POEMA-MANIFESTO Não escrevo quando o céu está se recompondo. Escrevo com o trovão aberto, quando a palavra ainda treme...

Na mão, a pena é o arado

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POEMA-MANIFESTO
Não escrevo quando o céu está se recompondo. Escrevo com o trovão aberto, quando a palavra ainda treme e o medo não terminou de cair no chão de mim. Não espero a paz para escrever. A escrita, em mim, nasce molhada, com os pés no barro e o coração em estado de vento. O verso não é descanso, troféu, chegada, partida e nem moldura.

Aquela figura fantasmagórica que aparece em meus pesadelos para me assombrar, tendo à mão uma foice afiada, querendo pôr termo à minh...

Essas doeram

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Aquela figura fantasmagórica que aparece em meus pesadelos para me assombrar, tendo à mão uma foice afiada, querendo pôr termo à minha passagem por este planeta, anda me assustando nessas minhas últimas noites, por sinal, tão mal dormidas. Pois não é que essa coisa anda à solta por aqui e levando gente querida? Dias atrás levou o Chico Pereira, que vinha, como um guerreiro incansável, lutando pela vida, e me parece que essa foi a única batalha que Chico não venceu. De todas as outras saiu vitorioso, e o espólio dessas contendas está por aí como legado indelével às nossas artes, à nossa cultura; enfim, Chico não veio a passeio na vida e deixou por aqui o melhor de si.

Dando prosseguimento à série sobre os ingênuos e os nascidos escravizados na antiga Paróquia de Nossa Senhora das Neves, no ano de 183...

Os ingênuos e nascidos escravizados na antiga Paróquia de Nossa Senhora das Neves no ano de 1833 (parte 6)

Dando prosseguimento à série sobre os ingênuos e os nascidos escravizados na antiga Paróquia de Nossa Senhora das Neves, no ano de 1833, hoje traremos informações jurídicas sobre o estado civil dos genitores das crianças que nasceram escravizadas.

Os da casa não suspeitavam de nada. Entravam e saíam sem notar que a abertura que tinham uns com os outros não passava de um espelho qu...

Residentes sem lar

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Os da casa não suspeitavam de nada. Entravam e saíam sem notar que a abertura que tinham uns com os outros não passava de um espelho quebrado. Todos os dias se esbarravam no além-túmulo. Nas mãos, água. Nos pés, terra. O tempo não modificou para melhor como acreditavam, segundo uma sabedoria tola do povo.

Quando lembro da casa dos meus avós e dos meus pais (hoje, com 89 anos), sinto saudade dos momentos vividos, esperança e felicidade que...

Casas sem tranca

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Quando lembro da casa dos meus avós e dos meus pais (hoje, com 89 anos), sinto saudade dos momentos vividos, esperança e felicidade que ainda posso viver.

Neste período do ano, lembro do tempo que ficou no sítio, quando as árvores mudavam as folhas; os cajus e as mangas maduras se esparram...

O tempo que ficou no sítio

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Neste período do ano, lembro do tempo que ficou no sítio, quando as árvores mudavam as folhas; os cajus e as mangas maduras se esparramavam pelo chão; os araçás amadureciam nas capoeiras. Em casa, mamãe e as meninas enfeitavam um galho de laranjeira com algodão retirado de capulhos ainda no roçado; penduravam as lembranças — caixas de fósforos cobertas com papel dourado para simbolizar o Natal.

Estilo Nelson Rodrigues Na noite de Ano-Novo, Orlandinho chegou em casa e encontrou Zulmira faze...

O Ano-Novo em vários estilos

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Estilo Nelson Rodrigues
ano novo estilos linguistica giria satira
Na noite de Ano-Novo, Orlandinho chegou em casa e encontrou Zulmira fazendo amor com seu melhor amigo (dele, não dela). Matou os dois a garrafadas de champanhe, que escorreu pelo chão e se juntou ao sangue dos traidores. Orlandinho brindou aos falecidos e depois se entregou à polícia, chorando lágrimas de esguicho.

