ▪ Samuel, meu primeiro sobrinho-neto!

Com essa estória do alvoroço deste último Dia das Crianças, e de toda a parafernália das lojas de brinquedos etc e tal, comecei a pensar nos meus tempos de criança, do que gostava e do que fazia.

Tenho uma memória prodigiosa; uma memória com imagens, sons e cheiros. Não é raro lembrar-me de coisas de quando tinha três anos de idade. Passo por mentirosa. A minha infância, quando olho para trás, tem, assim, uma divisão no mínimo curiosa. Ela se divide pelas casas em que morei. Bachelard explica! Fiquei a pensar em Virginia Woolf e suas casas: a de Carlyle, a de Richmond, a de Bloomsbury, a de Hyde Park... E saí lembrando que, assim como a escritora, tive um caso de amor com as minhas casas. Sem falar nas de veraneio: Praia Formosa e Poço.


Casa 1
Rua Visconde de Pelotas

Três aninhos. Minha mãe grávida com vestido de fustão azul marinho com galão no pescoço. Maternidade São Vicente de Paula: chegada da irmã Bebé e a emoção de ver mamãe com bebê nos braços.

Entrou ladrão em casa. Um homem morreu atropelado pelo trem que passava na porta. Ficava sentada no tamborete da cozinha, vendo Creusa picar coentro. Desde então, adoro coentro e o seu cheiro de feijão.

Ganhei meu velocípede. Peguei sarampo. Passeei de trem pelo bairro do Roger. Brincava com Sólon Lins, meu vizinho. Já perambulava pelo oitão da Catedral e tinha um vestido de organdi, todo de galão — lindo!

A grande aventura era ir a pé até a casa de Tia Lila; casa que se tornou a Aliança Francesa, na Lagoa. Quando comecei a dizer Bonjour, sempre pensava que era criança novamente...


Casa 2
Miramar

Ficava ao lado do Clube Cabo Branco. Aí nasceu Teca, minha terceira irmã. Na época, estava de férias de julho, na usina de tios. Senti uma emoção grande em saber que mais uma menininha tinha chegado em casa... e eu não estava lá.

Nesse tempo, brincava com as vizinhas, Leopoldina e Bebezinha. Também levei uma carreira de um pastor alemão e caí com o nariz no chão. Nunca esqueci essa dor. Nem o medo de cachorro.

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Mamãe inventou de ter um Fox Terry, aquele cão insuportável que late late e pula pula. Eu tinha tanto medo que, uma vez, cheguei do colégio e fiquei em cima do muro esperando que alguém viesse em meu resgate.

O Miramar era um bairro longíssimo, lá onde tem a curva do rio... Tínhamos uma caminhonete horrorosa e depois uma Vemaguete. Eu ia na chuva com mamãe até a Epitácio, esperar o ônibus azul das Lourdinas. Lembro bem de comer arroz com farinha e ovo e de como adorava essa comida. Era quando meu avô Diogo nos visitava e ficava para o almoço.


Casa 3
Rua João Amorim

Era perto do Bompreço da cidade. Ali aconteceu de tudo. Descobri coisas dos adultos, dos pais e do casamento. Não gostei muito do que vi. E entendia menos ainda. Operei as amídalas e adenóide. E mamãe me disse que era só um exame. Não entendi nada. Os vizinhos todos sabiam, menos eu. Foi um sentimento de decepção, confesso. Tossia, tossia, xarope, xarope!

Brincávamos de teatro, chamávamos os vizinhos. E cozinhado? Comida queimada e tudo. Quando li o conto de Katherine Mansfield, The Dolls House, virei personagem e contexto. Conhecia bem aquele mundo das meninas.

Nessa rua, descobri as aftas, não comia carne, perdia o ônibus do colégio e por vezes tinha que ir a pé. Ai que ódio! O castigo era ir para cama às 7. Carneirinho nenhum dava conta. Adorava minhas camisolas longas de flanela, saídas literalmente das estórias de Charles Dickens. Ali, no Beco, como se chamava a Rua, jogávamos bola e comíamos tanajuras no inverno. Adorava ir brincar com minhas primas, de novo na casa de Tia Lila. Brincávamos de Miss, de família e, todas solenes, engolíamos bolacha fazendo de conta que eram hóstias. Certa vez minha irmã Teca caiu com um botijão de gás na cabeça e me aperreei muito, vendo a agonia de mamãe.

Era freguesa da casa da vizinha e adorava ficar por entre as moças. Tinha também um tanque que era uma festa no dia da limpeza. Brincávamos com os peixes naquele troca troca de saco, água limpa, água turva...


Casa 4
Praça da Independência

Ah! As pitangas que chupei nos pés da praça! As brincadeiras de balanço no quintal. A vontade de ser baliza nos jogos da primavera! E me confessei. Tão poucos pecados que ficava a inventar alguns para ter o que contar no confessionário. Comunguei! Por todas as almas. As de artistas, inclusive. Estudei música. Andei de ônibus sozinha rumo ao Conservatório. Toquei triângulo no Teatro Santa Rosa. Estudei balé! Ganhei minha
Monark e aprendi a andar de bicicleta. Nunca vou esquecer a emoção que sentia ao pedalar e ter o domínio do guidão.

