Aconteceu comigo. Novembro de 1977. Havíamos terminado uma manhã de aulas em Presidente Prudente, interior de São Paulo. Eu e Claudemir. Ele na Física e eu na Matemática. Aulas de cursinho para o primeiro vestibular sob a égide da FUVEST.
Findas as aulas, teríamos de enfrentar a Raposo Tavares até a capital paulista e eu, ainda, mais uns 100 quilômetros até São José dos Campos. Claudemir residia na Vila Mariana e sua viagem terminava ali, no Terminal Rodoviário da Luz, estação antiga e cheia de abóbadas coloridas no teto.
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Ocupei-me com a leitura de Histórias Extraordinárias, de Edgar Allan Poe. Atrás de mim, a criatura, vulgo amigo, estava empolgada na ficção científica, lendo uma publicação alemã (devidamente traduzida) denominada Perry Rhodan.
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Meu amigo leitor, minha amiga leitora, quem de nós, do gênero masculino, não vislumbra, nessas horas, a doce possibilidade de que seu assento ao lado seja ocupado por uma beldade como uma Candice Bergen daqueles tempos? Lembram-se
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Fiquei espremido entre ele e a janela. Não bastasse, aquele hipopótamo achou de puxar conversa comigo. De pronto, meu amigo deu um toque no ombro daquele paquiderme humano e foi logo alertando:
— Meu senhor, esse meu amigo é surdo-mudo.
Mas o danado queria puxar conversa, o que não necessariamente significa falar. E começou a gesticular, fazendo ares de que lá fora estava muito quente. Fez isso abanando-se e apontando para a janela, para me mostrar que lá fora o calor não estava fácil. Foi quando meu amigo se prontificou:
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Não deu outra. O homem falava e meu amigo “traduzia” com gestos que nem de longe eram libras. Eu entrei no clima e fui respondendo da mesma forma. Uma pantomima. Eu, por dentro, morrendo de rir, até que fiz um gesto juntando as palmas das mãos e as coloquei ao lado do rosto, já meio inclinado. O volumoso cidadão entendeu que eu queria dormir e consentiu, fazendo sinal de positivo.
Dormi por uns duzentos quilômetros, até que nossa condução estacionou num desses postos de serviço. Acordei. Claudemir levantou-se e já foi me convidando, todo animado:
— Vamos tomar uma cervejinha?
— Vamos nessa — respondi. Por quê? E para quê?
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— @$#%7(!”-)¨%$##@@!4#@”
— disse tudo, usando todos os palavrões que o leitor conhece ou vai um dia aprender, e ainda foi dizendo poucas e boas o resto da viagem.
Quando desembarcamos, reclamei com meu amigo.
— Por que aquela palhaçada? Tive que ouvir o que ouvi e ficar calado!
Peguei o ônibus para São José, transtornado. Não precisava ter ouvido o que ouvira.
Cheguei em casa calado e não conseguia esconder meu aborrecimento. A mulher, preocupada, serviu-me o jantar e eu ali, quieto, sem muito o que dizer, até que ela, toda cheia de dengos...
— O que foi? Por que você está assim, meu amor? Parece surdo-mudo.
Pode uma coisa dessas?