Na esquina da minha memória, moram dois personagens. O primeiro é o Senhor da Chave. Um homem corpulento, de trajes impecáveis, que car...

Apreciando a paisagem

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Na esquina da minha memória, moram dois personagens. O primeiro é o Senhor da Chave. Um homem corpulento, de trajes impecáveis, que carrega no bolso do colete um único objeto: uma chave antiga, pesada, que não abre porta alguma que eu conheça. Ele a exibe não como quem abre, mas como quem pode abrir.

Natal. Tempo de sentimentos ambíguos. Para quem é religioso, há toda uma liturgia e rituais a cumprir. A contrição do nascimento de Jes...

Natal

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Natal. Tempo de sentimentos ambíguos. Para quem é religioso, há toda uma liturgia e rituais a cumprir. A contrição do nascimento de Jesus. A festa. No meu caso, aniversário da minha mãe também.

Na manhã da última quinta-feira, dia do natal de Jesus, fui à Academia Paraibana de Letras prestar homenagem ao querido e múltiplo ar...

No adeus a Chico Pereira

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Na manhã da última quinta-feira, dia do natal de Jesus, fui à Academia Paraibana de Letras prestar homenagem ao querido e múltiplo artista Chico Pereira, que partira na véspera, após longa enfermidade. Nesses casos, de heroica luta contra a doença, costuma-se dizer que a vitória final de Tânatos representa um “descanso” para o enfermo. E de fato é, não importa o eventual clichê da palavra ou da expressão, pois não era outra coisa senão descanso e paz o que se contemplava no rosto de Chico. E essa paz de sua face afinal descansada se irradiava pela sala e pela casa inteira, penetrando suavemente nas pessoas que chegavam, cada qual com o seu pesar particular.

Talvez haja, de fato, heróis e super-heróis. Se eles existem, Shavarsh Karapetyan, atleta armênio e campeão mundial de natação subaquát...

O que é um herói?

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Talvez haja, de fato, heróis e super-heróis. Se eles existem, Shavarsh Karapetyan, atleta armênio e campeão mundial de natação subaquática, então com apenas 23 anos, foi um deles.

Morreu atuando, fazendo o que sempre fez como senhor de seus dons e do cultivo a eles dedicado, o artista plástico, professor, museólog...

Chico Pereira

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Morreu atuando, fazendo o que sempre fez como senhor de seus dons e do cultivo a eles dedicado, o artista plástico, professor, museólogo e comunicador Francisco Pereira da Silva, nosso Chico Pereira. Nosso, dos que nasceram e com ele definiram as linhas da vida a partir de Campina Grande; e nosso da acomodação fraterna à “vila”, hoje sem fronteiras econômicas, culturais e afetivas: a nossa querida João Pessoa.

Em 2023, li o livro “Para Sempre”, best-seller da escritora italiana Susanna Tamaro. A obra conta a história de Matteo, um médico ca...

Deus é uma criança de quem precisamos trocar as fraldas

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Em 2023, li o livro “Para Sempre”, best-seller da escritora italiana Susanna Tamaro. A obra conta a história de Matteo, um médico cardiologista que vive o luto há 15 anos, recordando constantemente a perda da mulher, Nora, e do filho, David, num acidente de automóvel. Após a morte do pai, Matteo procura refúgio numa montanha, e essa ligação à terra ressignifica toda a sua existência.

Melanie Klein (1882–1960) foi uma psicanalista austríaca pioneira na análise infantil, revolucionando a área ao introduzir o brincar c...

