Para o aniversário desta cidade que também é minha. Vir de São Paulo para São José dos Campos, de manhãzinha, com o ônibus roncando,...

Era em São José dos Campos

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Para o aniversário desta cidade que também é minha.

Vir de São Paulo para São José dos Campos, de manhãzinha, com o ônibus roncando, a neblina dançando e o sol surgindo por detrás das montanhas, era um prazer que atenuava um pouco a saudade e a falta que o avô me fazia.

Sentado no banco de madeira do jardim do Sanatório Vicentina Aranha, ele logo se distinguia na paisagem, com a sua batina negra de padre ortodoxo, o cachecol cinza enrolado no pescoço e um gorro de veludo bordô de onde deslizavam longos cabelos brancos. Era uma figura! Uma figura alta, pálida e magra, sempre pronta para embarcar em direção à Eternidade...

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Sanatório Vicentina Aranha, inaugurado em 1924 ▪ São José dos Campos/SP ▪ Fonte: Mapio
A cada crise do avô, o medo de que fosse a última me transportava para uma geografia de assombros, que percorríamos de mãos dadas pelas alamedas daquele parque. Só uma vez tocamos no assunto que silenciávamos. Então com o coração aos pedaços, eu ouvi ele me explicar a tênue linha que separa a vida da morte, que tantas vezes se cruzavam naquele jardim tão belo! A casa principal também era linda. Lembravam-me tudo. Menos o fim. A única separação que o avô lamentava era a de nos deixar.

Capela Sagrado Coração de Jesus ▪ Parque Vicentina Aranha ▪ São José dos CamposPMSJC
Medo de morrer? Por que, se já vivera tanto? Tanto que não pertencia a lugar algum da terra, desde que perdera sua Rússia!

Não pertencia mais nem aos sonhos, nem aos pesadelos da existência. Nem havia mais tempo para somar, multiplicar ou modificar o já vivido. Só para poetar. Ofício que eu deveria aprender a reconhecer nas entrelinhas da vida: no rastro das estrelas ou das formigas, no sibilar do vento entre os arbustos, na aurora anunciada pelo galo, no voo rasante do bem-te-vi sobre as azaléas.

Sanatório Vicentina Aranha (atualmente Parque Vicentina Aranha)pqvicentinaaranha.org.br
Tudo isso viria em meu socorro tão logo ele partisse. Ou melhor, sempre estiveram à minha disposição, alertava-me ele. Além dos novos livros que me fariam companhia em outras viagens, trazendo testemunhos de outros fantásticos personagens.

Traços de nuvens roxas, a Mantiqueira lá longe e o vento frio de julho que prossegue soprando forte entre os muros do Sanatório em São José dos Campos, espaço agora aberto à população como um grande parque. Não, não é possível perder esse referencial gravado na alma para o caos urbano que tenta abocanhá-lo.

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Vista áerea do Parque Vicentina Aranhapqvicentinaaranha.org.br
Cidade é presença e memória. Geografia humana e cartografia dos afetos. Morada dos vestígios daqueles que se foram e também viram o casario, a estação de trem, o arvoredo, o rendilhado da serra, o vale aberto para o espetáculo do sol em seu crepúsculo às margens do rio. Os habitantes precisam abrir suas janelas e perceber o passado no presente. O tempo. A vida com as suas alegrias e tristezas, com os seus personagens repletos de experiências, de histórias e de poesias de hoje e de ontem.

Era em São José dos Campos. E quando caía a ponte Eu passava o Paraíba Numa vagarosa balsa Como se dançasse valsa. O horizonte estava perto. A manhã não era falsa Como a cidade grande. Tudo era um caminho aberto. Era em São José dos Campos No tempo em que não havia Comunismo nem fascismo Pra nos tirarem o sono. Só havia pirilampos Imitando o céu nos campos. Tudo parecia certo. O horizonte estava perto. Havia erros nos votos Mas a soma estava certa. Deus escrevia direito Por pequenas ruas tortas. A mesa era sempre lauta. Misto de sabiá e humano O meu vizinho acordava Tranquilo, tocando flauta. Era em São José dos Campos. O horizonte estava perto. Tudo parecia certo Admiravelmente certo.

Salve, Cassiano Ricardo.

Viva São José dos Campos!

Benção, vô!

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