Foi nessa casa que nasceu minha quarta irmã, Claude. Eu ninava e dormia junto dela, cantarolando músicas da jovem guarda. Tinha tédio em tomar conta dela para ajudar mamãe. No terraço, um sofá verde de palhinha que servia de quadrado para aprisioná-la das travessuras. Aquela que tinha que ficar no sofá era uma desafortunada. Claude querida, tão linda, mas eu também era criança. E quando você acordava no meio do almoço e eu tinha que balançar a rede? Era um desconsolo.

Nesse tempo, comecei a andar sozinha. Para o colégio, para a casa de Dina (hoje Dra. Enedina), para conversar no terraço ou ficar encostada no muro vendo os ônibus passarem. O que conversávamos? Coisas de criança ainda. Éramos quatro. Problemas domésticos? Com certeza. Mamãe sempre cansada, pudera! E papai? Lembro dele sempre lendo jornal, jogando xadrez e cavoucando o jardim... Ah! A ausência dos eternos pais. Só mais tarde vim entender dos assuntos dos gêneros, das triplas jornadas e da infinita inadequação das mulheres.


Casa 5
Rua Camilo de Holanda

Dessa casa lembro bem de jogar ossinho – eu era bamba! Dos bambolês — eu era craque! Do carro — Simca — que mamãe bateu no muro. Dos meus pais indo ao cinema à noite. Eu não gostava quando eles saiam. E eles saiam tão pouco! mas eu não gostava. Adorava brincar sozinha depois do almoço, me esparramar no mosaico frio e ter sensações. Brincava de vendinha, de plantinha, buscando meus cantos ao redor da casa. Foi aí que descobri a TV, as novelas, Francisco Cuoco, o Repórter Esso – tantanranran tantanranran tantan... — e o carnaval da AABB! Tanto riso e tanta alegria! Desde então sou louca por carnaval! Aliás, acho que me apaixonei pela folia até mesmo antes, nos tempos das matinês do Cabo Branco.

Foi nessa casa também que andava de bicicleta pelas calçadas e descobri que os meninos olhavam para mim. E, encabulada, fazia sucesso... Fico pensando na simplicidade da vida naqueles tempos. Não tinha Shopping nem McDonald's nem computador nem lojas nem consumo nem nada. Tinha comida caseira, domingos longos, brincar de casinha,
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ler gibi — muiiiiiiito — e mais todas as Revistas: Manchete, Cruzeiro, Fatos e Fotos e depois Realidade. Cláudia. Com as Caprichos da vida mamãe implicava. Dizia que não eram boas para menina ler. Até hoje imagino o porquê... Sim! Lembro de uma dor de dente infame que tive à noite. Ainda sou neurótica com dente.


Casa 6
Avenida Almirante Barroso

Foi onde morei por 9 anos. Aconteceu tudo. Deixei de ser criança. Namorei, noivei (sim botei aliança na mão direita, sem aviso prévio, nem jantar familiar, um caos!) e casei. De noiva. E sandália rasteira. Aí a criança amadureceu quando perdi minha tia Dodô atropelada na esquina de casa e tive que administrar a dor, as providências e a morte. Mamãe tinha viajado uma única vez na vida, para a fazenda de uma outra tia.

Nessa casa, tive pesadelos, medo de ladrão, não gostava de janela aberta... Ganhei meu primeiro soutien. Parti para o mundo das viagens longas, das curtas, das descobertas e, mesmo assim, ainda brincava de esconde esconde e de me deitar para ouvir rádios do mundo afora. Gostava de dançar twist e das serenatas dos meninos. O primeiro namorado a vir em casa foi um terror.

Não gostava de ficar em casa. Adorava a rua e os jambeiros fúcsia da Avenida Coremas. Os banhos de chuva. Arrumar minha estante sempre desarrumada. Tirar jambo com vara nas três árvores da frente e ficar com os dentes roxos e dormentes.

Andava de ônibus. Andava a pé. E não tinha telefone. Como me virava? A vida era assim. Tinha outro ritmo. Era muito pensativa. Acho que eu tinha a síndrome das mentes inquietas (transtorno de algum déficit qualquer). Imaginava a vida como seria dali para diante. Consegui tudo o que imaginava? Acho que não, pois nem lembro bem o que imaginava. Mas como dizia Lou-Andreas Salomé: Não te enganes. A vida vai tratar-te mal. Portanto, se quiseres viver tua vida, vai e toma-a.


É assim desde então. Venho tentando tomar as rédeas da minha vida, nem sempre com sucesso; e exercitando os ensinamentos de Dona Canô, que passou dos 100 anos cortando quiabo para o seu caruru...:

“A alegria está aí, e eu a escolhi para minha vida!”

E de casa em casa, até hoje vivo inventando jogos, articulando ideias, espaços e, claro, querendo ganhar por algumas vezes. Nesse Dia das Crianças, fiquei viajando na minha infância e nas minhas casas. E gostei do que vi. Do que não gostei? Joguei na poeira do vento.

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  1. Como peles que nos fossem trocadas ao longo do tempo.

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  2. Ana, muito lindo seu texto sobre "As casas onde morou", cresceu e se fez essa mulher linda e sensivel. Parabéns. Só uma pequena correção a descrição das ruas e transportes de João Pessoa nos anos 50 do século passado, não tínhamos trem circulando nas ruas de João Pessoa, mas bondes, os quais até hj alimentam meu imaginário. Minha avó paterna, Noemia, morava nas Trincheiras rota regular destes bondes que cruzavam várias ruas da provinciana capital da Paraiba.

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