Inveja, reparação e gratidão

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Melanie Klein (1882–1960) foi uma psicanalista austríaca pioneira na análise infantil, revolucionando a área ao introduzir o brincar como método de investigação do inconsciente. Fundadora da teoria das relações objetais, destacou a importância da fantasia precoce, da ansiedade e dos mecanismos de
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Melanie KleinGD'Art
defesa nas posições esquizoparanoide e depressiva. Ela defendeu que sentimentos como a inveja são inerentes à vida psíquica desde o início, influenciando o desenvolvimento saudável das emoções e da mente, dependendo de como são simbolizados e trabalhados internamente. A reparação surge como uma resposta intrapsíquica à frustração causada pelos impulsos destrutivos e se manifesta quando o indivíduo reconhece a ambivalência dentro de si: amor e ódio coexistindo em relação ao mesmo objeto.

Há livros que não se leem: escutam-se. Azeite, Senhora Avó!, de Aldo Lopes de Araújo, pertence a essa linhagem rara de obras que falam ...

Azeite, Senhora Avó! - O sagrado doméstico da memória

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Há livros que não se leem: escutam-se. Azeite, Senhora Avó!, de Aldo Lopes de Araújo, pertence a essa linhagem rara de obras que falam baixo, quase em tom de confidência, como se temessem acordar os mortos que nelas habitam. Não há urgência em suas páginas. O tempo ali é outro - o tempo da cozinha antiga, do passo lento, do gesto repetido que não se cansa de existir.

Este é um texto sobre o natal, natal no seu sentido primeiro de nascimento e, sobretudo, de nascimentos, por necessitarmos nascer vária...

A probidade tenebrosa

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Este é um texto sobre o natal, natal no seu sentido primeiro de nascimento e, sobretudo, de nascimentos, por necessitarmos nascer várias vezes e, várias vezes, refazer a nossa rota.

  DAS ALEGRIAS Não escrevo sobre alegrias, mesmo, dentre elas, a mais pura. Essa, eu deixo para viver, apreciando cada sorve...

Enquanto houver um caminho a trilhar...

marineuma oliveira poesia paraibana
 
DAS ALEGRIAS
Não escrevo sobre alegrias, mesmo, dentre elas, a mais pura. Essa, eu deixo para viver, apreciando cada sorver de um néctar que pouco dura,

Esta é uma história real, contada pelo antropólogo Michel Alcoforado. Embora tenha o tempero necessário das fofocas da dita alta socie...

A alta sociedade carioca

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Esta é uma história real, contada pelo antropólogo Michel Alcoforado. Embora tenha o tempero necessário das fofocas da dita alta sociedade (Eike Batista, casamento, traição…), serve maravilhosamente para demonstrar a diferença entre a alta sociedade carioca e as demais.

Hoje, somente hoje, pude refletir sobre o reencontro. Egoísmo meu. Pude sentir o calor em teu abraço e satisfação em nossos apertos de ...

Carta ao Amigo

amizade nostalgia infancia
Hoje, somente hoje, pude refletir sobre o reencontro. Egoísmo meu. Pude sentir o calor em teu abraço e satisfação em nossos apertos de mãos. Ainda que breve, nosso abraço inspirou sinceridade; percebi que tua memória retornou ao passado. Logo notei que os que te acompanhavam fizeram questão de cercar-te. Fiquei incomodado, enciumado e senti raiva.

Fosse um batalhão, eu teria, ali, a patente mais rasa, pois a ordem me veio daqueles comensais quase em uníssono: “Você fez o do Natal ...

Perus para os carpinas

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Fosse um batalhão, eu teria, ali, a patente mais rasa, pois a ordem me veio daqueles comensais quase em uníssono: “Você fez o do Natal e vai fazer o bacalhau do Ano Novo”. E pensar que mal havíamos terminado a ceia natalina, na casa do filho mais velho. Sempre assim: cada um levaria à mesa algo previamente combinado a fim de evitar repetições. Os Natais, sem dúvida, exigem a reunião familiar e a participação coletiva nos preparos das carnes, do arroz, da farofa, do salpicão, das saladas e sobremesas, de preferência, com pavês, ou tortas. Isso fortalece a confraternização e,

Jean-Paul Sartre, no livro As Palavras , de teor autobiográfico, recorda que começou sua vida no meio dos livros e esperava terminar s...

