Perguntou-me baixinho o que me matara: ⏤ A beleza, respondi. ⏤ A mim, a verdade ⏤ é a mesma coisa. Somos irmãos. Emily Dickin...

Emily Dickinson e o livro de horas

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Perguntou-me baixinho o que me matara:
⏤ A beleza, respondi.
⏤ A mim, a verdade ⏤ é a mesma coisa.
Somos irmãos.Emily Dickinson. Beleza e Verdade. Trad. Manuel Bandeira
Manuel Bandeira afirmou certa vez que a poesia só deveria ser traduzida por poetas ou por aqueles que fossem imbuídos de sentimentos poéticos. Bandeira traduziu, com mestria, poetas espanhóis, franceses e poetas de língua inglesa. Qual o leitor afeito às traduções de Bandeira não se recorda do poema Beleza e Verdade, de Emily Dickinson? O poeta/tradutor conseguiu transportar para
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Ângela Lago (1945–2017), escritora e ilustradora mineira, nascida em Belo Horizonte, referência na literatura infantil.
o português a graciosidade que esse poema irradia.

Para alegria dos admiradores da poesia de Emily Dickinson, a escritora mineira Ângela Lago, em edição de rara beleza publicada pela Scipione, selecionou, traduziu e ilustrou 24 dos 1.775 poemas escritos pela autora, reunindo-os sob o título Um livro de horas. A edição de Thomas H. Johnson — The Complete Poems of Emily Dickinson — serviu como texto-base para a tradução. Como os poemas originais não tinham título, Ângela Lago optou por nomeá-los segundo critério pessoal e realizou uma tradução livre.

O livro foi apresentado por Lúcia Castelo Branco que escreveu um consistente ensaio e traz informações valiosas sobre a poetisa norte- americana.

Emily Dickinson nasceu em 1830, em Armherst, no Estado de Massachusetts (EE. UU.). Era muito reservada, tinha poucos amigos e gostava de viver reclusa. Tinha o hábito de escrever em qualquer pedaço de papel que encontrasse por perto –
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Emily Dickinson (1830–1886), poetisa norte-americana e uma das vozes mais originais da lírica em língua inglesa.
papéis de cartas, receitas de bolo, capas de livros. Muitos dos seus poemas foram copiados e “editados” em cadernos, conhecidos como fascículos que ela mesma dobrava e costurava. Costumava mandar alguns dos poemas para amigos acompanhados de cartas com flores e tecidos bordados. Os temas das flores e dos bordados eram recorrentes em sua poesia.

Dos 1.775 poemas encontrados nas gavetas de suas cômodas, menos de 10 foram publicados durante sua vida, os outros só foram descobertos após a morte. Ela dizia que não tinha pressa em publicá-los, viveu 56 anos, hoje sua obra poética é conhecida, não só nos Estados Unidos, mas em todo o mundo.

O que seria chamado livro de horas?

O livro de horas era um gênero medieval que continha orações para diversas horas do dia. Na pertinente observação da ensaísta Lúcia Castelo Branco: “esses livros vinham ornamentados por iluminuras, esses contornos de flores e volutas que, como bordados, circundavam os manuscritos”.

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Livro de Horas, 1510 ▪ Schnütgen Museum, Colônia, Alemanha
Ângela-Lago foi feliz na escolha do título, traduziu os poemas que se aproximam de verdadeiras orações, ilustrou-os com delicadas iluminuras de flores e arabescos e fez uma seleção cuidadosa dos textos. Ela revela que o encontro com a poesia de Emily Dickinson ocorreu há mais de vinte anos, quando um amigo lhe deu de presente o livro da autora americana. Sabendo que gostava de recitar poemas como se estivesse rezando, veio com esta dedicatória: “Para Ângela lembrar de suas orações.”

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Um livro de horas, uma verdadeira obra de arte, contém 24 poemas selecionados e traduzidos pela escritora/ilustradora mineira, uma edição bilíngue (inglês/português), em capa dura, de cor vermelha. O uso dos travessões, uma característica também presente em seus poemas, é atribuído, por alguns críticos, como uma forma de marcar o ritmo, outros associam essa marca pessoal aos bordados e alinhavos.

Para escrever os poemas, ela se recolhia em seu quarto, era a hora do silêncio, da tranquilidade. O poema Para a hora do coração na mão, na tradução livre de Ângela-Lago leva o leitor para esse ambiente silencioso e aconchegante, como se pode depreender na leitura dos versos:

O paraíso é tão longe Quanto o quarto mais perto Se nesse quarto se aguarda Felicidade ou deserto. Forte é o coração Que suporta O estalido De um passo na porta.
p. 57
Para Gaston Bachelard, “todos os abrigos, todos os refúgios têm um valor onírico”. O quarto é o espaço interior, é o espaço da intimidade. É nesse ambiente que se vislumbra o Paraíso e se aguarda a Felicidade ou deserto.

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Livro de Horas, 1485 ▪ Biblioteca da Polônia
O quarto não é não é apenas um refúgio íntimo para divagações e devaneios, é o “espaço de solidão”. Ele abriga uma “imensidão íntima” , permite que a pessoa se sinta aquecida e protegida. Era o local preferido de Emily Dickinson para escrever, para divagar, para sonhar.

O estalido de uma porta pode ser o prenúncio de alguma coisa há muito esperada. O coração bate forte. Quem será?

Dickinson também se preocupava com a fugacidade do tempo. O poema Para a hora do enigma é representativo deste estado de espírito. Comprova-se com a leitura da primeira estrofe do poema:

Algumas coisas voam: Pássaro, abelha, hora. Não canto nenhuma agora.
A enumeração (pássaro, abelha, hora) parte do mais duradouro para o mais efêmero, do mais concreto para o mais abstrato. Vemos o pássaro, a abelha, mas a hora? Ela pode parecer interminável nos momentos de angústia, de espera, e fugidia nos momentos de prazer.

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Livro de Horas, 1372, Paris, Biblioca National da França
São 24 poemas que levam o leitor a refletir sobre o grande mistério da Vida. A poetisa partiu há mais de cem anos, mas a beleza de sua poesia encantou os leitores de ontem e continua encantando os leitores de hoje.

COMENTÁRIOS
  1. Que beleza seu texto, profa. Neide, tão sensível quantos os poemas. A vida dessa poetisa que não publicou em vida comove e faz pensar. Natalia Ginzburg comentou sobre a solidão de Emily Dickinson e se perguntou que escritor hoje viveria em uma cidade do interior sem interlocução para sua criação. Me parece que essa solidão faz dela um ser poético maior.

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