Há preconceitos que desaparecem com o tempo. Outros apenas mudam de roupa. Quando alguém anuncia que vai cursar Medicina, os apl...

Escrever e aprender é como respirar

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Há preconceitos que desaparecem com o tempo.
Outros apenas mudam de roupa.
Quando alguém anuncia que vai cursar Medicina, os aplausos costumam ser imediatos. Direito? Excelente escolha. Engenharia? Ótimo futuro. Informática? A profissão do momento – ou do "amanhã" (que "amanhã"? Tudo é tão rápido!). Mas experimente dizer que pretende cursar Letras.

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Nesta minha primeira crônica para o "Ambiente de Leitura Carlos Romero" — honra que registro com alegria — pensei longamente sobre o que poderia interessar aos leitores deste eclético e interessante espaço. Poderia falar de política, de cotidiano, de livros. Mas acabei chegando a um tema que me acompanha há anos: o desprestígio da docência e, especialmente, dos cursos de Letras; o modo como a sociedade passou a olhar para o ensino, para a literatura e para quem escolhe a profissão de professor.

Quando eu era criança, ser professor/a era motivo de respeito quase solene. Lembro-me de rezar no início das aulas, levantar da carteira quando a professora entrava na sala e ouvir em casa que educadores mereciam consideração. O/a professor/a era visto/a como alguém que ajudava a formar pessoas, não apenas transmitir conteúdo.

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Hoje, em 2026, a realidade é outra. Em muitas escolas particulares — e não falo por ouvir dizer, mas por experiência própria — professores são pressionados a evitar reprovações porque os pais pagam caro pelas mensalidades. Se os resultados dos filhos não agradam, podem reclamar à direção ou simplesmente mudar de escola. Em alguns casos, o aluno passa de ano mesmo sem atingir a nota mínima. E, paradoxalmente, quando o desempenho da turma é ruim, a culpa recai quase automaticamente sobre o professor.

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Claro que métodos de ensino podem falhar. Mas há uma diferença entre avaliar criticamente a educação e transformar o docente em bode expiatório permanente.

Todos os cursos têm importância fundamental. Medicina salva vidas. Engenharia constrói cidades. Direito organiza instituições. Filosofia questiona o mundo. História preserva a memória. Letras forma professores, tradutores, pesquisadores e leitores críticos. Ainda assim, os profissionais que sentem o chamado para ensinar passaram a ser, muitas vezes, alvo de consternação, apreensão e até deboche.

Alguém pode argumentar: “Mas os alunos não foram bem ensinados”. Às vezes isso acontece, claro. Nenhum profissional é infalível. Mas também é uma falácia imaginar que o fracasso escolar decorre exclusivamente do professor, como se o esforço do aluno não tivesse papel algum.

O preconceito começa já na escolha do curso. Quando alguém diz que fará Filosofia, surgem comentários do tipo: “Vai fazer o quê com isso? Morrer de fome?”. Com História, a reação costuma ser semelhante.
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E Letras? Ah, Letras merece uma categoria especial de julgamento social.

O preconceito contra Letras assume formas curiosas. Quando alguém diz que fará “Letras-Português”, logo aparece a pergunta: “Só Português?”. Como se ensinar a própria língua, bem escrita e bem falada, fosse algo menor. A língua é viva, dinâmica, cheia de gírias, estrangeirismos e novos sentidos. Ainda assim, não há problema em usar expressões como “folgo em saber” (isto é, me alegro com a notícia) ou “acepipes” (petiscos para seres humanos, não a conotação atual, para cachorros). Conhecer a norma culta não é "bobagem"; é ampliar possibilidades de expressão.

Se a escolha é Letras-Espanhol, surge outro comentário: “Não teve capacidade para inglês”. Como se espanhol fosse um idioma “fácil” apenas por se parecer com o português (e vice-versa, não estou dando prioridade ao português). Quem estuda a língua de verdade sabe que a semelhança engana.

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Então chegamos à categoria quase mítica: Letras-Inglês. Aí, sim, o cenário muda, aparecem os elogios. Tradução, viagens, intercâmbio, trabalho no exterior. Cria-se uma aura (e, por favor, não "áurea ") em torno do inglês, como se apenas ele abrisse portas internacionais, garantia de prestígio e sucesso. E, quando alguém retorna de uma experiência fora do país, pode virar celebridade local, alvo de admiração, inveja ou ambas (a linha entre elas é tênue). Não raro surge o comentário: “Fulano voltou se achando”.

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Também chama atenção o preconceito quando o estudante é homem. “Vai sustentar uma família como, sendo professor?” — como se ensinar fosse profissão menor e como se mulheres não participassem do sustento familiar. E como se, também, formar uma família fosse uma obrigação e não uma escolha.

No cotidiano, encontro ainda outra curiosidade: pessoas que, tentando falar “corretamente”, acabam exagerando. Ouço com frequência construções como “Tu fostes ao cinema?” “O que fizestes ontem?” A intenção é parecer culto/a, é louvável. Costumo brincar dizendo: “Eu não sou vós”. O “s” final pertence ao pronome “vós”, não ao “tu”. Raramente corrijo amigos – não por falta de vontade, mas porque a correção costuma ser interpretada como pedantismo. “Quem é ela para me corrigir? Eu falo como quiser.” E, de fato, cada um fala como deseja. Eu mesma erro, tenho dúvidas, pesquiso e aprendo constantemente. Não sou infalível. Mas estudei justamente para poder ensinar.

E ensinar é uma atividade profundamente paradoxal, uma das formas mais intensas de aprender: quanto mais ensinamos, mais aprendemos, creio eu. Digo isso aos meus alunos o tempo todo. Cada turma me obriga a rever explicações,
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buscar referências novas e enxergar perspectivas diferentes.

Há um princípio pedagógico importante: quando metade de uma turma não atinge a nota mínima, o problema pode estar no método, no professor ou nas diretrizes da escola. Não é regra absoluta, mas é um alerta relevante. Por outro lado, também digo em sala que ninguém se destaca apenas com o conteúdo apresentado pelo docente. O aprendizado depende, também, do esforço do estudante. Não se constrói excelência apenas assistindo aulas. É preciso ler, pesquisar, duvidar, aprofundar-se. Não fosse assim, não teríamos a luz elétrica, carros, aviões e vacinas. Se a humanidade tivesse se limitado ao que já sabia, ainda viveríamos na era do “que sejE bom”. Coisa que, aliás, lamentavelmente ainda ouço.

Escrever e aprender são atividades irmãs. Alguns dirão que não nasceram para escrever, e eu compreendo. Nem todos escreverão livros, artigos ou crônicas. O que me parece mais difícil é compreender a recusa em aprender.

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Há um universo inteiro de conhecimentos à nossa espera, e uma única vida parece insuficiente para explorá-lo. Ainda assim, vale a tentativa. Aprender é um ato de humildade. E escrever também.

Talvez por isso eu continue fazendo ambos. Porque escrever e aprender são, para mim, tão naturais quanto respirar.

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