Sartre e as leituras

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Jean-Paul Sartre, no livro As Palavras, de teor autobiográfico, recorda que começou sua vida no meio dos livros e esperava terminar seus dias da mesma forma. O avô era encadernador, e o menino sentia orgulho de ser neto de um artesão especializado na confecção de “objetos sagrados”. Sim, para Sartre, o livro era um objeto sagrado e exigia muito respeito.

Sobre arte e coletivismo Agrupamentos de artistas têm lugar na História da Arte em seus vários momentos. Porém, desde o início do ...

Sobre o coletivo ''Mulheres da arte naïf PB como forma de resistência''

arte naif celia godim
Sobre arte e coletivismo

Agrupamentos de artistas têm lugar na História da Arte em seus vários momentos. Porém, desde o início do século XX, essas associações se particularizaram em relação à estrutura dos ateliês, baseados anteriormente no modelo próprio das guildas medievais onde a presença

O verdadeiro espírito natalino vai além das festividades e dos encontros familiares que acontecem apenas uma vez por ano. Ele resid...

Espírito natalino é acordar todos os dias com gratidão

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O verdadeiro espírito natalino vai além das festividades e dos encontros familiares que acontecem apenas uma vez por ano.

Ele reside em cada gesto de bondade, em cada ato de compaixão que podemos oferecer ao próximo todos os dias. O Natal, de fato, é uma oportunidade para refletirmos sobre a importância de estarmos atentos ao que nos cerca e àqueles que precisam de nós.

Dona Nalva, minha mãe, precocemente partiu para outras dimensões, mas teve tempo ainda de guiar meus passos e os de outros três bacuris...

Meus caros amigos

Dona Nalva, minha mãe, precocemente partiu para outras dimensões, mas teve tempo ainda de guiar meus passos e os de outros três bacuris até quase ao fim das adolescências (as nossas e não, é claro, a dela). No que me diz respeito, não faltaram os bons conselhos, principalmente aqueles que me alertavam sobre quão importante é selecionarmos, de maneira criteriosa, os amigos; enfim, os camaradas que estarão conosco pelas jornadas da vida.

À medida que nos aproximamos do Natal, um convite silencioso ecoa em nossos corações: como temos acolhido Jesus em nossa vida diária? ...

Natal: Tempo de Renovação Interior e de Vivência do Evangelho

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À medida que nos aproximamos do Natal, um convite silencioso ecoa em nossos corações: como temos acolhido Jesus em nossa vida diária? A data que celebra o nascimento do Cristo sempre desperta emoções profundas, mas, para além das tradições e dos afetos familiares, ela nos chama a renovar a disposição íntima de seguir seus passos e fazer brilhar, em nossas atitudes, a luz que Ele legou ao mundo.

Carta ao Pai é um dos textos mais íntimos e potentes de Franz Kafka. Escrita em 1919, mas nunca entregue ao destinatário, a carta tran...

Em nome do Pai

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Carta ao Pai é um dos textos mais íntimos e potentes de Franz Kafka. Escrita em 1919, mas nunca entregue ao destinatário, a carta transforma a experiência subjetiva do autor — marcada pelo medo, pela culpa e por um profundo sentimento de inadequação — em um documento literário singular, no qual a fronteira entre autobiografia, confissão e construção estética se dissolve.

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GD'Art
Dirigida ao pai, Hermann Kafka, a carta se estrutura como uma longa tentativa de explicar por que o filho teme o próprio pai. A narrativa é conduzida por uma voz que oscila entre a lucidez analítica e a fragilidade emocional; Kafka disseca, com precisão quase clínica, episódios da infância, gestos cotidianos e dinâmicas familiares que, em sua percepção, moldaram sua personalidade hesitante, culpada e insegura. O pai é descrito como uma figura monumental — física e simbolicamente — cuja autoridade absoluta se impunha por gritos, ironias, ameaças e expectativas inatingíveis. A criança, pequena e sensível, cresce sob a sombra de um poder que a excede, sem nunca conseguir corresponder ao modelo de força e virilidade paternas.

