Sou do tipo que entende que as boas coisas da vida devem ser compartilhadas. E as coisas ruins, esquecidas ou denunciadas. Por isso é qu...

Um passeio pela Toscana brasileira

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Sou do tipo que entende que as boas coisas da vida devem ser compartilhadas. E as coisas ruins, esquecidas ou denunciadas. Por isso é que estou aqui neste momento pensando em dividir com vocês a boa experiência que tivemos a oportunidade de vivenciar, recentemente.
O convite veio da Bia. Ela convidou todos os casais que tiveram o prazer de testemunhar o seu casamento com o primo Gilvan. E foi ela quem organizou o nosso passeio, assessorada pela competência de Cassius e Gerlane, da Cays Turismo. Hoje pensamos que aquele convite foi um verdadeiro presente que Bia e Gilvan nos deram.

Cassius e Gerlane, a partir de sua competente agência, tornaram possível uma das melhores viagens que nós já fizemos: uma visita ao Vale dos Vinhedos. Pois é lá que se encontra a vinícola Casa Valduga, dentro da qual ficamos hospedados.

Partindo para a Casa Valduga nós nos associamos a um seleto grupo, composto, além de Bia e Gilvan e Gerlane e Cassius, por Lúcia e Ernesto, Eliane e Fausto, e Ana Maria e Marcos.
Fundada em 1875 pela Famiglia Valduga, imigrantes vindos da Itália trazendo todo o conhecimento milenar da cultura da uva e produção de vinhos, e uma das maiores vinícolas do país, Casa Valduga foi a primeira a adotar o enoturismo no Rio Grande do Sul. Em sua sede em meio aos vinhedos encontra-se um complexo que envolve quase todos os negócios da marca Casa Valduga: a vinícola propriamente dita, as confortáveis instalações hoteleiras, a imensa loja que comercializa os seus produtos, situada num castelo, e a fábrica de cosméticos da marca Vinotage.

Em outros endereços estão a vinícola Ponto Nero, a Importadora Domno, a Casa de Madeira e o Jardim Leopoldina, todos pertencentes à empresa Casa Valduga.

Esta impressiona pelo tamanho e a diversidade e a qualidade dos produtos, e pelo contraste com a simplicidade de seus proprietários, os irmãos João e Juarez Valduga, hoje auxiliados pela nova geração Valduga.

O complexo empresarial é composto por um batalhão de mais de dez mil empregados, entre empregos diretos e indiretos. Seus investimentos movem a economia da região, pois aproveitam os diversos materiais encontrados nos arredores, como a pedra dos revestimentos, a madeira, cerâmica e produtos químicos.

Contratam na região jovens nativos, além de serviços de marcenaria, lanternagem, olaria, gesseiros, eletricistas, contadores, pintura dos prédios, graniteiros, e toda a sorte de profissional. Aquilo que não plantam eles compram dos produtores locais.

O conjunto arquitetônico que é sede da Casa Valduga é composto por ampla e confortável recepção, com vistas para um belo castelo onde se situa a loja principal, o Varejo, onde são iniciadas as visitações e os cursos de enologia. Por um edifício imenso, onde são produzidas as diversas marcas de vinhos e de espumantes. E por um moderno edifício, que abriga a administração da empresa.

Além de tudo é dotado de confortáveis unidades destinadas à gastronomia: o imponente Bar Lui, onde além de bons vinhos podem-se encontrar doces bastante “salgados”. E também o restaurante Maria Valduga e o aconchegante Café da Manhã. Quatro pousadas, dotadas de suítes confortabilíssimas, compõem o conjunto.
O almoço de chegada foi tipicamente italiano, em qualidade, diversidade e fartura: antepastos com focaccias seguidos por desfile de sopas, saladas, polentas, massas artesanais, um gostoso frango arrosto no espeto, costelinha de porco arrosta no espeto com geléia Casa de Madeira, e lingüiça suína.

De sobremesa, um surpreendente sagu ao vinho com creme, e uma saborosíssima pannacotta com calda de frutas vermelhas! O espumante Sur Lie (Casa Valduga, claro) foi patrocinado pelo nosso primo Gilvan Pires, maior representante do produto Casa Valduga no Distrito Federal.

Na vinícola é possível acompanhar o processo de produção, desde a chegada da uva até o despacho do vinho para ser comercializado. No subterrâneo encontra-se a cave, contendo milhares de barris e milhões de garrafas. Lá existem barris confeccionados no exterior, com preços de até 100 mil reais!
Durante a hospedagem tivemos a oportunidade de acompanhar todo esse processo de produção do vinho num curso ilustrativo de introdução ao vinho que disponibilizam para os hóspedes. A propósito, estes gozam de significativo desconto em todos os produtos Casa Valduga. E um carro elétrico para aqueles que têm alguma dificuldade de deambulação. Abusos na degustação, por exemplo.

