Não estou certo de que tenha sido uma cigarra aquilo que me despertou aos primeiros raios do sol. O som, bem parecido e com idêntico volume, proveio da calçada oposta à minha, onde há duas algarobas. Cigarra, até onde sei, não canta em fevereiro nem em março. É bicho de primaveras e inícios de verão.
Arte: B. Rabier, 1906
Seja o que tenha sido, o barulho que me fez deixar a cama logo se findou, o que também não combina com aquele chiado eterno.
Por falar nela, a cigarra é um inseto espantoso. Não canta pela boca, mas pelo abdômen, ao fazer vibrar um conjunto de membranas chamadas tímbalos. Aprendi isso com o filho biólogo. Também fui por ele informado de que aquele barulho de cem, ou mais decibeis, é uma exclusividade dos machos. As fêmeas, silenciosas, apenas atendem ao chamado para o acasalamento.
Aprendi, ainda, outras coisas. Ao contrário do que acontece entre os humanos, machos de cigarra calados são machos felizes. Significa que estão ocupados com algo melhor do que tirar o sossego alheio. O som intenso não os faz estourar. Isso é mito. As cascas vazias, comumente encontradas em troncos e galhos, resultam da metamorfose, da troca de esqueleto. Machos e fêmeas passam a maior da parte da vida (que pode chegar a 17 anos, pasme-se) sob a terra como ninfas e somente emergem para a reprodução. Não são parentes das baratas, embora com estas pareçam. Mas não podem se gabar da nobreza
Arte: B. Rabier, 1906
da linhagem que inclui percevejos e pulgões. Alimentam-se de seivas.
A fama que o macho tem de boêmio, irresponsável e preguiçoso vem de longe. Culpemos Esopo, o escravo criador de fábulas, na Grécia Antiga. Foi ele que assim pintou a pobre cigarra, enquanto enaltecia a formiga, uns seiscentos anos antes do nascimento de Cristo. Chegado o Século 17, Jean de La Fontaine ajudou a espalhar a má reputação.
Todos já ouvimos a história do desentendimento entre esses dois bichos, um trabalhador e precavido e, outro, relapso, indolente, despreocupado com o futuro. A formiga, impiedosa, iria negar um pouco do alimento que estocara no verão à cigarra que, sem eira nem beira, pereceria no inverno. A vida à míngua, pela hora da morte, de poetas e seresteiros não é coisa de hoje, percebo.
Dois difamadores, o grego e o francês. Custa crer em que Esopo, escravizado, haja ensinado, dessa forma, a importância do trabalho duro, da responsabilidade sem fim, do planejamento cuidadoso. E que assim
Esopo, fabulista grego da Antiguidade, em gravura de Jean-Honoré Fragonard, S.XVIII
tenha alertado a humanidade para as consequências da preguiça e da negligência.
Pensando bem, esse camarada vivia mesmo era de contar histórias. Nunca ouvi dizer que houvesse enriquecido com isso, mas bem que o merecia. Afinal, suas invencionices atravessaram os milênios. La Fontaine, por sua vez, pôs boa grana no bolso. Ganhou dinheiro e prestígio, porém, com evidente merecimento, porque foi além da tradução de Esopo. Recompôs as histórias do outro em versos refinados, adaptando-as à vida e aos costumes na Corte de Luís XIV. Fez uso de outras fontes (incluindo contos orientais) e ainda publicou muita coisa da própria lavra. Suas coleções de fábulas tiveram dedicatórias ao próprio Rei e ao Delfim, o que lhe renderia este e outros patronatos no transcurso de 26 anos.
Jean de La Fontaine (1621–1695), poeta francês e o mais célebre fabulista da literatura moderna. ▪ Arte: Henri Millot, 1699 ▪ Galeria Nacional da Finlândia, Helsinque.
Se você conhece a história que envolve o leão e o rato, agradeça por isso à dupla Esopo/La Fontaine. Pode ser que lhe caibam outros agradecimentos, pois há referências, também, à origem suméria dessa fábula. É assim: Disposto a comer o rato que o acordara, o leão terminou por soltá-lo, às gargalhadas. É que, além das súplicas, ouvira de sua pequena vítima a absurda promessa de algum dia socorrê-lo. Passado o tempo, isso terminou por ocorrer. O rato roeu as malhas da rede armada por caçadores na qual o rei da selva se emaranhara. Moral da história: nunca despreze alguém pelo tamanho nem pelo status.
Ilustrações de Benjamin Rabier para o livro Fábulas de La Fontaine, ed. Jules Tallandier, Paris, 1906
Sabe aquela da raposa e as uvas? De novo, ele, Esopo está por trás disso. Incapaz de alcançar um bom cacho, a raposa desdenhou dos frutos bonitos e suculentos. Decidiu que eles não prestavam. Há gente assim, nós sabemos. Gente que despreza o que não consegue.
Arte: B. Rabier, 1906
Cristo nem sonhava em nascer e já Esopo disciplinava os gregos com a história da galinha dos ovos de ouro. La Fontaine, séculos depois, amplificou a lição para o resto do mundo. Lembram não? Lá vai: Estupidamente ganancioso, o casal de camponeses antes pobre, mas agora abençoado com um ovo de ouro por dia, resolveu matar e abrir a ave para de seus ovários pegar grande fortuna de uma só vez.
Arte: B. Rabier, 1906
Fujamos da bajulação e dos perigos da vaidade. Aprendamos com a fábula que envolve o corvo e a raposa, o primeiro sentado no galho de uma árvore com um queijo no bico. Do chão a outra tecia loas à beleza do bicho feioso, de penas pretas. Ele ouviu dela que só não era perfeito porque não tinha uma boa voz. Desejoso de provar o contrário, abriu o bico para cantar, o que fez o queijo cair na boca grande e traiçoeira da bajuladora. Nem é preciso falar da autoria e da posterior propagação dessa trama.
Ilustração de Gustave Doré para as Fábulas de Jean de La Fontaine, ed. Hachette, Paris 1868 ▪ Fonte: Gallica
Uma coisa puxa outra e, então, lá vem a fábula da assembleia dos ratos, a reunião da qual surgiu o propósito de se pendurar um guizo no pescoço do gato, a fim de que todos pudessem sair mais seguros da toca em busca de alimentos. Aplausos, beijos e abraços no dono dessa ideia até o mais velho e experiente levantar a questão: “Quem vai fazer isso?”. Pois é, falar é fácil.
Que bela dupla foi essa formada por Esopo e La Fontaine no que pesem as diferentes eras em que viveram. E como é espantosa a constatação de que, imutáveis, nossos valores éticos e morais têm origem tão remota. Leio que advêm, por escrito, do Código de Ur-Namuu, o mais antigo da história das civilizações, elaborado em 2050 a.C., na Suméria, com foco em punições financeiras. E que têm sequência no Código de Hamurabi, o do “olho por olho, dente por dente”, com registro em 1750 a.C.
Já os mandamentos, cuja difusão é atribuída a Moisés, são estimados entre 14 e 13 a.C. Diga-se, contudo, que essas dez normas serviriam a qualquer nação moderna como preceitos constitucionais. Quanto à nossa dupla de fabulistas, eu a aplaudo. É melhor, mesmo, lidar com os bichos.