“...e nem se despediu de mim” Quando alguém faz aquela viagem que estava fora do combinado, sem volta, a jornada definitiva, e é ...

Enxuto

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“...e nem se despediu de mim”
Quando alguém faz aquela viagem que estava fora do combinado, sem volta, a jornada definitiva, e é chegada a hora da partida, não é incomum ouvirmos as mais diversas conjeturas de quem está tentando aliviar a dor dos que ficaram. Coisas assim: Foi para um bom lugar ou Está melhor do que nós. Tem ainda, se o viajante padecia de alguma enfermidade grave: O pobre descansou. Quando a compra do bilhete de partida se deu de forma inesperada, não falta o: Ontem mesmo conversou comigo e parecia estar vendendo saúde. É nesses momentos que também se fazem presentes os filósofos de plantão: Aí está o destino de todos nós. Precisava lembrar?

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Nem era para eu estar aqui com essas elocubrações tão óbvias, com as quais nos deparamos inúmeras vezes. E por que fui me lembrar delas? É que, com dez dias de atraso, recebi a infausta notícia de que um amigo partira para outras dimensões. Recebi pelo WhatsApp um santinho já “fora de validade”, provavelmente entregue quando da missa de sétimo dia. Lá estava o Valdemir sorridente em foto antiga, ele mais jovem, ostentando vigor e registrando que testemunhara as 85 voltas que a Terra dera em torno do Sol. Mas o Valdemir, que era Almeida também, foi conhecido como Valdo dos Correios e, para os mais chegados, de Enxuto.

O apodo Enxuto é de longa história. O que vale mesmo registrar é que poucos conheci que tivessem a habilidade de Enxuto para contar causos. Não aquelas mentiras nas quais o ficcionista se lambuza de prazer em dizê-las, mas coisas verídicas que presenciou ou das quais foi personagem. Era depositário das mais hilariantes histórias de sua Itabaiana.

Não tenho nenhum constrangimento em dizer que, nas páginas do último livro que escrevi, lá estão relatos que me foram passados pela memória prestigiosa do velho Valdo. Cada história...

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Vamos, então, a um pouco do Enxuto.

Foi seminarista, almejou ser o Sumo Pontífice, mas as tentações da carne e outras mais não permitiram que suportasse o peso da batina, o que fez com que mudasse drasticamente de moradia. Saiu do seminário e foi morar no cabaré de Dona Nevinha, lá na Rua do Carretel, em Itabaiana. Pensem numa mudança radical. Mas não imaginem que, por ser a nova residência de Enxuto uma casa de facilidades, nosso amigo fixara moradia em um local esculhambado. Nada disso. Não era um cabaré meia-boca, mas um estabelecimento de respeito, tanto que o nome do lupanar já inspirava acatamento: BOATE NOSSA SENHORA DAS NEVES. E quem ali adentrasse iria se deparar com uma plaqueta que ditava as regras da casa: AMBIENTE FAMILIAR.

Nosso amigo também foi um exímio lateral-direito do glorioso Vila Nova de Itabaiana e beque de futsal (antes era futebol de salão) no não menos celebrado Tic-Tac da mesma cidade. Mais para frente, foi craque
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nessa modalidade da bola pesada no Esporte Clube Cabo Branco, da capital paraibana. Talvez Enxuto tenha sido o último remanescente dessa geração que corria atrás da bola lá no final da década de 1950 e uns anos mais na seguinte.

Quantas histórias ouvi desse quase integrante de nossa Seleção Canarinho. Ele dizia que tinha bola para isso. Não há mais testemunhas; então, temos que acreditar.

Eternizei alguns relatos de Valdo. Aliás, livros servem também para isso. O melhor foi a história do Nego Lau, que dividia a zaga do Vila Nova com Enxuto. Nego Lau, que cantava “Torre de Babel” melhor que Jamelão. Este intérprete de samba-enredo soubera da proeza e homenageou seu “cover” quando este (o genérico) já havia morrido como indigente no Rio de Janeiro. Há outras histórias de mesmo quilate.

É isso. Como disse linhas atrás, não fui às exéquias desse meu parça. Ontem apareci na Livraria do Luiz, onde sempre o encontrava. Olhei para aquela mesa, aquela em que ele gostava de ficar para contar os seus causos. Foi quando conjeturei que, se tivesse ido à sua despedida, nada diria, como aquelas bobagens que já citei no início deste texto. Deixaria, e assim fiz, para dizer agora aos meus leitores e leitoras: “Naquela mesa está faltando ele”.

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