O nosso curso foi ministrado pelo jovem sommelier Eduardo Siéga, que revelou profundos conhecimentos e cultura de enologia, associados a um comportamento extrovertido que o torna muito mais comunicativo e facilita o aprendizado dos alunos.
Demonstrou, portanto, ser um excelente mestre. Fez-nos percorrer a imensa cave subterrânea, repleta de milhares de barris, muito fria e escura, onde o silêncio só é quebrado pelo som baixo e grave de cantos gregorianos.

Ele nos explicou que o espumante desta vinícola é produzido pelo método champennoise, onde o licor de tiragem (composto de leveduras e açúcar) é adicionado ao vinho base, na primeira fermentação, e derramado em garrafas para obter a segunda fermentação.

Depois desta longa visita nós fomos levados por Eduardo para um moderno salão, com generosa vista para os vinhedos, as araucárias e os ciprestes. E onde uma longa mesa nos esperava para cumprirmos a melhor parte do curso: a degustação.

Essa primeira parte do curso terminou numa divertida e saborosa degustação, onde bebemos seis marcas de vinhos e espumantes. Começamos pelo Ponto Nero brut, seguido de um gerwürztraminer seco pacas, delicioso chardonnay, um syrah muito seco, um surpreendente marselan, muito pouco conhecido aqui no nordeste, finalizando com o velho cabernet sauvignon.

Lá ele ensinou como avaliar um vinho pelo método dos cinco sentidos: segurar corretamente a taça. Ver a coloração, estimando a idade. Sentir o aroma que exala. Ouvir o pipocar da rolha do espumante. E sentir o sabor característico da uva escolhida, estimando o grau de acidez, o tipo de madeira onde foi amadurecido, o grau de doçura, ou de ausência desta.

Utilizando esse método, ao longo do curso íamos aprendendo a identificar a uva que estávamos provando. Para analisar a coloração, por exemplo, Eduardo nos ensinou a curvar cuidadosamente a taça e por o dedo embaixo, distinguindo as diversas matizes de coloração. Depois de tudo bebíamos o conteúdo da taça e passávamos para outra garrafa.

Durante a degustação aconteceu uma coisa esquisita: depois da quarta garrafa notei que colocava um dedo, mas via dois. Estranho. Será que era algum fenômeno físico tipo refração da luz através do cristal da taça? Ou terá sido porque eu já havia tomado quatro ou cinco taças? Um mistério...
Além da própria vinícola, da vinícola Ponto Nero e da Cervejaria Leopoldina, a Casa Valduga é composta pela Domno Importadora, que traz ao Brasil rótulos consagrados no mundo. Pela Casa Madeira, que produz suco de uva puro, geléias e outras guloseimas. E pelo Jardim Leopoldina, espaço gourmet ambientado na natureza onde é possível fazer piqueniques e adquirir produtos como sorvetes artesanais, além de todos os produtos da marca Casa Valduga.

Fechando o conjunto, o confortável hotel onde é possível praticar todo o enoturismo aqui descrito. Quando o tempo permite pode-se praticar o balonismo.
Passamos quatro dias dormindo bem, com o friozinho gostoso, e desfrutando do melhor conforto possível. As suítes, muito confortáveis, dispõem de aquecedores em serpentina. Os jardins exibem flores diversas e bonitas, como rosas lindas e enormes, porém pobres de aroma. A variedade de pássaros é impressionante. Destaque para os quero-quero, que andam se mostrando pelos gramados. E joãos-de-barro que constroem suas casas pelas alturas, sejam em árvores ou em postes. Nos finais das tardes formações de marrecos coloridos sobrevoam a vinícola.

Distribuídas pelas fontes e alamedas dos jardins encontramos centenas de estátuas gregas, com motivos relacionados ao vinho. Disputando com os quero-quero o carinho dos hóspedes, o charme fica por conta a gatinha Mima, que faz o maior sucesso com os gatos da região. Junto com um outro lindo gatinho, branco, circulam pela vinícola.

Incluídos no programa, tivemos oportunidade de conhecer a Casa Valduga extramuros. Trata-se da produtora do suco de uva Casa Madeira. Da importadora Domno. A cervejaria Leopoldina. E de uma grande produtora do espumante PontoNero, produzido pelo método Charmat. Neste método a segunda fermentação ocorre em tanques de aço inox, diferentemente do método Champenoise, em que acontece na própria garrafa.

