Não é a primeira vez que trago este assunto à baila: a nossa indigência cultural, com relação às edições críticas. O abandono da Filologia, nos currículos universitários, leva ao desconhecimento da ecdótica, como prática de preparação de edições confiáveis. Atente-se para o fato de que a edição crítica não é a edição que contém textos críticos sobre ela, mas aquela que, através de um estudo exaustivo e minucioso, busca fixar um texto, aproximando-o, o máximo possível, da vontade autoral. Por outro lado, também
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não significa a liberdade para mudar o texto do autor, mas sanar os erros tipográficos diversos, provenientes da composição gráfica, como ocorria antigamente, da digitação ou até da interpretação errônea do manuscrito. Em alguns casos, erros oriundos da chamada hipertrofia da correção, quando o revisor ou o editor pretendem corrigir o que eles supõem ser um erro do autor.
São poucos os escritores brasileiros contemplados com uma edição crítica. Raríssima a edição sobre a obra completa de um autor, como é o caso de Machado de Assis (1839-1908), cuja obra foi editada em 1977, pela Civilização Brasileira, com a parceria do Instituto Nacional do Livro (por onde anda?) e o Ministério da Educação e Cultura, sob a égide a Comissão Machado de Assis, presidida à época de sua instituição, 1958, por Elmano Cardim e Austregésilo de Athaíde, contando ainda com a participação de escritores da estirpe de Augusto Meyer, Herberto Sales, Antônio Houaiss, Aurélio Buarque de Holanda, Ciro dos Anjos, Lúcia Miguel Pereira, Manuel Cavalcanti Proença, Antônio José Chediak e muitos outros.
Ed. Civilização Brasileira
A obra foi publicada em 15 volumes, com os direitos cedidos à Civilização Brasileira, mas, atualmente está fora de mercado. Desnecessário dizer da importância de sua volta ao mercado editorial.
A obra do poeta Gregório de Matos Guerra (1636-1696) também teve a fixação do texto de um dos códices importantes, o Códice Asensio-Cunha, já que não deixou obra publicada ou manuscrito autógrafo. A edição crítica, trabalho de João Adolfo Hansen e Marcello Moreira, foi publicada pela Autêntica, em 5 volumes, no ano de 2013.
Afora Machado de Assis e Gregório de Matos, até onde posso alcançar, apenas a obra de Augusto dos Anjos teve direito a uma edição crítica, levada a cabo pelo poeta e crítico Alexei Bueno, em edição pela Nova Aguilar, volume único, em 1994. Ainda podemos contar nos dedos das mãos edições críticas de obras únicas, como a de Os sertões, de Euclides da Cunha, num trabalho monumental de Walnice Nogueira Galvão, publicada pela Brasiliense, em 1985, e republicada atualmente pela Ubu/SESC de São Paulo, em 2019.
1. Augusto dos Anjos, com anotações de Alexei Bueno, Ed. Nova Aguilar, 1994 ▪ 2. Os sertões, de Euclides da Cunha, organizado por Walnice Nogueira Galvão, Ed. Ubu/SESC, 2019
Entram nessa lista a edição crítica de Macunaíma (1978), de Mário de Andrade, estabelecida por Telê Porto Ancona Lopez, recentemente falecida; a edição de A bagaceira (1989), de José Américo de Almeida, fixada a partir da 29ª edição, trabalho dos professores da Universidade Federal da Paraíba, Milton Ferreira Paiva, Elisalva de Fátima Madruga e Neroaldo Pontes de Azevedo, e a belíssima edição de Marília de Dirceu, de Tomás Antônio Gonzaga, preparada pela professora Melânia Silva de Aguiar, para a comemoração do bicentenário dessa obra do nosso Arcadismo, em 1992 (Villa Rica, Belo Horizonte, Rio de Janeiro). É volume para colecionador.
Digamos que um trabalho de edição crítica, não importa o tamanho da obra, mas a sua constante reedição, é um esforço ingente, tendo em vista que o filólogo encarregado de sua preparação tem a obrigação de revisitar todas as edições e compará-las minuciosamente. Além da fixação do texto, como uma lição que pode ser revisitada, desde que haja novas descobertas, o filólogo deve preparar o aparato crítico do texto, revelando qual o texto que serviu de base para aquela edição, bem como apontar as variantes que, muitas vezes, levam
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a erros significativos na obra do autor.
Infelizmente, uma vez o texto fixado e a lição estabelecida, o trabalho desenvolvido e dado ao público não será, necessariamente, seguido nas próximas edições do autor. Lembremos, por exemplo, quantas edições da poesia de Augusto dos Anjos, apesar da edição de Alexei Bueno de 1994, continuam a repetir erros crassos, como o verso 12 do soneto O Lamento das Coisas – “E é, em suma, o subconsciente ai formidando” –, transformado em “aí formidando”, resultado de um erro de leitura e de desconhecimento do que se edita. São erros assim, repetidos à exaustão, que levam o meu amigo Alexei Bueno ao paroxismo, e com toda a razão.
