Não sei se acontece a todo mundo. A mim acontece. Uma pracinha, um trecho de rua, ou uma varanda, é o que também me fica no canto do peito...

Meus fotogramas

nostalgia cinema verao 42 cantando chuva fotograma
Não sei se acontece a todo mundo. A mim acontece. Uma pracinha, um trecho de rua, ou uma varanda, é o que também me fica no canto do peito, aquele onde se guardam as emoções, quando um bom filme termina e as luzes reacendem.

Há lembranças inevitáveis. A calçada e o poste iluminados sob o toró enfrentado por Eugene Curran exemplifica muito bem o que digo. Sabem não? Claro que sabem. Falo daquele poste em torno do qual Gene Kelly
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(o Eugene assim batizado) rodopiava em “Cantando na Chuva”. O poste e sua calçada são tão icônicos quanto a canção que rendeu o título desse filme.

Mas nem tudo é tão óbvio. Como explicar meu encantamento pelo trecho de casa até a escola percorrido pelos meninos de “A Era do Rádio”, do genial Woody Allen? Evidentemente, a fase de ouro da radiofonia e o resgate, pelo filme, das músicas, dramas e tramas da década conturbada de 1940 mais me pesam na memória. Porém, junto com isso tudo vem aquele percurso curtíssimo e aqueles passos de meninos ao longo de um pé de muro, não mais do que isso.

Eu até aceito, de muito bom grado, a imagem do cachorro, um carimbo impresso na mente, sempre que lembro de “Os brutos também amam”. O bicho, em sua despedida, tocou a pata na tampa do ataúde onde o dono jazia antes que o baixassem ao túmulo. Fora coisa pensada, entretanto, por George Stevens, o diretor perfeccionista de tantos filmes consagrados. Ele teve a ideia de enfiar o treinador do animalzinho no dito caixão, daí minha aceitação e meu aplauso.

Careço, porém, de explicação para a insistência na lembrança daquela ponta de batente onde os amigos Hermie e Oscy, personagens juvenis do belíssimo “Houve uma vez um verão”, sentaram à saída
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da matinê durante a qual fizeram mão boba em Miriam e Aggie.

Sapatos e meias retirados, Oscy, coçando o dedão, zombava de Hermie que, no escurinho do cinema, apalpava o ombro de Aggie, extasiado, porquanto se supunha na exploração de outro território. E não foi por falta de aviso, pois Oscy, percebendo o engano do amigo, a este indicava, com gesticulações pouco discretas, o caminho do paraíso. Finda a sessão, os dois quase foram aos tabefes, naquele batente: “Por que você tinha que me contar que era ombro? Por que não me deixou na ilusão?”, perguntava um Hermie indignado. E ouvia a resposta: “Para que você não volte a cometer o mesmo erro”. Risos de ambos os lados encerraram o diálogo.

Pois bem, ficou-me a imagem do trecho de calçada com o tal batente. Talvez, quem sabe, em razão de o pequeno prédio – a cuja entrada o degrau conduzia – ser tão parecido com este de João Pessoa onde o amigo Germano Toscano instalou seu cartório.

A pequena varanda da casa de Dorothy, no primoroso “Houve uma vez um verão”, me é, também, inesquecível. Neste caso, com muita justiça. Foi ali que o menino Hermie leu o bilhete deixado por ela ao abandonar a casinha de praia alugada para o veraneio com o marido. A lua de mel fora interrompida pela guerra. Convocado, o moço não mais regressaria.

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A iniciação de Hermie, em seus 15 anos, pela jovem Dorothy de alma arrebentada, deu-se numa das sequências mais longas e comoventes da história do cinema. A agulha da vitrola já havia saído da faixa com o tema legendário de Michel Legrand. Nenhuma palavra trocada entre aqueles dois. Nenhum apelo ao erotismo. Robert Mulligan, o diretor consagrado, imaginou toda a cena com o silêncio apenas quebrado pelo raspar da agulha e o sussurro do mar.

Dia seguinte, sentado na dita varanda com a cartinha nas mãos, Hermie leu as preces de Dorothy para que o Céu o poupasse das grandes tragédias. E para que encontrasse, com o tempo, a melhor forma de se lembrar daquilo que entre eles havia acontecido. “Nunca mais eu soube dela”, diz alguém com timbre de meia idade, um narrador de si próprio e de imagens passadas, cuja voz abre e fecha o filme.

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Li que a história tem base real (ocorrera com o roteirista Herman Raucher) e que a intérprete de Dorothy, a bela Jennifer O'Neill, é carioca da gema. Nasceu no Rio de Janeiro onde o pai servia ao corpo diplomático dos Estados Unidos.

Minha obsessão por coisas significativas, ou não, do roteiro cinematográfico talvez decorra da mania de colecionar, quando menino, fotogramas sobrados das emendas de filmes no cineminha do interior. Eu os comprava do amigo Jiló ao custo do pão doce produzido na Padaria do meu pai. Aprendiz de maquinista, o mesmo Jiló me ensinou a fazer projetor com caixa de papelão, uma lanterna e uma lâmpada cheia d’água a servir de lente. Talvez seja por isso que tenho pequenos quadros como esses tão cravados na memória.

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  1. E o lendário duelo do "Ok, Corral"?
    "Play it again, Sam" e leia carta do piloto que destruiu a "Ponte de Tomo-Ri".

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  2. Perdoe.
    Esqueci que depois de todos esses impactos, vale a pena dar uma volta em Paris, após a Meia-noite, ouvindo Sidney Bechet, executando "Si tu vois ma mère".

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  3. A sua crônica me fez voar no tempo de volta às cadeiras dos cines Rex, Plaza, Municipal e Metrópole, lugares que enriqueceram a minha imaginação.
    Parabens, Frutuoso!

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  4. Ainda ontem eu comentava, no facebook, a cena de Assim Caminha a Humanidade em que as crianças da personagem vivida pela Elisabeth Taylor brincam junto ao peru chamado Pedro e, na sequência, o dito cujo é introduzido assado, numa bandeja, na ceia do natal. Nunca soube como George Stevens conseguiu filmar um dos filhotes reconhecendo a vítima e caindo no choro sentido. Muito sentido.

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