Após a visitação da cave, participamos de outra deliciosa degustação de espumantes, começando pela uva cabernet franc, seguida de gewürztraminer, outro chardonnay brut, e a pouco conhecida uva glera, do Veneto e Friuli. A PontoNero produz também o espumante enlatado da marca Becas, nos sabores join blanc, fun rose e sweet moscato.

Dali fomos visitar a Cervejaria Leopoldina, onde são produzidas as cervejas Porter, Red Ale, IPA, APA, Bohemian Pilsner, Weissbier e Witbier, esta com limão siciliano e (pasmem!) coentro! E produz também as cervejas fortes Stout, Belgian Tripel, e a curiosa e deliciosa Italian, uma cerveja forte clara misturada com vinho chardonnay! Mas o destaque ficou por último: as premiadas Belgian Quadrupel e Old Strong Ale. Tomamos todas.

A visita não poderia ter sido completa, se não tivéssemos conhecido o Jardim Leopoldina, onde concluímos a tarde. E o nosso passeio pelo Vale dos Vinhedos.

Ao final de todas as degustações que participamos recebemos as lindas taças que havíamos utilizado. Porém, nenhum convite para conhecer o AA local...
Durante a estadia, tanto na Casa Valduga como também na PontoNero e no Jardim Leopoldina, chamou-nos a atenção a música de alta qualidade, que está sempre presente em todos os ambientes comuns e que se espalha por toda a área da vinícola, alamedas, jardins, caramanchões, e pelos ambientes comuns, num som discreto, audível apenas o suficiente para ser apreciado.

A seleção é de elevado gosto musical. Ouvimos músicas nos mais diversos estilos e ritmos: roques nacionais pouco conhecidos, como Mais Ninguém , da Banda do Mar; Odoyá , de Gabriel Conti; Contos de Fraldas , do Tia Nastácia. Gostosas e pouco divulgadas bossas novas, como Back to Black , com Eve St. Jones, e More Than I Can Bear , do Matt Bianco.

Também músicas já consagradas, como o reggae Querem Meu Sangue , do Cidade Negra; Pretty Woman , de Roy Orbinson; The Lady in Red , de Chris Burg; Please, Don’t Go , por DJ Leão, além de um surpreendentemente bom e ritmado How Deep Is Your Love , pelo Bellestar; Stupid Girl , do Garbage, e a espetacular Why Me? , do engraçadíssimo Big Bad Voodoo Daddy. Incrível!
Ao fim desse breve passeio de apenas quatro dias, de volta pro nosso aconchego trazendo bastantes saudades, chegamos a casa já sentindo um gostinho de saudades dos momentos tão agradáveis com pessoas tão interessantes. E nos sentindo bem mais ilustrados, conhecendo muito mais a história do Brasil, a história universal e a história da política brasileira, especialmente a política contemporânea.

Fica a vontade de um dia retornarmos a essa região, o Vale dos Vinhedos, onde é inevitável se ter a sensação de que havíamos visitado a Toscana, com seus vinhedos e ciprestes, além de um friozinho gostoso à noite.


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  1. Bela descrição . Contou de forma maravilhosa a viagem que fizemos . Agora temos um grupo de amigos que se formou. Seguimos lembrando dos belos dias que passamos nesse lugar encantador . Valle dos vinhedos, casa Valduga . Fica a vontade de voltar lá um dia . Parabéns pelo texto 👏👏👏

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  2. Há muito esperava por esse relatório vinograstronômico (perdoem-me o neologismo) – digamos, chegando até a imaginar prazeres experimentados se faziam responsáveis por esse atraso.
    É inegável, pelo que lemos, a presença de sensações, de prazeres os mais diversos, que levaram ao encantamento que bem sentimos em cada palavra dessa confissão de encantamento, bem provida por uma vivência que dá ao autor toda a autoridade de expressão que nos leva a participar desse passeio.

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  3. Ângela Bezerra de Castro16/11/21 18:15

    Foi ótimo conhecer a Toscana brasileira levada por sua fluência narrativa e impressionada pela infinidade de detalhes que conseguiu descrever, com tanta precisão. E, ainda mais, encantada com seu conhecimento musical, tão vasto e atualizado, dominando todas as referências sobre cada música. Sem dúvida, sua percepção enriqueceu a viagem.

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    1. Agradeço a todos vocês: Valéria, Ângela, Arael.
      Escrevo por prazer o que vivencio na minha vida.
      E vivo intensamente as minhas viagens.

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    2. E tambem a Eliane Ulhoa e as meninas e rapazes do nosso grupo de viagem. Que turma!

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  4. É sempre bom "ouvir" a beleza, de um relato, que mais parece estar lá conjuntamente. Parabéns José Mário

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