Muito pior aconteceu com Os sertões. Em 2019, a Penguin Classics Companhia das Letras lançou uma edição dessa obra de Euclides da Cunha, com estabelecimento de texto de Andre Bittencourt, com vários erros tipográficos e divergindo, em muitas passagens da fixação empreendida por Walnice Nogueira Galvão. Não há, nessa edição, qualquer explicação do que seja “estabelecimento de texto”, nem os critérios adotados.
Euclides Rodrigues Pimenta da Cunha (1866—1909), escritor, jornalista, engenheiro e ensaísta fluminense, nascido em Cantagalo, autor de Os sertões.
Como tudo no Brasil, país da falta de persistência, do descaso com a tradição, e do culto à ignorância, a existência de uma edição crítica não é garantia de que novos erros não serão cometidos, em edições posteriores.
A título de esclarecimento do que é o trabalho de uma edição crítica, falarei um pouco do estudo de Antônio José Chediak sobre o estabelecimento de um texto confiável, possível, para o poema Tragédia no mar (O navio negreiro), cujo estudo nos diz da necessidade das edições críticas, num curto, mas substancial período do seu prefácio ao livro Castro Alves, Tragédia no mar: (O navio negreiro), um massudo exemplar de 700 páginas (Rio de Janeiro, Academia Brasileira de Letras, 2000, p. 9):
“Acreditamos que já não é sem tempo que se deva proceder a uma revisão geral nos textos em prosa e verso da nossa literatura, em edições post mortem, restaurando-lhes, se for o caso, a forma que lhes deram seus autores.”
De início, já se aponta uma informação desconhecida por muitos, inclusive professores de Literatura: o título do poema é Tragédia no mar, tendo como subtítulo O navio negreiro, entre parênteses, conforme atesta o único manuscrito autógrafo do autor, o chamado codex unicus, feito em São Paulo e datado de 18 de abril de 1868, conseguido em cópia fotomecânica por José Antônio Chediak, com o auxílio do amigo Américo Jacobina Lacombe.
Atualmente, o manuscrito original se encontra no Instituto Geográfico e Histórico da Bahia.
O título original se manteve nas duas primeiras edições públicas do poema. A primeira, em 1869, no Myosote, jornal literário do Rio de Janeiro. A segunda publicação, ainda em periódicos, surgiu no Jornal da Tarde, nº 200, também do Rio de Janeiro, em 23 de junho de 1870. A partir da 3ª publicação, desta feita em livro, na Tipografia da Escola, de Serafim José Alves, em 1880, ainda no Rio de Janeiro, o subtítulo O navio negreiro se sobrepôs ao título Tragédia no mar, com este assumindo a condição de subtítulo, confinado aos parênteses. Daí em diante, poucas foram as vezes em que o poema retornou ao seu título original, ficando conhecido como O navio negreiro (Tragédia no mar).
Ed. Global
Não se pense que as publicações se dando em vida do poeta facilitam a minimização de erros. A publicação no Myosote (1869) e no Jornal da Tarde (1870), como não foram revistas pelo poeta, que só morre em 1871, trazem erros lamentáveis, alguns de composição tipográfica como “infiuitos” por “infinitos”, verso 9 (na antiga caixa tipográfica, um “n” colocado de cabeça para baixo tornava-se um “u”, e vice-versa) – ‘Stamos em pleno mar – dous infinitos” –, outros por inversão na composição do poema, como se vê no verso 92 – “Que das luzernas avermelha o brilho” por “Que avermelha das luzernas o brilho” –; “juguar” ou “jugar” por “jaguar”, como vemos no verso 193 – “Tendo a peste por jaguar”. Não importa, no entanto, qual o tipo de erro que se comete na publicação impressa, a partir da má leitura de um original. Todos comprometem o texto, o mais das vezes, truncando-o e tornando-o incompreensível.
Antônio Frederico de Castro Alves (1847–1871), poeta, dramaturgo e advogado baiano, nascido em Cachoeira, autor do poema Tragédia no mar (O navio negreiro).
É aí que se faz necessária a fixação do texto, visando, nas palavras de José Antônio Chediak, “restabelecer a pureza original de um texto”, empreendendo um trabalho de acompanhamento das publicações do poema de Castro Alves, desde a sua primeira publicação, em 1869, até o ano de 1997.