Mas a força do texto não reside apenas nas acusações. Há uma complexidade moral que impede uma leitura simplista. Kafka reconhece a bondade do pai, seu esforço para sustentar a família, sua história de superação, e admite que ambos são produtos de temperamentos incompatíveis. O que se descreve não é uma denúncia, mas um impasse afetivo. Em diversos trechos, o narrador manifesta compaixão por Hermann, reconhecendo seu sofrimento diante de filhos que não correspondem às suas expectativas. A carta revela, assim, a impossibilidade de comunicação entre dois mundos subjetivos que, embora ligados pelo sangue, não encontram uma linguagem comum.

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A sensação de inadequação, a figura de uma autoridade incompreensível, a culpa difusa e onipresente. Não obstante o filho ter “sucumbido” à influência paterna, ele se defende de acusações de ingratidão, alegando que o pai reforçou o que já existia nele, aplicando todo o seu poder. Não se trata de uma acusação, mas de um diagnóstico: “Mas justo como pai você era forte demais para mim”.

Para além do valor biográfico, Carta ao Pai é fundamental para a crítica literária. Kafka revela: “Meus escritos tratavam de você”, expondo ali as queixas que não podia fazer a Hermann. A figura paterna — implacável, arbitrária e inatingível — está diretamente transposta nos personagens autoritários que infernam a vida de Josef K., em O Processo; de K., em O Castelo; e do próprio pai Samsa, em A Metamorfose.

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Hermann Kafka Heron Books
A figura de Hermann Kafka aparece como um pai real, concreto, mas também como um pai simbólico hipertrofiado. Ele encarna a Lei — severa, contraditória, imprevisível — que estrutura o mundo do narrador. O medo infantil se converte em uma culpa persistente, que não deriva de atos específicos, mas de uma sensação de inadequação ontológica: Kafka sente-se, desde cedo, “menos” do que o pai exige. Essa discrepância entre o Eu frágil e o Ideal imposto pelo Outro é um dos eixos centrais da carta e ecoa conceitos freudianos como o superego punitivo e a formação reativa. O pai exige força, virilidade, decisão; o filho, impossibilitado de identificá-las em si, internaliza esse olhar crítico, transformando-o em autocensura.

Ao mesmo tempo, há uma ambivalência profunda: o pai é também figura de admiração, força, proteção e até de rara ternura. Essa duplicidade — amor e temor — sustenta a estrutura da relação edipiana. O filho deseja o reconhecimento do pai, mas teme sua autoridade; busca aproximação, mas é repelido pelo excesso de poder que percebe nele. O conflito entre desejo de identificação e impossibilidade de alcançá-la gera uma subjetividade marcada pela hesitação, pela insegurança e pelo silêncio.

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A própria escrita da carta pode ser compreendida como um ato terapêutico, tentativa de reinscrever o pai numa ordem discursiva em que o filho possa enfim falar — algo que, na convivência direta, era interditado. Escrever torna-se, assim, o gesto de recuperar a palavra perdida, de criar uma distância segura que permita elaborar o trauma e transformar a dor em forma. A literatura surge como a via possível de subjetivação.

No plano estilístico, destaca-se o rigor argumentativo. Kafka compõe sua carta como se estivesse construindo um caso: enumera episódios, organiza argumentos, analisa sua própria psicologia e a do pai, tenta ser justo, tenta ser racional. Contudo, o texto é atravessado por uma dor que escapa ao controle. A frieza lógica convive com momentos de intensa vulnerabilidade, como quando recorda raros gestos de ternura do pai, os quais, em vez de consolo, aumentavam sua perplexidade e culpa.

Este texto oferece um retrato do abismo intransponível entre dois temperamentos, um choque que forjou a psique e a obra de um dos maiores escritores do século XX. Esse registro epistolar-literário constitui, portanto, uma leitura obrigatória para compreender a raiz das temáticas de alienação, culpa e autoridade que definem o universo kafkiano.

