Dos tios, embora bem mais velho, Manuel era o que me parecia mais do meu tamanho. Não de tope, ele já era bem mais alto, mas de meninice. ...

Horas perpétuas

tempo relogio nostalgia idade velhice
Dos tios, embora bem mais velho, Manuel era o que me parecia mais do meu tamanho. Não de tope, ele já era bem mais alto, mas de meninice.

Na manhã em que o achei assim, ele entrou lá em casa no exato instante em que o relógio de parede, o mais rico ornamento da sala, batia suas oito ou nove horas bem batidas. Nem deu tempo a que fechasse a porta de baixo. Ali mesmo, uma mão na porta e a outra no queixo, plantou-se ele transportado a cada enleio que as batidas ressoavam.

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Winterseitler
Ao longo de nossas vidas, em tudo distanciadas, a imagem de tio Manuel nunca me ocorreu sem que estivesse associada a essa manhã parada no tempo até hoje. Aquele rapaz tato de fala, matuto de vestes e de hábitos, gaguejando a sua admiração, o seu encantamento de menino pelo milagre do relógio inglês comprado em Félix Guerra, na Alagoa Grande que ganhara o trem primeiro do que Campina.

Procedemos todos de uma nesga de terra num surrão de serras entre Areia e Alagoa Nova. Terras de poucas braças, a dele não sei se própria ou arrendada, onde a avó Pastora, viúva de Chico Avelino, acabou de criar dez ou onze filhos. O marido, meu avô, está entre os “ cearenses” que o grande romancista Ferreira de Castro foi encontrar no inferno do seringal amazônico. Conseguiu sair de lá vivo, mas doente, morrendo antes do tempo. E a filharada, homens e mulheres, teve de se criar e sobreviver por si mesma, uns presos à terra de origem, outros seguindo os rumos da tia Vila (Avelina), pioneira no êxodo para o Rio, outros para o Seridó do tio Inácio, para o São Paulo do tio Lula, e tio Manuel ficando onde fosse o tio Moisés, o mais saído, meio comerciante, sem passar das fronteiras entre Alagoa Nova e Alagoa Grande. Benquisto, falante, Moisés Francisco quase terminava como vereador vitalício. Já o irmão Manuel se encobria no trabalho, lavoura de roça ou de cana em terras alheias ou de usina. Não mais que suficientes para criar 21 filhos debaixo de um pequeno chalé entre o rio que lambe a cidade e a encosta da serra onde despontava um cruzeiro.

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Myriams
Desgarrado dos caminhos naturais ou de migração da família, fiquei no que vocês estão abusados de ver. Tio Moisés e tio Manuel foram os que me ficaram mais próximos. Aqui e ali vinha um jerimum, um agrado, uma notícia. Quando fui receber o título de cidadão alagoa-grandense, há uns dez anos, lá estava a avelinada a recompor a família no Teatro dos Montenegro, dos Nóbregas, dos Guerra, dos Onofres — o velho Santa Inês, obra do avô de Hélio Zenaide. Posso dizer que a plateia era quase toda de Avelinos, tio Manuel à frente, pois Moisés, o líder, já havia falecido. E o que prometemos à família entre os abraços finais da festa? Voltarmos a nos ver nos 100 anos de tio Manuel. E ninguém mais que ele a ter fé nessa franca possibilidade alcançada a 22 de fevereiro com a família quase inteira presente à luz mortiça dos seus olhos. Ele sentiu minha falta, tive receio de ir temendo a Covid.

Três semanas depois ele fechava os olhos para sempre, como se não tivesse mais o que fazer. Ali tranquilo, numa paz que só me lembrou as horas nunca emudecidas daquele relógio de nossas vidas.

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  1. Nos velhos tempos, não havia relógio de pilhas. Se muito, automático. A grande maioria dos calendários era de se destacar UMA FOLHINA todo dia. Nos dias santos, domingos e feriados as folhinhas eram encarnadas. Estudante liso, sem pagar a CASA DO ESTUDANTE em Natal - faltando feijão, etc - decidiu vender seu relógio automático e de mais alguns, liberou sua verve e saiu gritando: vendo relógio, cronômetro, automático e muito mais. Marca dia, mês e ano, briga e galo e nos domingos, dias santos e feriados os PONTEIROS AMANHECEM ENCARNADOS.

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