Para finalizar esta introdução ao assunto, realizei uma comparação entre o texto autógrafo original, publicado como fac-símile na obra de Chediak, e o texto que se encontra na edição
Castro Alves, obra completa (Rio de Janeiro, Nova Aguilar, 1986, p. 277-284), cujo resultado revelou alguns desacertos. Sem levar em conta a pontuação, pois não estamos estabelecendo texto, vamos tratar apenas do que consideramos mais grave.
No verso 10 (consideramos a contagem linear dos versos, sem nos apegarmos à sua divisão em partes e em estrofes), “Ali se estreitam num abraço insano”, a rejeição da crase estabelecida pelo poeta – “s’estreitam” – não tem razão de ser, por existir, logo abaixo, no verso 21, uma elisão menos espontânea do que a crase anterior, em “bem feliz quem ali pode nest’hora”. Aceitemos, no entanto, o argumento de que ficaria difícil para o leitor fazer a elisão de “nesta hora”, o que prejudicaria a métrica do verso decassílabo ali utilizado. O argumento, porém, em favor de “se estreitam”, não se sustenta, quando vemos que, no heptassilábico verso 183, “E cai p’ra não mais s’erguer”, a crase original foi preservada. Há, portanto, contradição clara de critérios, entre a rejeição de “s’estreitam” e a manutenção de “s’erguer”.
O verso 22, “Sentir d’este painel a imensidade!...”, torna-se, na edição da Aguilar, “Sentir deste painel a majestade!...”. O que autoriza a troca de “imensidade” por “majestade”? Não se explica.
No verso 47, há uma controvérsia curiosa: “Amo a cadência do verso” transformou-se, na edição da Aguilar, em “Ama a cadência do verso”, atribuindo-se ao marinheiro (nauta) a ação de amar.
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Quem operou a mudança deve ter esquecido que o eu-lírico está presente no fatídico navio, como o demonstram a anáfora “ ’Stamos em pleno mar...”, das quatro primeiras estrofes. Isto prova que, para se estabelecer um texto, há que se observar a sua estrutura.
Algo semelhante acontece no verso 88. Como o eu-lírico é testemunha dos acontecimentos, a sua proximidade dos fatos lhe concede uma visão privilegiada. Assim, o alexandrino do original, “Mas que vejo eu aí... que quadro de amarguras!”, tornou-se “Mas que vejo eu ali... que quadro de amarguras!”. Fica claro que, para se estabelecer o texto, não se procurou conhecer a sua estrutura, ignorando-se o mergulho da “águia do oceano” sobre o barco, para constatação de “cena infame e vil”. A presentificação do texto – “ ‘Stamos em pleno mar” – e o voo de descida, num pedido reiterado – “Desce do espaço imenso, ó águia do oceano!/Desce mais, inda mais...” – não deixam dúvidas quanto à utilização do dêitico “aí”.
Há ainda a troca de “líbios” por “tíbios”, no verso 161, “Trazendo com líbios passos”, conforme consta no original autógrafo. A alusão a Agar, a escrava egípcia de Abraão, que lhe dá o primogênito Ismael,
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quando Sarah ainda é infértil, autoriza a permanência de “líbios”. Tendo sido expulsa da tenda de Abraão, após o nascimento de Isaac, gerado por Sara, Agar sai a vagar por uma região ainda de fronteiras não muito distintas entre o Egito e a Líbia, com a garantia dada por Deus de que o seu filho seria o patriarca de um grande povo, no caso, os ismaelitas ou muçulmanos. Não é que Castro Alves desconheça a África negra, de onde trouxeram os povos para o trabalho escravo nas Américas. Trata-se, a nosso ver de uma comparação de peso, tendo em vista a história bíblica do Gênesis ser muito conhecida.
Por fim, nos versos 218 e 219 do poema, vemos, respectivamente “cobardia” e “bacante”. Qual o motivo da troca de “covardia” por “cobardia”? Por que “Bacante”, que tem um sentido mais profundo, foi trocado por “bacante”? Não há como explicar, a não ser pelo desconhecimento da fonte primeira do poema, o manuscrito original autógrafo de 1868, dando razão à afirmação de Chediak (op. cit. P. 152):
“Da dificuldade de acesso aos originais autógrafos é que se originam muitas das péssimas edições de nossos poetas e prosadores”
Quem trabalha com fixação de texto, contudo, não está imune às peças pregadas pela ironia. Esta deusa, que tanto nos contraria, não resiste a, em algum momento, nos fechar os olhos já cansados de perscrutar as minúcias do texto. Apesar do trabalho exaustivo e muito importante de José Antônio Chediak, ele próprio foi vítima de um cochilo, do qual nem o próprio Homero se livrou. No verso 124 do original, lê-se: “Qual num sonho Dantesco as sombras voam...”. Na transcrição diplomática do texto, o cochilo aconteceu e “Dantesco” tornou-se “Dandesco”...