REFERÊNCIAS CARONE, Modesto. A poética do fracasso: Ensaios sobre Kafka. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.
FREUD, Sigmund. O ego e o id. In: Obras completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1974.
FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização. In: Obras completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1974.
FREUD, Sigmund. Totem e Tabu. Porto Alegre: L&PM, 2013.
FREUD, Sigmund. Três ensaios sobre a teoria da sexualidade. São Paulo: Companhia das Letras, 2016.
KAFKA, Franz. Carta ao Pai. Trad. Modesto Carone. São Paulo: Companhia das Letras, 1997.

“ Descrições Gerais da Capitania da Paraíba ” foi escrito em 1639 pelo governador/capitão-mor holandês Elias Herckmans . É um dos pouco...

A Paraíba no tempo da invasão holandesa

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Descrições Gerais da Capitania da Paraíba” foi escrito em 1639 pelo governador/capitão-mor holandês Elias Herckmans. É um dos poucos documentos descritivos sobre a Capitania Real da Paraíba no período do domínio holandês (1634–1654).

Trata da chegada dos holandeses pelo Varadouro, entrando no Rio Paraíba em 22.12.1634. Descreve toda a capital daquela época e os prédios existentes. O autor morava no Convento de São Francisco, onde se instalaram os dirigentes holandeses.

Desde quando participei da Missa do Galo no Mosteiro de São Bento de Olinda, em comemoração ao nascimento de Jesus, os cânticos gregori...

Missa do Galo e os beneditinos

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Desde quando participei da Missa do Galo no Mosteiro de São Bento de Olinda, em comemoração ao nascimento de Jesus, os cânticos gregorianos, o incenso perfumando o ambiente e todo o rito complementar da celebração fizeram com que a liturgia ganhasse sublimidade naquela noite.

Ele tinha um nome tão antigo quanto o próprio Natal: José. José e mais nada. A singeleza desse nome resumia o sentido e ...

O bom velhinho

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Ele tinha um nome tão antigo quanto o próprio Natal: José. José e mais nada. A singeleza desse nome resumia o sentido e a dimensão da sua própria vida. Uma vida-José. Não era carpinteiro como o seu homônimo bíblico, mas aposentado do serviço público. E tinha, além do mais, a peculiaridade de ser gordo.

Eu evito ruas desertas/ Evito vielas/ Escadarias de bairro/ Mesmo cantos internos de calçada.// Eu evito praias desertas/ Caminhos soli...

Queremos as mulheres Vivas!

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Eu evito ruas desertas/ Evito vielas/ Escadarias de bairro/ Mesmo cantos internos de calçada.// Eu evito praias desertas/ Caminhos solitários na madrugada./ Evito a sombra das árvores/ Eu evito a própria noite/ Que é metade de um dia/ Que é metade da vida./ Mesmo quando acompanhada/ De outra mulher.// Mudo o caminho/ Dou a volta/ Meia volta/ Espero/ Mudo de calçada./Observo. (Veronica Ferriani)

Nasci numa casa feminina. Somos quatro irmãs e uma mãe. Vivemos todos os medos e avisos dessa citação acima. Sabemos bem do que se trata o espiar à nossa volta e fazer as devidas equações de proteção, da mais tenra infância à velhice.

Há mendigos que não estendem a mão nas esquinas, nem carregam embrulhos de roupas sujas. Sua fome não é de pão, mas de palavras; sua se...

Lugar interno

high society comportamento
Há mendigos que não estendem a mão nas esquinas, nem carregam embrulhos de roupas sujas. Sua fome não é de pão, mas de palavras; sua sede, de olhares que os reconheçam. São os mendigos emocionais, aqueles que vagueiam pelos corredores das relações com uma tigela invisível, pedindo migalhas de afeto.

