O cônego Antonio Andrada iniciou o ritual de encerramento da cerimônia religiosa, os fiéis contritos faziam o sinal da cruz, e evacuavam a igreja em passos lentos, respeitosos. Nem um sussurro deixavam escapar, nem o mais tênue arrastar de pés era possível perceber. Caminhavam numa leveza, parecendo levitar. Comunicavam-se por gestos e sinais sutis quase imperceptíveis. Os idosos e alquebrados se deixavam conduzir pelas mãos firmes dos mais vigorosos, sem deixarem transparecer a menor queixa ou lamento de dor, imbuídos que estavam de fé e devoção.
GD'Art
O templo estava tomado de um silêncio profundo e piedoso.
De repente, porém, aquela harmonia solene e penitente foi sacudida pela entrada intempestiva do ricaço Dãozinho Ramalho, furioso, como um possesso, avançou templo adentro, disposto a destratar e agredir o sacerdote, que naquele momento na sacristia retirava os paramentos.
O alvoroço foi o maior. O interior da igreja virou um pandemônio: choros convulsos, gritos histéricos, ecoavam em todas as direções, bancos revirados, altares danificados, gente pisoteada, crianças desgarradas, cegos e aleijados levados aos tropeções. Era demais para aquela gente. Onde já se viu tamanho despautério? Acreditavam que era obra do demônio.
Toda essa ira se dera pelo zelo que o padre devotava a seus paroquianos e à causa religiosa. Corriam boatos de que o fazendeiro, senhor de muitas posses e de muitos votos, vivia na amigação – apesar de bem casado e com família bem encaminhada – com algumas de suas moradoras e agregadas; contavam e pediam segredo, que muitas, ainda menores de idade, eram lançadas na rua da
GD'Art
amargura com o bucho no pé da goela. As famílias das infelizes criaturas engoliam a afronta de bico calado, sem terem a quem apelar.
Contudo, havia ali na terrinha uma voz que não se calava por nada deste mundo, fosse grande ou pequeno, não fazia diferença. E foi o que sucedeu. O cônego Antonio Andrada, ciente das diabruras do poderoso, ficou revoltado e botou a boca no mundo. Berrava do púlpito que não admitia aqueles desatinos na sua paróquia, e exigia um basta. Cutucou maribondo com vara curta. O senhor Dãozinho Ramalho, que não era de levar desaforos para casa, ao se inteirar dos acontecimentos, de imediato, cortou relações com o vigário, e afirmava que não poria os pés na igreja enquanto aquele desaforado estivesse lá, e não perdia ocasião para descompor o sacerdote. Quem ele pensava que era? Um padreco vindo não se sabe de onde, querer ditar regras de moral e bons costumes. Cuidasse de suas beatas. Os desaforos iam e vinham.
E deu no que deu.
GD'Art
O corre-corre e a gritaria corriam soltos. Quem se encontrava no interior do templo procurava sair, temendo testemunhar um sacrilégio. De fora, afluíam levas de curiosos atraídos pelo alvoroço. Do choque entre as massas formou-se uma barreira intransponível. Ninguém entrava e ninguém saía.
A agressão não tomou outros rumos, graças à atuação decidida de alguns paroquianos; fizeram um círculo em torno do vigário, e com muito custo, invocando os santos conhecidos e desconhecidos,
GD'Art
conseguiram aplacar o furor e afastar o fazendeiro do recinto sagrado.
Ficaram, porém, as ameaças. De um lado, não se dando por satisfeito o senhor Dãozinho Ramalho afirmava em altos brados que levaria a cabo o seu intento, na primeira ocasião que surgisse. Do outro, o padre ultrajado não se fez de rogado, e jurou, ali mesmo, de pés juntos, que o seu desafeto pagaria um preço muito alto pela afronta.
Dito e feito.
Não demorou muito uma série de coisas nocivas e desagradáveis foram se manifestando: um incêndio no paiol de algodão, mortes frequentes no rebanho bovino, negócios mal realizados e outros infortúnios. De início ninguém deu a importância devida aos fatos. Mas, com o passar do tempo e sem que os malfadados acontecimentos dessem sinais de arrefecimento, as pessoas começaram a associar uma coisa a outra, a unir as pontas. Não demorou muito passaram a aceitar de forma irrefutável, o rogo do padre ao malogro do fazendeiro. Só podia ser a praga do padre. Diziam e se benziam. Muitos chegavam a cortar caminho para evitar o cumprimento. As beatas, essas sim, passavam ao largo do casarão da família, residência imponente, e torciam a cabeça para evitar os maus fluidos.
GD'Art
Evidente, que nem todos acreditavam e endossavam essas atitudes de certos grupos de pessoas. Havia aqueles de idéias arejadas, com certo grau de informação que rejeitam, de forma peremptória, qualquer alusão a esse respeito. Achavam que tudo não passava de baboseira de gente atrasada e desocupada.
Acreditar ou não, ficava a critério e a juízo de cada um. Coincidência ou não, o certo é que o desditoso definhava a olhos vistos. Os seus negócios iam de mal a pior. O comportamento arrojado cedeu lugar à apatia. Tornou-se uma pessoa inepta e desastrada. Com isso fortaleceu-se ainda mais a crença popular: ¨Praga de padre¨.