Dica de leitura Título: O TRATADO DOS OPOSTOS Autor Hud Cunha

O tratado dos opostos

tratado dos opostos hud cunha
Dica de leitura

Título: O TRATADO DOS OPOSTOS
Autor Hud Cunha

Só agora me dei conta: nasci exatamente três dias antes da fundação da Universidade da Paraíba, na qual, já federalizada, iria trabalh...

70 anos da UFPB, maior patrimônio público da Paraíba

Só agora me dei conta: nasci exatamente três dias antes da fundação da Universidade da Paraíba, na qual, já federalizada, iria trabalhar durante 37 anos, até me aposentar, em 2017. Posso dizer então que minha vida foi e continua sendo profundamente entrelaçada a essa instituição ímpar que mudou o destino do nosso estado e de sua gente. Somos agora septuagenários, com muita honra. Uma idade sinônima de plena maturidade, qualidade que certamente cabe mais a ela do que a mim.

Desde quando você se interessa por esporte, ou melhor, por futebol? — é o que me pergunta a amiga, no café do Sebrae, quando me despeço...

Chutaram com minhas pernas

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Desde quando você se interessa por esporte, ou melhor, por futebol? — é o que me pergunta a amiga, no café do Sebrae, quando me despeço alegando o motivo. Tem sentido a pergunta.

Quando vivi na Espanha, tinha um refrigerante favorito: Aquarius. Era minha bebida de referência, como é a Inka Cola para quem visita o...

Onde está o extraordinário?

fazer diferenca ser extraordinario dom justo catedral aquarius mejorada
Quando vivi na Espanha, tinha um refrigerante favorito: Aquarius. Era minha bebida de referência, como é a Inka Cola para quem visita o Peru. Leve, menos doce que a maioria dos refrigerantes, Aquarius passava a ideia de hidratação, quase um meio-termo entre isotônico e refrigerante. Eu não me preocupava muito se era “saudável” ou não. Comprava sem precisar de propaganda.

Patos, Sertão da Parahyba, 11 de abril de 1933. Aos 64 anos de idade, falece, vítima de febre tifóide, Fenelon Fernandes Bonavides, fu...

O jornalista Paulo Bonavides

paulo bonavides patos paraiba jornalismo
Patos, Sertão da Parahyba, 11 de abril de 1933. Aos 64 anos de idade, falece, vítima de febre tifóide, Fenelon Fernandes Bonavides, funcionário do Telégrafo Nacional e encarregado da estação local. A esposa, Sra. Hermínia Fernandes Bonavides, também telegrafista, ficou com a responsabilidade de criar os seis filhos: Abrantina, Aloysio, Annibal, Dirce, Dulce e Paulo, este o mais novo, com apenas oito anos.

A produção musical para o período do Natal tem grande relevância para o mercado fonográfico e isso pode ser avaliado pelo destaque obti...

Boas Festas de Assis Valente

assis valente carmen miranda natal
A produção musical para o período do Natal tem grande relevância para o mercado fonográfico e isso pode ser avaliado pelo destaque obtido pela música White Christmas. Em 1942, a canção, composta por Irving Berlin (imigrante judeu russo que se tornou um dos principais compositores norte-americanos),

O livro O sonho de um homem ridículo , escrito pelo filósofo, escritor e jornalista russo Fiódor Mikhailovitch Dostoiévski (1821–1881) e...

Autoperdão de um pessimista

dostoievki sonho homem ridiculo redencao compaixao
O livro O sonho de um homem ridículo, escrito pelo filósofo, escritor e jornalista russo Fiódor Mikhailovitch Dostoiévski (1821–1881) e publicado em 1877, afirma que a salvação da humanidade não virá de sistemas políticos, avanços tecnológicos ou teorias abstratas, mas de uma profunda transformação interior. O autor defende uma exigência moral: o paraíso não está perdido no passado nem prometido para um futuro distante; ele é uma possibilidade sempre presente, que depende da escolha livre de cada ser humano.

      Quem dera um Jesus Sem cruz E mais importante Que ela Quem dera o fim Dos mártires, Dos excluídos, Dos sofrimentos “nec...

Quem dera um Jesus sem cruz

jesus cruz natal esperanca
 
 
 
Quem dera um Jesus Sem cruz E mais importante Que ela Quem dera o fim Dos mártires, Dos excluídos, Dos sofrimentos “necessários” Quem dera homens Com coragem para Pagarem seus próprios Pecados

Tout travaille à tout – Tudo trabalha para tudo – é o que afirma Victor Hugo, em Os miseráveis (Parte IV, Livro 3, Capítulo 3, p. 70...

Tudo trabalha para tudo

miseraveis victor hugo napoleao
Tout travaille à toutTudo trabalha para tudo – é o que afirma Victor Hugo, em Os miseráveis (Parte IV, Livro 3, Capítulo 3, p. 701), em um capítulo, cujo título em latim, “Foliis ac frondibus”, recupera um verso de Lucrécio, do Livro V, verso 971, do poema De rerum natura.

Em 1847, o capitão do mato Jacinto Pires, que se dedicava a perseguir e capturar escravos fugidos, começou a achar estranho que, nos úl...

Uma história terrível

Em 1847, o capitão do mato Jacinto Pires, que se dedicava a perseguir e capturar escravos fugidos, começou a achar estranho que, nos últimos tempos, tivesse perdido completamente o rastro de vários escravos que procurava. Mais estranho ainda: esses rastros acabavam sempre na fazenda Boa Esperança (Vale do Paraíba), de propriedade de Inácio Rodrigues de Albuquerque, que ali morava com a esposa Madalena e seus filhos Baltazar, Custódio e Perpétua, além de alguns escravos subnutridos. Era como se a terra tivesse engolido os fugitivos.

Estesia, do grego αἴσθησις, é a capacidade de perceber pelos sentidos, pelos sentimentos e pela inteligência. A linguagem poética é um ...

A linguagem poética

linguagem poetica epicuro lucrecio poesia romana
Estesia, do grego αἴσθησις, é a capacidade de perceber pelos sentidos, pelos sentimentos e pela inteligência. A linguagem poética é um dos vieses artísticos por meio dos quais a sensibilidade humana alcança esse estado: o da estesia.

Do alto, enxergamos a fortaleza em estrela; mais parece uma sentinela de geometria austera. Pedra sobre pedra foi erguida, a princí...

A Força nas Pedras — resistência e poesia nas muralhas

paixao destino amor tragedia

Do alto, enxergamos a fortaleza em estrela; mais parece uma sentinela de geometria austera.

Pedra sobre pedra foi erguida, a princípio para nos defender contra aqueles que desejavam nos conquistar, vindos do além-mar. Porém, quando parecia não ter mais serventia para lutar, transformou-se em um local agradável para passear e em histórias para recordar. As relíquias ali existentes precisam ser guardadas, protegidas daqueles que porventura delas queiram se apropriar. Os soldados, militares e guardas se revezam para cumprir essa missão e não deixar que as recordações se destruam.

Asfalto novo, ainda cheirando a piche e óleo cru. Eu ali no meio, boquiaberto, pensando como fora parar naquela avenida ainda não ina...

Avenida Sem Nome

transito carro onibus cidade avenida rua sem nome
Asfalto novo, ainda cheirando a piche e óleo cru. Eu ali no meio, boquiaberto, pensando como fora parar naquela avenida ainda não inaugurada. Sem indicação dos sinais que deveria seguir. O que seria sentido obrigatório ou contramão? Quando o sinal ficaria vermelho? Como os pedestres poderiam atravessar a pista? Ainda com toda aquela confusão, havia um fluxo intenso que me deixava atônito. Via pessoas indo e vindo, completamente desorientadas. Muitas acenavam com um sorriso sem graça, fingindo saber para onde iam, mas estavam perdidas. Outras, por educação, pediam licença e perguntavam onde poderiam parar, temendo ser atropeladas.